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USP cria enxaguante de saliva artificial para pacientes em tratamento de câncer

G1   04 Fevereiro 2026   354   Farmácia Hospitalar
USP cria enxaguante de saliva artificial para pacientes em tratamento de câncer

Uma saliva artificial desenvolvida a partir de uma proteína extraída da cana-de-açúcar pode ajudar a proteger os dentes de pacientes em tratamento de câncer de cabeça e pescoço, especialmente daqueles que sofrem efeitos da radioterapia na região da boca.

Nesse tipo de terapia, é comum que glândulas salivares sejam danificadas, reduzindo a produção de saliva e deixando o esmalte mais vulnerável a infecções e cáries agressivas.

A proteína, chamada CaneCPI-5, foi modificada em laboratório e incorporada a um enxaguante bucal com efeito de saliva artificial. Segundo os pesquisadores, ela funciona como um tipo de barreira protetora, ajudando a preservar o esmalte dentário mesmo em condições de alta acidez.

A saliva exerce um papel essencial na saúde da boca, porque ajuda a neutralizar ácidos, controlar bactérias e evitar a perda de minerais dos dentes. Quando a produção diminui, surge a xerostomia, que é a sensação persistente de boca seca que pode provocar dor, feridas e maior risco de cáries.

“Nós usamos substâncias que vão reformular a composição das proteínas que se ligam aos dentes”, explica Marília Afonso Rabelo Buzalaf, professora da FOB-USP e coordenadora do projeto, em comunicado. Ela afirma que a proposta é criar uma película protetora semelhante à que se forma naturalmente na superfície dentária.

A pesquisa, publicada no Journal of Dentistry em outubro de 2025, foi realizada na Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) durante o doutorado de Natara Dias Gomes da Silva.

O trabalho contou com a colaboração de pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), da Universidade da Califórnia em São Francisco, nos Estados Unidos, e da Yonsei University College of Dentistry, na Coreia do Sul.

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Como a proteína age nos dentes?

Nos testes iniciais, os cientistas aplicaram a solução com CaneCPI-5 em pequenos fragmentos de dentes de animais, uma vez ao dia, durante um minuto. O objetivo era observar se a proteína conseguia aderir ao esmalte e reforçar sua resistência.

“Conseguimos desenvolver um processo em que a CaneCPI-5 se liga diretamente ao esmalte dos dentes, contribuindo para que fiquem mais resistentes à ação dos ácidos produzidos pelas bactérias”, afirma Natara.

Os dados mostraram que o efeito da proteína foi ainda maior quando combinada com flúor e xilitol. Nessa formulação, o spray reduziu a atividade bacteriana e diminuiu a desmineralização, processo em que o dente perde cálcio e fosfato e se torna mais suscetível a cáries.

A descoberta chama atenção porque pacientes tratados com radioterapia na região da cabeça e pescoço ainda não dispõem de produtos específicos capazes de prevenir as cáries severas que podem surgir após o tratamento.

“A saliva artificial melhora a sensação de boca seca e as feridas. Isso ajuda no desconforto e também a combater as bactérias”, diz Marília. Ela explica que, em alguns casos, o uso pode ser temporário, mas em outros é permanente, quando há perda definitiva da capacidade de produzir saliva.

A CaneCPI-5, segundo o estudo, é o primeiro produto a explorar diretamente o conceito da película adquirida, uma camada protetora natural que se forma rapidamente sobre o esmalte.

Próximos passos

A patente da proteína já foi depositada, mas o desafio agora é ampliar a produção e encontrar empresas interessadas em levar a tecnologia adiante.

“Nós já fizemos testes com solução para bochecho, gel e até um filme que se dissolve na língua”, adianta a pesquisadora. Segundo ela, o grupo pretende continuar explorando combinações com outras substâncias, como vitamina E, para facilitar o uso do produto em casa.

A expectativa dos autores é que, no futuro, a saliva artificial com CaneCPI-5 possa oferecer uma alternativa mais eficaz para proteger dentes de pacientes que enfrentam não apenas o câncer, mas também as complicações duradouras que o tratamento pode deixar na saúde bucal.

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