Skip to main content

Como evitar sanções em inspeções sanitárias com um gerenciamento de riscos eficaz

Egle Leonardi   19 Fevereiro 2025   1794   Indústria Farmacêutica
Como evitar sanções em inspeções sanitárias com um gerenciamento de riscos eficaz

As inspeções sanitárias por órgãos reguladores na indústria farmacêutica são um tema sensível. Ainda hoje, em meio a tantas informações disponíveis, é recorrente encontrar empresas que vivam um desgaste no pré e pós-inspeção. Isso, provavelmente, está relacionado à dificuldade de implementação de itens que são de grande relevância na obtenção e manutenção dos seus sistemas de qualidade.

A regulamentação sanitária relacionada às Boas Práticas de Fabricação (BPF) na indústria farmacêutica é de ampla aplicação, ou seja, se refere a diversos padrões de empresas (porte, segmento, produtos etc.), o que pode gerar lacunas interpretativas e desafios na implementação de práticas mais assertivas.

O gerenciamento de risco surgiu para apoiar as BPF visando favorecer a consciência e o conhecimento profundo dos produtos, processos e seus riscos. Sua correta aplicação auxilia a minimizar as lacunas interpretativas, proporcionando maior qualidade e segurança dos produtos fabricados. Contudo, existem alguns itens que ainda recorrem em dúvidas e utilizações errôneas. Nesse sentido a discussão do tema é sempre muito benéfica para a comunidade farmacêutica.

Frequentemente, escutava-se profissionais questionando a implantação do gerenciamento de risco, se isso estaria ligado a uma melhor utilização das ferramentas para análise de risco, mas, essa não é mais a questão central. O foco, agora, está na utilização correta das diferentes ferramentas disponíveis, assim como na aplicação de técnicas estratégicas para lidar com problemas de maneira estruturada e eficiente nas diferentes etapas do ciclo de vida. Já foi compreendido que todos os processos devem ter o gerenciamento de risco.

Segundo a professora do ICTQ - Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico e gerente de Garantia da Qualidade na Cazi Indústria Farmacêutica, Fernanda Bido, infelizmente, ainda há profissionais que utilizam a análise de risco para justificar lacunas dentro das empresas, tentando ‘justificar o injustificável’.

Em inspeções sanitárias, isso pode resultar em apontamentos graves e até mesmo em sanções, como interdições parciais ou totais de produtos ou processos.

“Portanto, o gerenciamento de risco é algo contante a ser realizado nas empresas, não deve se limitar apenas à aplicação de ferramentas de análise de risco, mas, uma abordagem estratégica e sistêmica para conhecer profundamente os processos e produtos, a fim de garantir, não somente a conformidade com as normas sanitárias, mas, a busca constante pela qualidade, segurança e eficácia”, fala Fernanda.

A Inspetora Líder em Fabricantes de Medicamentos do Centro de Vigilância Sanitária (CVS) do Estado de São Paulo, Simone dos Santos Silva, que desde 2017 atua na área, acompanhou a transição regulatória que ocorreu com a implementação da RDC 301/19, que mais tarde foi atualizada pela RDC 658/22.

Essa mudança representou um marco significativo para todas as empresas do setor, introduzindo novas exigências, como o gerenciamento de risco, a avaliação toxicológica e a implementação de ferramentas estatísticas para monitoramento e controle de processos.

“Mesmo após seis anos, ainda há dificuldades na compreensão e na aplicação do gerenciamento de risco no Brasil. O país está em um processo de aprendizado sobre essa prática, que se tornou essencial para garantir a segurança e a eficácia dos medicamentos. Antes, a preocupação era apenas com esses dois fatores. Hoje, entende-se que um sistema de qualidade robusto é indispensável para assegurar a eficácia dos produtos farmacêuticos, e um gerenciamento de risco eficaz é a base desse sistema”, diz Simone.

Riscos na produção de medicamentos precisam ser identificados, analisados e mitigados

Muitas pessoas questionam a necessidade desse gerenciamento, argumentando que os medicamentos são feitos para a saúde e, portanto, não deveriam envolver riscos. No entanto, é preciso reconhecer que há riscos no processo de fabricação, e que eles precisam ser identificados, analisados e mitigados para garantir a segurança do paciente.

Todos os riscos durante a produção devem ser considerados para que o produto final seja seguro e eficaz.

A fiscalização e o monitoramento desse setor representam um desafio, especialmente no Estado de São Paulo, que possui 645 municípios e mais de 200 empresas para serem inspecionadas.

“O CVS utiliza um sistema de categorização de risco para organizar as inspeções e priorizar as demandas, garantindo um controle mais eficiente. O gerenciamento de risco, portanto, não se aplica apenas à fabricação dos medicamentos, mas também ao planejamento das ações regulatórias”, explica Simone.

No setor farmacêutico, há uma diferença significativa entre grandes multinacionais e pequenos empreendedores. Empresas maiores têm mais acesso a conhecimento e recursos, enquanto as menores podem ter dificuldade em implementar todas as exigências regulatórias.

No entanto, a legislação não faz distinção: todas as empresas devem manter um sistema de qualidade adequado e estar alinhadas com os padrões exigidos.

Receba nossas notícias por e-mail: Cadastre aqui seu endereço eletrônico para receber nossas matérias diariamente

Outra mudança importante, com a RDC 301/19, foi a entrada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Pharmaceutical Inspection Co-operation Scheme (PIC/S), em 2020, e no International Council for Harmonisation (ICH). Isso trouxe novos desafios para o Brasil, que passou a ter a necessidade de internalizar diretrizes internacionais. O ICH e o PIC/S estabeleceram normativas que o país deve seguir, como a ICH Q9, voltada para o gerenciamento de risco.

Para facilitar a adaptação das empresas, há materiais disponíveis, como o Guia 62/23, da Anvisa, que apresenta as ferramentas de qualidade de forma acessível e objetiva. Mesmo assim, cada indústria precisa adaptar as normas à sua realidade, considerando suas características e processos específicos.

“O fabricante conhece, melhor do que ninguém, o seu produto, e deve utilizar todo o conhecimento científico disponível para aplicar as melhores práticas de gerenciamento de risco. Esse processo deve começar desde a concepção do medicamento, garantindo que a qualidade esteja presente em todas as etapas da produção”, destaca Simone.

Segundo a inspetora, a atualização regulatória com a implementação da RDC 301/19 trouxe uma mudança significativa ao introduzir o conceito de ciclo de vida do medicamento, que envolve a aplicação do Quality by Design (QbD), garantindo um planejamento estruturado, desde a bancada de pesquisa até a produção e validações.

Publicidade

O objetivo é assegurar que a qualidade esteja presente em todas as etapas, tornando-se um processo essencial e inegociável na indústria farmacêutica.

Como entender tudo sobre o assunto

Se você deseja se aprofundar nesses temas, o ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico oferece cursos de pós-graduação, como:

  • Assuntos Regulatórios na Indústria Farmacêutica - voltada aos assuntos regulatórios que regem a indústria farmacêutica no Brasil, farmacovigilância, estudos de equivalência e bioequivalência, vigilância sanitária em portos, aeroportos e fronteiras, legislação tecnovigilância, registro de insumos farmacêuticos, pós-registro de medicamentos, auditoria farmacêutica etc.
  • P&D Analítico e Controle de Qualidade na Indústria Farmacêutica (programa especial vai auxiliar no seu desenvolvimento para o manejo de técnicas e instrumentação analítica que lhe auxiliarão em suas competências na pré-formulação e formulação de medicamentos).

Saiba mais sobre os cursos de pós-graduação do ICTQ  AQUI.

 

Participe também: Grupos de WhatsApp e Telegram para receber notícias

 

Obrigado por apoiar o jornalismo profissional

 

A missão da Agência de Notícias do ICTQ é levar informação confiável e relevante para ajudar os leitores a compreender melhor o universo farmacêutico. O leitor tem acesso ilimitado às reportagens, artigos, fotos, vídeos e áudios publicados e produzidos, de forma independente, pela redação da Instituição. Sua reprodução é permitida, desde que citada a fonte. O ICTQ é o principal responsável pela especialização farmacêutica no Brasil. Muito obrigado por escolher a Instituição para se informar.

Após Lula cobrar mais agilidade da Anvisa e resposta de Barra Torres, senadora solicita projeto de lei para a criação de novos cargos na agência.

Foi divulgado, em 11/9, que a senadora Mara Gabrilli (PSD/SP) enviou uma indica…

Medicamento experimental da Novo Nordisk falha em reduzir infarto, AVC e morte

Um dos medicamentos experimentais mais aguardados do pipeline cardiovascular da…

Farmacêutico brasileiro desenvolve tecnologia inovadora e transforma o mercado de suplementos

Por trás de uma das tecnologias mais promissoras da indústria brasileira de sup…

Por que a Análise de Riscos reduz os custos na Indústria Farmacêutica

Sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020 A indústria farmacêutica busca, incessant…

Setor Farmacêutico cresce 10% e prevê performance ainda melhor em 2020

Quinta-feira, 16 de janeiro de 2020 Segundo o Sindicato da Indústria de Produt…

Medicamento que imita os efeitos do jejum e do exercício físico pode chegar ao mercado

  Um medicamento que reproduz os benefícios à saúde de correr dez quilôme…

Pfizer é processada por atraso na entrega das vacinas contra Covid-19

A indústria farmacêutica Pfizer está sendo processada pelo governo italiano dev…

Natulab fecha as portas devido a contaminação por coronavírus

Na segunda-feira (18/05), a prefeitura de Santo Antônio de Jesus, no recôncavo…

Nova indústria farmacêutica vai gerar 700 empregos em MG

O laboratório farmacêutico e de biotecnologia Cristália revelou avanços no proj…

Biomm fecha acordo e deve fornecer medicamento contra Covid-19 ao Brasil

A Biomm, empresa pioneira na produção nacional de insulinas, acaba de fechar um…