Skip to main content

Acordo com Sinovac impediu divulgação de dados completos da Coronavac

Marcelo de Valécio   12 Janeiro 2021   2633   Indústria Farmacêutica
Acordo com Sinovac impediu divulgação de dados completos da Coronavac

O contrato entre a chinesa Sinovac e o Instituto Butantan impediu a divulgação dos dados completos de eficácia da Coronavac, revelou a Folha. Estima-se que a taxa de eficácia da vacina contra a Covid-19 seja de cerca de 64%, menor que a divulgada pelo governo paulista, de 78% para casos leves.

Apesar do anúncio do resultado da Coronavac para prevenção em casos leves (que necessitam de algum auxílio médico), a maior lacuna nas informações reveladas pelo Butantan foi a eficácia que engloba também aqueles que não precisaram de assistência, mas que foram infectados.

De acordo com pessoas ligadas à pesquisa da vacina, a razão dessa ausência de informações completas é a proibição, pelo contrato que tem com a Sinovac, de o Butantan anunciar ao público qual é a taxa sem autorização da empresa chinesa, conforme apurou o jornal.

Em novembro, a CNN já havia levantado que no acordo entre Sinovac e Butantan há menções explícitas sobre a divulgação de dados. Segundo a emissora, no item 4.8.6 do termo, consta que “a Sinovac detém os direitos de propriedade intelectual e interesses da Sinovac na vacina e que os dados clínicos da Fase III abrangem os direitos de propriedade intelectual e interesses da Sinovac na vacina”.

Já em outra parte do acordo a ressalva é direta: “a menos que expressamente permitido por este acordo ou com o consentimento prévio escrito e expresso da Sinovac, o Butantan não irá manusear, utilizar, descartar, divulgar, para permitir que seja utilizado ou compartilhar com terceiros ou suas próprias filiadas (exceto com as autoridades regulatórias) o dossiê do produto de propriedade e fornecido pela Sinovac”, diz o texto, conforme a Folha.

Publicidade

Apesar das restrições, o diretor do Butantan, Dimas Tadeu Covas, apontou em coletiva de imprensa alguns dados aproximados relacionados a infecções pela Covid-19 detectadas durante a fase 3 do estudo da Coronavac no Brasil. Segundo ele, foram 218 infecções, sendo 160 no grupo placebo e pouco menos de 60 no grupo vacinado.

A partir desses dados, a Folha calculou uma eficácia de cerca de 64% na vacina, 14 pontos percentuais abaixo dos 78% de prevenção de casos leves e 14 pontos percentuais acima dos 50% da eficácia mínima exigida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Para chegar a esse número – precisamente 63,75% –, leva-se em conta 58 infecções no grupo vacinado e grupos (placebo e o que tomou a vacina) do mesmo tamanho.

Além da divulgação dos resultados do ensaio clínico da Coronavac na Indonésia (que mostrou 65% de eficácia), a crescente especulação sobre a real eficácia do imunizante e o prazo de análise por parte da Anvisa, a vencer já no próximo dia 18, podem ter contribuído para que a Sinovac concordasse com a antecipação da divulgação, dizem as fontes ouvidas pelo jornal.

Um dos motivos de a Sinovac ter segurado inicialmente o anúncio dos resultados brasileiros seria a discrepância em relação a resultados dos testes em outras partes do mundo, como na Turquia, onde a eficácia anunciada foi de 91,25% – apesar de o país ainda ter somente dados provisórios.

​Receba nossas notícias por e-mail: Cadastre aqui seu endereço eletrônico para receber nossas matérias diariamente

De acordo com os cientistas ouvidos pelo jornal, para essa diferença tem pelo menos dois componentes. O primeiro é a população de cada país, que está longe de ser homogênea. O segundo é intrínseco ao ensaio brasileiro.

Por aqui os voluntários eram profissionais de saúde, que sofriam uma exposição muito maior aos vírus. Nesse caso têm que ser considerados o número de encontros com possíveis fontes de infecção e a maior quantidade de vírus que chega no sistema respiratório dessas pessoas.

Seja como for, mesmo com uma eficácia geral mais baixa, quando comparada a outras vacinas, como a da Pfizer (95%) ou a russa Sputnik V (90%) – que ainda não teve dados da fase 3 disponibilizados para a comunidade científica avaliar –, especialistas afirmaram ao jornal que a Coronavac pode ser fundamental para conter as mortes por Covid-19 no País, tendo em vista o sucesso de 100% em evitar quadros graves nos testes.

Outra vantagem da Coronavac é a facilidade de armazenamento, em refrigeradores convencionais. Além disso, como a produção está sendo feita pelo Butantan, a logística de distribuição do imunizante também tende a ser facilitada.

Desde sexta (8/1), a Anvisa está analisando o pedido de uso emergencial da vacina. Ela tem dez dias para esse trabalho. Só depois disso haverá a divulgação dos dados e, por fim, a publicação dos resultados na forma de artigo científico. Segundo a Folha, o Butantan prometeu para hoje (12/1) divulgar a totalidade dos dados da vacina.

Participe também: Grupos de WhatsApp e Telegram para receber notícias farmacêuticas diariamente

Obrigado por apoiar o jornalismo profissional

A missão da Agência de notícias do ICTQ é levar informação confiável e relevante para ajudar os leitores a compreender melhor o universo farmacêutico. O leitor tem acesso ilimitado às reportagens, artigos, fotos, vídeos e áudios publicados e produzidos, de forma independente, pela redação da Instituição. Sua reprodução é permitida, desde que citada a fonte. O ICTQ é o principal responsável pela especialização farmacêutica no Brasil. Muito obrigado por escolher a Instituição para se informar.

Realidade virtual possibilita visita ao Laboratório Teuto

Profissionais e estudantes da área de saúde já podem conhecer o Visite Bem, que…

EMS comemora liderança do mercado de genéricos desde 2013

O setor de medicamentos genéricos passa por um bom momento no Brasil. Segundo a…

Prati-Donaduzzi desenvolve canabidiol sintético no Paraná

A indústria farmacêutica Prati-Donaduzzi está inovando. Em sua fábrica de insum…

Covid-19: coquetel de anticorpos na reta final dos testes clínicos

A indústria farmacêutica norte-americana Regeneron anunciou na segunda-feira (6…

Astrazeneca diz que estudos da vacina não indicam prejuízos a gestantes

Logo após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomendar, nesta…

Descoberta no sistema imunológico revela potencial para novos antibióticos

Uma nova parte do sistema imunológico foi descoberta, e é uma mina de ouro para…

Novo medicamento mostra resposta rápida no tratamento da depressão pós-parto

A chegada de um bebê costuma ser um momento de alegria, mas, para muitas mulher…

Cimed avança na aquisição da Jequiti cosméticos

As negociações entre a indústria farmacêutica Cimed e o Grupo Silvio Santos par…

Após 50 anos, nova classe de antibióticos pode ser lançada.

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pesquisadores descobriram uma nova classe de antib…

Rentosertib: o primeiro medicamento criado 100% com IA mostra resultados promissores contra doença grave

A Insilico Medicine, empresa de biotecnologia baseada em inteligência artificia…