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Nanotecnologia amplia possibilidades no desenvolvimento de medicamentos

Marcus Andrade   03 Janeiro 2017   33518   Indústria Farmacêutica
Nanotecnologia amplia possibilidades no desenvolvimento de medicamentos

Terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Até pouco tempo era inimaginável pensar na manipulação da matéria numa escala atômica e molecular. Isso já é uma realidade e é conhecida como nanotecnologia. Quando aplicada ao segmento farmacêutico, ela apresenta novas propriedades com potencial para revolucionar as atuais tecnologias de entrega de fármacos e oferecer oportunidades para criar novos sistemas de liberação para fármacos pouco solúveis e com outras dificuldades técnicas.

A nanotecnologia aplicada a medicamentos pode ser utilizada para modificar características como biodisponibilidade, liberação, direcionamento e desempenho de fármacos. Materiais em escala nanométrica podem atuar, por exemplo, como carreadores de princípios ativos e apresentar propriedades diferentes das observadas em materiais convencionais.

Além das vantagens de aumentar o potencial para administração, sistemas de liberação de fármacos em escala nano podem também ser utilizados para direcionar o princípio ativo a determinados tecidos ou células, contribuindo para reduzir exposições indesejadas e melhorar o perfil terapêutico.

Para a professora da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais, Mônica Cristina de Oliveira, de acordo com o design dos nanossistemas desenvolvidos, pode-se alterar a distribuição dos fármacos no organismo: “Isso contribui para a sua ação no local acometido pelo processo patológico, como por exemplo, no caso do tratamento do câncer com nanossistemas, tendo acoplados na sua superfície ligantes que podem interagir com receptores que são super expressos em células tumorais e tendo associados a esses nanossistemas o fármaco antitumoral”.

Ela diz ainda que esse produto poderá então atuar de forma mais seletiva nas células tumorais, preservando tecidos saudáveis e contribuindo para o aprimoramento da eficácia terapêutica e redução de efeitos adversos indesejáveis.

Desafios

Mônica ressalta os principais desafios no desenvolvimento da nanotecnologia para a indústria farmacêutica:

  1. Formação de corpo técnico devidamente qualificado na área de nanotecnologia;
  2. Estabelecimento de infraestrutura física para a organização e caracterização dos nanossistemas preparados nas etapas de pré-formulação, assim como em escala industrial;
  3. Garantia de fornecimento das matérias-primas e seu custo, de acordo com os nanossistemas a serem preparados;
  4. Interlocução com as agências de regulação sanitária para o registro e comercialização dos produtos nanotecnológicos.

Benefícios para as indústrias

A professora afirma que tanto as indústrias como os usuários podem ser beneficiados com essa tecnologia. Ela destaca como benefícios para a indústria a inserção no portfólio de produtos inovadores e com potencial de maior eficácia terapêutica, redução de determinados efeitos adversos e melhoria da qualidade de vida dos pacientes.

Outras vantagens são a viabilização da administração de fármacos pouco solúveis em água mediante sua incorporação em nanossistemas e o aumento de estabilidade de determinados fármacos, como peptídeos, proteínas e ácidos nucleicos em meios biológicos. “Eu citaria como vantagem também o aumento de permeação de substâncias bioativas hidrofílicas mediante administração por via tópica”, fala ela.

As indústrias já vislumbraram o avanço que essa tecnologia pode proporcionar ao desenvolvimento farmacêutico. No final de 2016, Aché e Ferring Pharmaceuticals anunciaram uma colaboração em Pesquisa e Desenvolvimento para criação do Nanotechnology Innovation Laboratory Enterprise (NILE).

A parceria foi estruturada para desenvolver uma plataforma baseada em nanotecnologia voltada à melhoria da biodisponibilidade, eficácia e segurança de medicamentos administrados por via oral. Entre os potenciais benefícios apontados pelas empresas estavam redução de efeitos adversos, aumento da adesão dos pacientes ao tratamento e maior conveniência posológica.

A partir de 2017, o laboratório conjunto de P&D, batizado de Nanotechnology Innovation Laboratory Enterprise (NILE), foi planejado para funcionar no centro de pesquisa e desenvolvimento do Aché no Brasil, financiado pelas duas empresas e administrado por um comitê diretor conjunto.

A plataforma deveria explorar nanotecnologias aplicadas aos sistemas de liberação de fármacos.

Para o Aché, a iniciativa era estratégica para acelerar o desenvolvimento de novas alternativas tecnológicas para medicamentos. Para a Ferring, a plataforma poderia ser aplicada especialmente ao desenvolvimento de formulações envolvendo peptídeos e proteínas.

“O desenvolvimento de novas formulações terapêuticas melhorará as características de liberação de drogas. Isso representa uma forte ferramenta estratégica para proporcionar mais vida às pessoas, onde quer que elas estejam”, afirma o presidente do Aché, Paulo Nigro. “Atuando conjuntamente em P&D, por meio de colaboração e compartilhamento de recursos e habilidades, criaremos um ambiente científico único e capaz de enfrentar os principais desafios em formulações de medicamentos”.

Já o vice-presidente executivo e chefe científico da Ferring, Per Falk, afirma: “Nossa colaboração está focada no desenvolvimento de novos tratamentos farmacêuticos baseados em nanotecnologia para resolver desafios de biodisponibilidade e atender melhor às necessidades de nossos pacientes”.

Melhor resposta terapêutica

Segundo Mônica, entre os benefícios que o usuário de medicamentos poderá perceber estão:

  1. A interação mais seletiva do fármaco com o local acometido pela doença, o que pode refletir numa melhor resposta terapêutica e, consequentemente, redução da dose necessária e menor incidência de determinados efeitos adversos;
  2. Alguns nanossistemas podem liberar o fármaco de forma prolongada, permitindo aumentar o intervalo de administração do medicamento e trazendo maior conforto ao paciente;
  3. Certos nanossistemas podem permitir o uso de vias não invasivas de administração de fármacos, como a via tópica.

“Considero de extrema importância conhecer de maneira aprofundada a biologia envolvida na patologia para a qual se deseja implementar um tratamento, pois isso auxilia na definição de características importantes para o design de um nanossistema adequado para a incorporação do fármaco a ser utilizado, levando em consideração as vias de administração possíveis e barreiras biológicas a serem transpostas”, destaca a professora.

Ela afirma ser fundamental a interação e discussão entre os institutos de ciência e tecnologia, setor privado e agências de vigilância sanitária para a disponibilização de medicamentos de base nanotecnológica.

Nota editorial: Este conteúdo foi produzido originalmente pela equipe de jornalismo e conteúdos do ICTQ, com autoria de Marcus Andrade e revisão técnica do Diretor Acadêmico Ismael Rosa, CRF-GO 7311.

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