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Como o farmacêutico pode sair do varejo e entrar na indústria

Marcelo de Valécio   22 Julho 2021   5138   Varejo Farmacêutico
Como o farmacêutico pode sair do varejo e entrar na indústria

Cada vez mais farmacêuticos têm se interessado pela área industrial, seja pelas boas oportunidades que oferece de ascensão profissional e também pela remuneração, mais atraente do que outros segmentos. Ao passo que é mais valorizada, a carreira industrial é também das mais concorridas e que exige capacitação constante.

A maioria das oportunidades está localizada em Estados que possuem polos industriais. De acordo com o Anuário Estatístico do Mercado Farmacêutico 2021, produzido pela Secretaria Executiva da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a maior concentração de indústrias farmacêuticas foi verificada em São Paulo, que, sozinho, responde por 56,25% do total de empresas do setor no País, detendo 76,85% do faturamento e 64,89% da quantidade de embalagens comercializadas.

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Outra participação importante, em termos de quantidade de unidades vendidas, é de Goiás, com 14,61% do total, segunda posição nesse quesito, e 4,34% do faturamento. Outros Estados em destaque são o Rio de Janeiro, com 10,14% do faturamento total do setor e com 5,69% da quantidade de embalagens comercializadas, e o Paraná, com 3,77% do faturamento e 5,78% das embalagens.

Tomando-se como base o maior polo fabril farmacêutico do País – São Paulo –, a faixa salarial do farmacêutico industrial, segundo pesquisa do portal Salario.com.br, fica entre R$ 5.968 e R$ 13.062, sendo que a média de remuneração fica em R$ 6.539 para uma jornada de trabalho de 40 horas semanais.

Segundo os especialistas, ser farmacêutico na indústria exige do profissional conhecimentos aprofundados de gestão industrial e ferramentas da qualidade, normas nacionais e internacionais de Boas Práticas de Fabricação, técnicas de controle de qualidade, gestão de projetos e processos e, principalmente, da legislação sanitária do setor.

Capacidade de negociação, aptidão para tarefas administrativas e algumas habilidades, como liderança e comunicação, são imprescindíveis, visto que estes profissionais assumem, muitas vezes, cargos de nível estratégico ou tático nas empresas onde atuam. Ter domínio da língua inglesa é imprescindível para acessar a literatura técnica da área, e o espanhol é um diferencial para quem pretende atuar na carreira.

A farmacêutica industrial e professora da pós-graduação de Gestão da Qualidade e Auditoria em Processos Industriais do ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, Luciana Colli, destaca que, para quem quer seguir carreira no setor industrial, é preciso muita dedicação para estudar, desenvolver a própria capacidade de trabalhar em grupo e de gerir pessoas e processos.

Luciana conta que começou a carreira em empresas do varejo farmacêutico fazendo Autorização de Funcionamento de Empresa (AFE) e Autorização Especial de Empresa (AE), depois migrou para fabricantes, importadores e distribuidores de produtos para a saúde. Foi um longo caminho percorrido até atingir um cargo de gestão.

Segundo a professora, no início da carreira não existiam muitos cursos de pós-graduação na área, então ela teve de aprender fazendo, lendo e estudando sozinha. “Era um grande desafio devido à complexidade dessa área de atuação. Mas, atualmente tenho uma carreira madura, ministro aulas, trabalho na indústria e presto consultoria”.

Os especialistas são unânimes ao afirmar a importância da formação continuada para quem objetiva atuar na indústria. Cursos de especialização e pós-graduação ligados diretamente ao setor farmacêutico e em outras áreas, como em gestão, controle de qualidade e marketing, além de idiomas, são condições que colocam o profissional um passo à frente dos demais.

“O farmacêutico que tem cursos de extensão é valorizado na companhia”, salientou em entrevista recente o diretor de Desenvolvimento Farmacotécnico do laboratório Aché, Edson Bernes. “Para cargos técnicos, especializações são bastante relevantes. Já para as carreiras de gestão é desejável que o profissional tenha cursado MBA em gestão ou em estratégia empresarial”, completa o executivo. O recém-formado deve avaliar a área/setor da indústria que mais lhe agrada e direcionar sua carreira para essa área, com cursos de aperfeiçoamento e pós-graduação.

Muitos laboratórios apostam em recém-formados ou profissionais em início de carreira. Alguns exigem alguma experiência na área industrial, outros preferem formar sua mão de obra. Nesse caso, o estágio é a principal porta de entrada na indústria farmacêutica. Apesar de as empresas não exigirem que o estágio seja feito exclusivamente na área industrial, isso pode ser um diferencial na hora da contratação, conforme revelou recentemente o diretor de RH da Prati-Donaduzzi, Diones Wolfart. “A participação em um estágio na indústria propícia vivência e visão sistêmica aos participantes, além de proporcionar a base de conhecimentos técnicos necessários para uma futura efetivação”, assinalou Wolfart.

Em outra ponta, nem todos os gestores de RH veem o estágio industrial como decisivo. No Aché “a vivência prévia dependerá muito da oportunidade ofertada, pois caso aconteça nas áreas técnico-administrativas, como marketing, novos negócios, suprimentos, médica, a experiência no setor industrial não é relevante”, frisa Edson Bernes.

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Mas não são apenas os jovens que tem espaço para atuar na indústria. Profissionais farmacêuticos que desejam mudar de área e atuar no ramo industrial não enfrentam resistência nas indústrias farmacêuticas, porém devem se atualizar sobre o que está acontecendo no setor. “As portas da empresa não se fecham para profissionais de outras áreas, desde que eles estejam em dia com o que acontece na indústria farmacêutica e com a legislação”, revela Neide Cardoso Silva, gerente executiva de RH da Cimed.

De acordo com Edson Bernes, o farmacêutico é um profissional multifacetado e essa formação vem desde a academia. “Contudo, a característica que se busca dele vai depender muito da área de atuação na indústria. De forma geral, quanto mais completo for o conhecimento que o farmacêutico possuir, melhor. A especialização para as áreas técnicas é sempre muito bem-vinda”.

Outra característica fundamental para o farmacêutico que quer mudar de área é gostar de trabalhar na indústria. Luciana Colli afirma que se interessava por essa área desde quando cursava a faculdade. “Um dia, um pequeno empresário precisava do serviço e me convidou para fazê-lo. Na época, eu não tinha muita experiência, e ele, poucos recursos financeiros. Mas abracei a oportunidade e acreditei no meu desempenho profissional, e isso me ajudou muito. Foi a partir dessa primeira experiência que adquiri conhecimentos novos e que me valeram muito. E foi a partir daí também que percebi que a área demanda conhecimento nos diversos setores das empresas”.

Luciana dá uma dica para o farmacêutico que deseja sair do varejo para entrar na Indústria. “Investir em qualificação, tanto técnica quanto de cultura em geral. Ter fluência em idiomas, fazer intercâmbio e investir na própria imagem, na capacidade de construir relacionamento e rede de contatos”. A professora do ICTQ revela também quais são as áreas que mais remuneram na indústria. “A área de gestão da qualidade, assuntos regulatórios, marketing e estratégia são as mais interessantes e atrativas na indústria farmacêutica”, diz. “Mas requerem um pouco além do conhecimento técnico. É preciso ser criativo, flexível e capaz de trazer soluções para a empresa”, ensina Luciana.

Leia mais: Quer fazer carreira na indústria farmacêutica? Então siga essas 9 dicas.

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