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Vírus são agregados complexos de compostos orgânicos ou organismos vivos simples?

Egle Leonardi   04 Novembro 2019   80936   Farmácia Hospitalar
Vírus são agregados complexos de compostos orgânicos ou organismos vivos simples?

Ao pensar em organismos muito simples, acelulares, formados, basicamente, por proteínas e ácido nucleico, uma pessoa desavisada pode logo pensar em algo inofensivo, certo? ERRADO! Essa é a definição dos vírus, cujas estruturas podem impactar um organismo vivo, na medida em que os vírus são, obrigatoriamente, parasitas intracelulares, e não possuem metabolismo próprio...e muito menos são capazes de se reproduzir sem as células hospedeiras.

A palavra vírus vem do Latim, e significa fluído venenoso ou toxina. Eles podem medir menos de 0,2 µm e, por isso, sua abundância é digna de admiração: das 1.739.600 espécies de seres vivos conhecidos, os vírus representam 3.600 espécies! No entanto, vale uma reflexão: nessa configuração, eles realmente fazem parte desse universo de seres vivos? Há controvérsias...

Para decifrar uma questão sobre esse tema, o fundador do ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, Marcus Vinicius de Andrade, fez uma enquete por uma rede social, em um grupo do ICTQ (cuja audiência soma mais de 187 mil seguidores), em que ele perguntava: vírus são agregados complexos de compostos orgânicos ou organismos vivos simples?

Os vírus não são constituídos por células, embora dependam delas para a sua multiplicação. Eles não têm qualquer atividade metabólica quando fora da célula hospedeira. Em certos casos, eles modificam o metabolismo da célula que parasitam, podendo provocar a sua degeneração e morte, ou seja, provocam seu próprio desaparecimento.

Isso significa que não fazem parte de uma linhagem contínua, e não geram outros semelhantes por meio da reprodução (apenas por meio de um hospedeiro) – uma das características que a comunidade científica considera para os seres vivos.

Há os que digam que esse debate é mais filosófico, propriamente, do que científico, porque é baseado em percepções da definição do que vem a ser a vida.

Durante a enquete promovida por Andrade no grupo do ICTQ, muitas dezenas de respostas foram emitidas para tentar elucidar a questão. Primeiramente, é fundamental revelar o resultado, até o momento, da enquete: quase 70% das pessoas disseram que os vírus são organismos vivos simples e os 30% restantes acreditam que eles são agregados complexos de compostos orgânicos!

Não existe consenso

“É difícil a classificação dos vírus como seres vivos ou organismos sem vida. Até os dias atuais, não existe um consenso se os vírus são seres vivos ou não vivos. Ao questionarmos isso devemos refletir sobre o que realmente é vida”, polemiza o farmacêutico bioquímico, responsável pelo Laboratório de Pesquisa em Imunologia e Aids do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle e professor do programa de Pós-graduação em HIV/AIDS e Hepatites Virais da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), dr. Luiz Claudio Pereira Ribeiro.

Ele afirma que definir vida tem sido sempre um grande problema, e qualquer definição, provavelmente, será evasiva ou arbitrária, dificultando assim uma definição exata a respeito dos vírus.

No entanto, Ribeiro tem sua opinião, partindo do pressuposto que a ciência encontra-se em constante evolução e novos conhecimentos surgem a todo o momento: “Compartilho da ideia de que vírus são, sim, seres vivos, por entender a importância do material genético para a manutenção da vida e das espécies, e enxergar os vírus como organismos extremamente adaptados e capazes de transmitir suas características à sua descendência, embora se utilize de outro organismo para se manter”.

Já o professor do ICTQ, dr. Leonardo Doro Pires, diz que a teoria afirma que tudo o que é capaz de se reproduzir é considerado um ser vivo, mesmo sendo o vírus um parasita intracelular obrigatório e fazendo uso da estrutura celular hospedeira para se reproduzir: “O vírus nada mais é que uma informação que faz uso de uma estrutura alheia para sobreviver e se reproduzir. Para mim é um ser vivo”.

O professor do ICTQ, dr. Edson Luiz Oliveira, afirma: “Os vírus são entidades moleculares oriundas de organização molecular simétrica e dotada de sequência de nucleotídeos que possuem capacidade de interagir com unidades celulares, nessa interação inicia um processo de replicação baseada na utilização da maquinaria celular, unidades acelulares degeneradas, ou seja, produtos de involução”.

Características dos vírus

Os vírus são organismos pequenos e acelulares. Eles só conseguem se reproduzir no interior de outra célula (parasitas intracelulares obrigatórios) e, de uma maneira geral, não apresentam metabolismo próprio.

“Os vírus apresentam uma cápsula formada de proteína que envolve seu material genético, o qual pode ser DNA, RNA ou esses dois tipos. Chamamos de nucleocapsídio o conjunto formado pela cápsula e pelo ácido nucleico. Existem ainda vírus chamados de envelopados que possuem uma proteção lipídica externa derivada da célula hospedeira”, afirma Ribeiro.

Características de seres não vivos

Os vírus não possuem células (acelulares) - a unidade estrutural e funcional dos seres vivos. Essa característica contraria a Teoria Celular, que diz que todos os seres vivos são formados por células. Sem células, portanto, os vírus não são seres vivos.

Ribeiro pondera que, além disso, a ausência de metabolismo nesses organismos é um ponto que sugere que não se tratam de seres vivos. Esses organismos também não conseguem se reproduzir fora de uma célula, e a reprodução é um ponto-chave para considerar um ser como vivo.

Características de seres vivos

“Existem características que nos fazem pensar que eles são uma forma de vida. Uma delas é a presença de um material genético (RNA ou DNA), que armazena todas as informações sobre aqueles seres e indica que esses organismos são capazes de transmitir suas características aos seus descendentes”, evidencia Ribeiro, que continua, dizendo que eles também têm a capacidade de evoluir, pois, frequentemente, ocorrem modificações em suas propriedades - uma característica importante, uma vez que se admite que os seres vivos mais bem adaptados sobrevivem no meio.

Os vírus realizam algumas atividades consideravelmente complexas. Eles são capazes, por exemplo, de ‘enganar’ o sistema imunológico de uma pessoa e causar doenças, atividade complexa para um ser sem vida, segundo Ribeiro.

“Bem, se considerarmos a teoria celular, o vírus é uma exceção, ainda, levando em consideração a hierarquia biológica de classificação dos seres vivos, a saber: átomos, moléculas, organelas, células, tecido, órgãos, sistema, organismo”, cita o farmacêutico, dr. Genilson Oliveira, que complementa:  “Sendo assim, a questão seria abordar os vírus, microrganismos, como seres vivos e não como organismos. Nesse sentido, a discussão seria acerca de qual nível hierárquico pode considerar um microrganismo como ser vivo. Por fim, toda estrutura biológica é um agregado de complexos orgânicos. A discussão ainda se aflora ao considerar, baseado na teoria celular, que a célula é a unidade básica da vida”.

Estudo da Universidade de Illinois traçou a história evolutiva dos vírus, mostrando evidências de que eles são seres vivos. Foram analisadas dobras de mais de 5 mil organismos, entre eles, 3,5 mil vírus. Essas dobras são estruturas de proteína que ficam inscritas no genoma de células quaisquer e dos próprios vírus. 442 dobras são comuns entre vírus e células, e apenas 66 são exclusivas dos vírus. Isso quer dizer que, evolutivamente, os vírus compartilhavam material genético com as células, mas em algum momento se tornaram entidades diferentes.

“Assim sendo, podemos concluir que os vírus apresentam tanto características de seres vivos como de seres não vivos. É por isso que ainda não existe um consenso entre todos os pesquisadores com relação à classificação desses organismos”, enfatiza Ribeiro.

O professor do ICTQ, dr. Claudinei Santana, concorda: “Não há consenso sobre isso. Para ser considerado ser vivo é necessário ter metabolismo próprio. Vírus não faz isso fora do ambiente biológico. No entanto, para ser organismo vivo é necessário possuir DNA ou RNA, e ele tem!”, polemiza ele, finalizando o tema.

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