Skip to main content

Trump estoca 29 milhões de comprimidos de cloroquina

Wandy Ribeiro   06 Abril 2020   10820   Política Farmacêutica
Trump estoca 29 milhões de comprimidos de cloroquina

No domingo (05/04), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, revelou que o país comprou e armazenou mais de 29 milhões de doses de comprimidos de hidroxicloroquina e cloroquina para tratar pacientes infectados pelo novo coronavírus (Covid-19). Segundo o político, o medicamento já está sendo encaminhado para vários hospitais, laboratórios e até para os militares, mesmo sem ter sua eficácia comprovada, além de poder acarretar efeitos colaterais perigosos.

"Se funcionar, seria uma pena que não o fizéssemos tão cedo. Estamos enviando-os para vários laboratórios, para os nossos militares, enviando aos hospitais", contou o presidente americano. Para justificar a medida, Trump alegou que "existem sinais muito fortes e poderosos" sobre o potencial do produto contra a doença. No entanto, ele ressaltou: “Mas o que eu sei? Eu não sou médico ”.

Na reunião, que abordou, exclusivamente, ações de combate à pandemia, o político, novamente, fez o seguinte questionamento aos jornalistas: "O que você tem a perder?", perguntou ele, ao se referir ao uso da hidroxicloroquina por pacientes infectados.

Leia também: Automedicação de cloroquina explode no Brasil

Vale ressaltar que a declaração de Trump vai contra o posicionamento do próprio diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAD) dos Estados Unidos, o médico infectologista, Anthony Fauci, que já defendeu, em várias ocasiões, que estudos mais rigorosos ainda precisam ser realizados para comprovar a eficácia da hidroxicloroquina no tratamento à Covid-19.

Durante o briefing na Casa Branca, um repórter ainda tentou ouvir a posição de Fauci sobre a medida anunciada pelo presidente, entretanto, Trump não permitiu que o médico falasse e tomou a frente: "Ele respondeu a essa pergunta 15 vezes", disse ele.

É importante destacar que o uso da hidroxicloroquina para tratar o novo coronavírus já havia sido encorajado por Trump. Em 19 de março, o presidente pediu ao Food and Drug Administration (FDA), entidade que regula os medicamentos nos EUA, que acelerasse a aprovação definitiva do produto no combate ao vírus. Na ocasião, o comissário do órgão sanitário americano, Stephen Hansen, pediu cautela: "Precisamos ter certeza que, nesse mar de novos tratamentos, levaremos a droga certa, ao paciente certo, na dosagem certa e no momento certo", alertou.

No entanto, em 30 de março, o FDA aprovou, de forma emergencial, o plano do Governo americano para distribuir milhões de doses do medicamento para pacientes que estão em tratamento contra a doença. De acordo com o Estadão, o órgão sanitário alegou que "vale a pena arriscar tratamentos não comprovados para retardar a progressão do novo coronavírus em pessoas em estado grave".

O medicamento

A hidroxicloroquina, também conhecida pelo nome comercial de Reuquinol, é um medicamento utilizado no tratamento da malária, mas também já foi usado para combater doenças como artrite reumatoide e lúpus. Anteriormente, o produto também se mostrou eficaz contra a síndrome respiratória aguda grave (Sars), doença que, inclusive, pertence ao grupo coronavírus.

Um ponto polêmico em relação ao estímulo do uso do produto, sem que seja comprovada sua eficácia contra a Covid-19, está no fato de que muitos pacientes que precisam da hidroxicloroquina para tratar outras doenças estão tendo dificuldades para encontrar a substância nas farmácias.

No Brasil, por exemplo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) enquadrou a hidroxicloroquina e cloroquina como medicamentos de controle especial, justamente, para evitar que pacientes em tratamento de outras doenças fiquem sem o fármaco.

Em comunicado à imprensa, a Anvisa alertou: “Apesar de promissores, não existem estudos conclusivos que comprovam o uso desses medicamentos [hidroxicloroquina e cloroquina] para o tratamento da Covid-19. Assim, não há recomendação desse órgão, no momento, para a utilização em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção à contaminação. Ressaltamos que a automedicação pode representar um grave risco à sua saúde”.

Vale ressaltar que, em território nacional, o uso da hidroxicloroquina e cloroquina também é estimulado pelo presidente, Jair Bolsonaro, a exemplo de Trump.

Especialistas também alertam para os efeitos colaterais do produto. A própria bula do medicamento explica que o uso da substância apresenta reações adversas comuns em muitos pacientes, como, por exemplo: cefaleia, irritação do trato gastrointestinal, distúrbios visuais e urticária, entre outros sintomas. As orientações ainda explicam que doses diárias altas podem resultar em retinopatia e ototoxicidade irreversíveis.

Vítimas fatais

No domingo (22/03), um homem, de 60 anos, morreu, nos Estados Unidos, após fazer uso da hidroxicloroquina sem prescrição médica e orientação farmacêutica. Além disso, sua esposa também foi internada em estado grave, devido aos efeitos colaterais do produto.

Ao menos três pacientes contaminados pelo novo coronavírus (Covid-19) podem ter sido vítimas de automedicação por possíveis efeitos colaterais causados pela cloroquina e hidroxicloroquina na França. Com base nos casos, a Agência Nacional de Segurança de Medicamentos e de Produtos de Saúde (ANMS) emitiu um alerta aos franceses sobre os riscos de tomar o medicamento por conta própria, pois, o produto só pode ser consumido com prescrição médica e orientação do farmacêutico.

Posicionamento da OMS

Em comunicado à imprensa, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já se manifestou sobre o uso da hidroxicloroquina. De acordo com o órgão, embora a substância possa ter algum impacto no tratamento de alguns pacientes, não há, até o momento, um tratamento efetivo ou drogas comprovadas contra o novo coronavírus.

Participe também: Grupo de WhatsApp para receber notícias farmacêuticas diariamente

Obrigado por apoiar o jornalismo profissional

A missão da Agência de notícias do ICTQ é levar informação confiável e relevante para ajudar os leitores a compreender melhor o universo farmacêutico. O leitor tem acesso ilimitado às reportagens, artigos, fotos, vídeos e áudios publicados e produzidos, de forma independente, pela redação da Instituição. Sua reprodução é permitida, desde que citada a fonte. O ICTQ é o principal responsável pela especialização farmacêutica no Brasil. Muito obrigado por escolher a Instituição para se informar.

Anuidade do CRF pode deixar de ser reajustada anualmente

Boas novas para os farmacêuticos: na pauta 482, da Reunião Plenária Ordinária d…

Pandemia: pode faltar medicamento para pressão e diabetes, diz Mandetta

Laboratórios brasileiros podem sofrer com a falta de matérias-primas para produ…

Xadrez Político na ANVISA: Políticos e Indústria discutem renovação na Diretoria.

Protagonista na pandemia da Covid-19, quando se tornou alvo do ex-presidente Ja…

CORONAVÍRUS: CFF quer estagiários, estudantes de farmácia, na linha de frente

Na quinta-feira (19/03) o Conselho Federal de Farmácia (CFF) se reuniu com o Mi…

PL prevê distribuição de álcool e máscara em Farmácia Popular

Tramita no Senado Projeto de Lei (PL) 1.326/20 que prevê álcool em gel e máscar…

Projeto quer medicamento como serviço continuado

Em tramitação na Câmara dos Deputados, projeto altera a lei das licitações para…

Piso dos farmacêuticos fica sob risco após presidente do Senado, Davi Alcolumbre, criticar pisos salariais

A expectativa pela votação do piso nacional dos farmacêuticos voltou a enfrenta…

Câmara aprova PL que autoriza farmácias em supermercados

A Câmara dos Deputados aprovou, nesta segunda-feira 2 de março, o Projeto de Le…

CFF recorre à Justiça para garantir direito de farmacêuticos à prescrição de medicamentos

Os farmacêuticos buscam na Justiça recuperar um direito que vigorou por doze an…

Brasil tem 354 milhões de doses de vacinas ‘asseguradas’, segundo o Governo

Em pronunciamento ontem (6/1) na TV, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, dis…