Skip to main content

Vaticano investiu R$ 130 milhões em farmacêuticas que produzem a pílula do dia seguinte

Marcelo de Valécio   03 Mai 2021   14542   Indústria Farmacêutica
Vaticano investiu R$ 130 milhões em farmacêuticas que produzem a pílula do dia seguinte

O Vaticano investiu, ao longo de 20 anos, um total de € 20 milhões (R$ 130,4 milhões) em duas indústrias farmacêuticas (as suíças Roche e Novartis) que produzem a pílula do dia seguinte, revelou a revista portuguesa Visão. Papa Francisco modificou procedimentos e determinou investimentos apenas em fundos compatíveis com a doutrina católica.

De acordo com o ex-auditor geral responsável pelas contas da Santa Sé, Libero Milone, em entrevista à rede de TV italiana Rai 3, ao longo de duas décadas (até 2016), o Vaticano apostou em empresas farmacêuticas que produzem, entre outros medicamentos. A polêmica rendeu na imprensa internacional pelo fato de o contraceptivo pílula do dia seguinte ser para uma utilização que vai contra os ideais defendidos pela Igreja.

Publicidade

Segundo Milone, a Secretaria de Estado do Vaticano possuía ações que somavam cerca de € 20 milhões (R$ 130,4 milhões) das farmacêuticas suíças Novartis e Roche. “Por 20 anos, o Vaticano investiu em indústrias que produziram a pílula do dia seguinte”, revelou à emissora o ex-auditor. No caso da Novartis, sua subsidiária Sandoz é uma das principais produtoras da pílula do dia seguinte.

O investimento teria sido feito através da Administração do Patrimônio da Sé Apostólica (APSA), uma espécie de ‘Banco Central’ do Vaticano, responsável por cuidar de seus assuntos econômicos. Após o relatório de Milone com essas informações, as ações teriam sido “imediatamente vendidas” para evitar um possível escândalo. Milone acabou afastado do cargo em 2017, devido a uma suspeita de que estivesse trabalhando como espião.

Milone disse ainda que ele mesmo considerava o financiamento como um “investimento de risco”, uma vez que iam contra a doutrina defendida pela Igreja Católica, acrescentando que chegou a comunicar o caso às altas hierarquias do Vaticano.

Para o ex-auditor geral, o caso comprova que os investimentos vaticanos geralmente eram feitos de maneira descuidada. Milone descarta, porém, que a controversa aplicação seja parte de alguma conspiração ou evidencie caso de má conduta administrativa.

O atual presidente da APSA, Nunzio Galantino, nomeado para o cargo, em 2018, pelo papa Francisco, afirmou ao jornal italiano il Fatto Quotidiano que os investimentos do governo administrativo da Igreja Católica seguiam “critérios éticos”, com a intenção de evitar que sejam realizados em empresas que vão contra os valores defendidos. Na entrevista, ele acrescentou ainda que não teve conhecimento sobre os investimentos nos laboratórios, uma vez que não fazia parte da APSA nessa época.

Receba nossas notícias por e-mail: Cadastre aqui seu endereço eletrônico para receber nossas matérias diariamente

Na semana passada, o Papa Francisco emitiu novas regras para combater a corrupção, que faz com que os cardeais e gestores do Vaticano sejam obrigados a declarar se investem apenas em fundos compatíveis com a doutrina católica e que não estão sob investigação criminal, nem têm dinheiro em paraísos fiscais.

Em 2019, como parte das reformas que vinha implementando na Cúria Romana, o papa já tinha renovado os estatutos do Instituto para as Obras de Religião (IOR), especificando os princípios católicos nos quais devem se basear a atuação do órgão. As novas regras estabelecem critérios ‘negativos e positivos’ para a seleção de investimentos financeiros coerentes com a ética católica, selecionando apenas empresas que realizam atividades em conformidade à Doutrina Social da Igreja.

Como funciona a pílula

A pílula do dia seguinte é um contraceptivo de emergência, que deve ser utilizada somente em último caso. Por exemplo, estupro ou falha do preservativo no momento da ejaculação. Ou então quando a pessoa se esquece de tomar a pílula anticoncepcional durante dois, três dias, e só se lembra no momento da relação, explicaram ao blog do doutor Drauzio Varela os médicos Donizetti Ramos dos Santos, do Núcleo de Mastologia do Hospital Sírio-Libanês de São Paulo, e Marta Curado, presidente da Comissão de Anticoncepção da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia.

Segundo eles, não se deve fazer da pílula um hábito nem tomar mais que uma dose por mês. O ideal é que a mulher tome a pílula o mais próximo possível da relação sexual desprotegida. Mas ela tem até três dias (72 horas) para fazer isso. Nas primeiras 24 horas, a eficácia da pílula é de 88%, e vai diminuindo conforme os três dias passam. O medicamento é vendido em dose única e em dois comprimidos. É indicado que a mulher tome um comprimido e espere 12 horas para tomar o outro. Entretanto, para não haver esquecimento, ela pode optar por tomar os dois de uma vez.

“A pílula do dia seguinte é composta por progestina sintética, com isso, por retroalimentação negativa no hipotálamo e consequente redução na secreção dos hormônios folículo estimulante (FSH) e luteinizante (LH), a ovulação é inibida, impedindo a gravidez”, acrescenta o farmacêutico e professor da pós-graduação em Farmácia Clínica e Prescrição Farmacêutica no ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, Rafael Poloni.

Participe também: Grupos de WhatsApp e Telegram para receber notícias farmacêuticas diariamente.

Obrigado por apoiar o jornalismo profissional

A missão da Agência de notícias do ICTQ é levar informação confiável e relevante para ajudar os leitores a compreender melhor o universo farmacêutico. O leitor tem acesso ilimitado às reportagens, artigos, fotos, vídeos e áudios publicados e produzidos, de forma independente, pela redação da Instituição. Sua reprodução é permitida, desde que citada a fonte. O ICTQ é o principal responsável pela especialização farmacêutica no Brasil. Muito obrigado por escolher a Instituição para se informar.

EMS mira mercado dos EUA e entra na disputa global dos GLP-1

A mesma linha de produção de Hortolândia (SP) que colocou no varejo brasileiro…

Covid-19: Sanofi deve priorizar EUA caso descubra vacina, mas revolta França

Na quinta-feira (14/05), a Sanofi foi advertida pelo governo francês. Em entrev…

Planta da Amazônia revela potencial antiviral contra o coronavírus, aponta estudo

Um estudo publicado na revista científica Scientific Reports identificou que co…

Superbactérias versus novos antibióticos: quem vai vencer essa guerra?

Segunda-feira, 15 de outubro de 2018 Pode parecer um movimento lento...quase i…

Pontos fundamentais da análise de riscos na indústria farmacêutica

Quinta-feira, 9 de novembro de 2017 Todas as atividades produtivas possuem alg…

EMS é condenada a pagar R$ 5 milhões por referência indevida ao Viagra

A indústria farmacêutica EMS foi condenada por concorrência parasitária pela co…

Os bastidores da criação da ‘vacina da Pfizer’

É muito raro que uma empresa, ainda mais de um segmento tão delicado quanto o f…

GreenCare investirá R$ 40 milhões na fabricação de medicamentos à base de cannabis

Com objetivo de entrar no mercado de produção de medicamentos à base de cannabi…

Lucro da Sanofi recua 6,5% no 1º trimestre de 2021

A farmacêutica francesa Sanofi reportou um recuo de 6,5% em seus lucros nos pri…

Pfizer entra na Justiça contra Novo Nordisk por controle da Metsera, empresa de biotecnologia em obesidade

A Pfizer, gigante do setor farmacêutico nos Estados Unidos, está proc…