Skip to main content

Prevent Senior é acusada de obrigar médicos a trabalhar com Covid-19 e receitar medicamentos

Marcelo de Valécio   12 Abril 2021   8626   Farmácia Hospitalar
Prevent Senior é acusada de obrigar médicos a trabalhar com Covid-19 e receitar medicamentos

Médicos que trabalharam na linha de frente da Covid-19 na Prevent Senior relataram à Globonews que a operadora de saúde os obrigava a prescrever medicações que não funcionam e podem agravar o quadro dos pacientes com a doença, como o ‘kit covid’ e a flutamida, indicada apenas para câncer de próstata e que pode causar hepatite fulminante.

A flutamida era comercializada para o tratamento de acne até 2004, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu alerta para que o medicamento não fosse utilizado para nenhuma finalidade que não fosse o câncer de próstata depois que quatro mulheres morreram de hepatite fulminante. O medicamento é um inibidor de hormônios masculinos. Na bula, o fabricante diz que a flutamida não deve ser usada por mulheres e que a única indicação é para tratar câncer na próstata.

Os ex-médicos da Prevent Senior também relataram à emissora que eram obrigados a prescrever o ‘kit covid’ – composto por cloroquina, azitromicina e ivermectina, além da flutamida – sem autorização dos familiares dos pacientes. A reportagem da Globonews conversou com cinco médicos que trabalharam na operadora.

Publicidade

De acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), os médicos têm autonomia para prescrever o medicamento que achar adequado ao paciente, mas, segundo os profissionais de saúde entrevistados pela TV, não é o que acontece na Prevent Senior. Um deles foi demitido depois de se recusar a dar essas medicações, outro teria o mesmo destino se não revisse sua decisão.

“Eu deixei de prescrever por um único dia acreditando nisso e acabei sendo chamado à diretoria com orientações bem claras de que eu deveria prescrever a medicação e o que ficava implícito era que se não prescrevesse a medicação você estaria fora do hospital. Voltei a prescrever a medicação por ter sido obrigado a prescrever. A autonomia, na verdade, é zero, você não tem escolha de deixar de prescrever. Se você não prescreve, você vai ser demitido”, afirmou à emissora um dos médicos, que preferiu não se identificar.

A Globonews afirma que teve acesso a conversas em aplicativos de mensagens de grupos da Prevent Senior que confirmam o relato dos profissionais. Em um dos diálogos, um diretor da empresa orienta os subordinados a medicar todos os pacientes com problemas respiratórios com hidroxicloroquina e azitromicina sem avisá-los disso, apesar de serem medicamentos sem indicação para Covid-19.

Em outra mensagem, de maio de 2020, outro diretor mostra um gráfico indicando queda na distribuição dos kits e cobra a equipe. “Não podemos perder o foco, voltamos a ter rendimentos ruins, não podemos perder o tônus”.

Práticas experimentais não autorizadas eram utilizadas

Prontuários médicos e outros documentos obtidos pela emissora mostram que práticas vetadas pelo Conselho Federal de Medicina, como a ozonioterapia, também eram aplicadas. A resolução do órgão diz que a ozonioterapia só pode ser feita “de acordo com as normas do sistema CEP/Conep”, que são os Comitês de Ética em Pesquisa que autorizam experimentações em humanos. A prática só é permitida em instituições credenciadas, o que não é o caso da Prevent Senior.

O coordenador da Conep, Jorge Venâncio, disse à Globonews que iniciar uma pesquisa sem ter autorização é uma “irregularidade grosseira”. “Nesses casos de pesquisa não autorizada a responsabilidade por qualquer dano que exista ao participante é exclusivamente dos pesquisadores da instituição que tiver fazendo a pesquisa”.

Em 24 de março, o Ministério Público de São Paulo abriu investigação para apurar a prescrição de medicamentos não-indicados na rede Prevent Senior. No mesmo dia a Promotoria recebeu uma denúncia anônima de que “os médicos da direção da empresa estão solicitando a prescrição obrigatória para todos os pacientes internados com Covid-19 de medicações não comprovadas cientificamente” e cita a flutamida e o etanercepte (medicamento indicado para artrite e psoríase).

Na denúncia, o informante diz que “a Prevent Senior está induzindo seus médicos a prescreverem as medicações citadas sem consentimento livre e esclarecido dos familiares dos pacientes, sem estar enquadrado em nenhum estudo científico e sem protocolo institucional”, conforme a Globonews.

A representação ao MP foi acompanhada de fotos de uma conversa em um grupo de médicos da Prevent Senior. Um diretor da operadora escreve: “Bom plantão a todos e enfatizo a importância da prescrição da flutamida 250 mg de 8 em 8 horas para todos os pacientes que internarem”.

Trabalhar mesmo com Covid-19

Os profissionais de saúde também afirmaram à TV que foram obrigados a fazer plantões nos hospitais da Prevent Senior quando estavam infectados com o novo coronavírus. Um deles enviou o resultado do teste e a escala de plantões nos dias seguintes à emissora, comprovando que ele trabalhou mesmo infectado. O médico atuou ao menos cinco dias infectado com a doença e atendendo pacientes.

“Aconteceu algumas vezes, inclusive comigo. Eu estava com Covid-19, tive o diagnóstico, enviei a mensagem para o meu coordenador, avisando que estava com Covid, mandei o exame pra ele, ele pediu que eu fosse para o plantão mesmo assim para repetir esse exame lá (na Prevent Senior). O exame foi feito lá também, confirmou novamente que estava com Covid, mas ele pediu para eu continuar trabalhando mesmo assim. Não tinha escolha de poder ir para casa e continuei realmente trabalhando com um Covid”, revelou o médico à TV.

Em nota enviada à Globonews, a Prevent Senior se defende e diz que não obrigou médicos a trabalhar com Covid-19 ou a receitar determinados medicamentos. “A Prevent Senior jamais coagiu médicos a trabalhar doentes, o que foi atestado recentemente por vistorias de conselhos de classe. Todos os profissionais prestadores de serviço afastados, aliás, continuaram a receber salários”.

“Sobre os tratamentos, a empresa dá aos médicos a prerrogativa de adotar os procedimentos que julgarem necessários, com toda a segurança e eficiência e sempre de acordo com os marcos legais, notadamente seguindo as diretrizes do Conselho Federal de Medicina. Entretanto, como a Prevent Senior não teve acesso aos supostos documentos obtidos pela Globonews, não pode esclarecer detalhadamente os questionamentos”, conclui a nota.

Kit-covid pode ter gerado mortes por hepatite e fila para transplante

Ao menos três pacientes morreram por hepatite e cinco estão na fila de transplante de fígado em São Paulo, conforme apurou o Estadão. A relação entre essas pessoas se dá por algo em comum: todas fizeram uso do ‘kit-covid’. Os fármacos do kit não têm eficácia comprovada para combater o vírus – a Organização Mundial de Saúde (OMS) já rejeitou seu uso para tratar a doença e alertou que eles podem ocasionar efeitos colaterais.

De acordo com a coordenadora acadêmica do ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, e especialista em farmácia clínica e prescrição farmacêutica, Juliana Cardoso, o uso indiscriminado de medicamentos, na falha tentativa de prevenção à Covid-19 ou até na esperança de aliviar os sintomas, em casos de contaminações, tem contribuído para a automedicação e o uso abusivo dessas drogas que falsamente interferem na infecção ao coronavírus.

Ela reforça que, como consequência desse uso, os medicamentos promovem uma série de reações à saúde, como efeitos colaterais – que são diferentes daqueles considerados como principal por um fármaco. Além disso, Juliana informa que o indivíduo se expõe a uma chance de reação adversa, caracterizada como qualquer resposta prejudicial ou indesejável, não intencional, a um medicamento.

A coordenadora do ICTQ explica que, além dessas ações indesejáveis, os pacientes ficam expostos ao risco de intoxicações, insuficiências hepáticas e até mesmo hepatite medicamentosa – causada pelo uso prolongado de medicamentos. Não bastando, ela cita outras sérias complicações que podem ocorrer, inclusive, na superlotação da rede de saúde.

​Receba nossas notícias por e-mail: Cadastre aqui seu endereço eletrônico para receber nossas matérias diariamente

“Todas essas situações precisam de um cuidado da equipe de saúde, incluindo nós, farmacêuticos, e outros profissionais, como nutricionistas, além de médicos e enfermeiros. O que se resume em um aumento na procura de cuidados hospitalares, contribuindo, assim, para a superlotação do sistema de saúde. Infelizmente em uma tentativa em vão de não se contaminarem, indivíduos sem nenhum acompanhamento acabam interferindo e piorando uma situação já crítica do cenário atual”, explicou a coordenadora.

Juliana reforça que o papel do o papel do farmacêutico clínico vai além do acompanhamento farmacoterapêutico a pacientes que fazem uso da polifarmácia, ou seja, aqueles que fazem uso de 5 ou mais medicamentos. Ela endossa que compete aos profissionais, também, dar orientações sobre as medidas corretas e necessárias para a prevenção contra o coronavírus, assim como educar os pacientes sobre conhecimentos, até então, ilustrados e comprovados pela ciência.

“Não podemos nos mover por achismos, como profissionais sérios e éticos, nós farmacêuticos nos movemos por certezas, certezas estas já comprovadas pela ciência, e sem sombra de dúvidas matemos a esperança de dias melhores confiando no trabalho árduo de cientistas e seus respectivos projetos de pesquisas que visam beneficiar sempre o paciente”, defendeu.

Participe também: Grupos de WhatsApp e Telegram para receber notícias farmacêuticas diariamente.

Obrigado por apoiar o jornalismo profissional

A missão da Agência de notícias do ICTQ é levar informação confiável e relevante para ajudar os leitores a compreender melhor o universo farmacêutico. O leitor tem acesso ilimitado às reportagens, artigos, fotos, vídeos e áudios publicados e produzidos, de forma independente, pela redação da Instituição. Sua reprodução é permitida, desde que citada a fonte. O ICTQ é o principal responsável pela especialização farmacêutica no Brasil. Muito obrigado por escolher a Instituição para se informar.

SUS incorpora membrana amniótica e amplia tratamento de feridas e doenças oculares

O Sistema Único de Saúde (SUS) passou a contar com uma nova tecnologia no trata…

Anvisa aprova novas indicações terapêuticas para medicamentos oncológicos

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou novas indicações pa…

Protocolo de tratamento de câncer de útero e ovário

O câncer de útero no mundo apresenta-se como a segunda neoplasia mais prevalent…

Polícia Civil desarticula esquema de roubo e revenda de medicamentos oncológicos

A Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrou a Operação Metástase para desarticu…

Nova terapia com células-tronco contra Parkinson traz esperança inédita no tratamento da doença

O Japão aprovou um tratamento inovador para Parkinson baseado no uso de células…

Em decisão histórica, Justiça reconhece insalubridade máxima para farmacêuticos expostos a quimioterápicos

O Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5) tomou uma decisão inédita que b…

Método usado para purificar sangue será testado com vacina antitumor

Quando fazemos uma doação de sangue, este material orgânico passa por um tratam…

Fent@nil está nas ruas: drog@ let@l que assombra os Estados Unidos chega às ruas do Brasil

Cocaína e éter também foram apreendidos durante ação policial em Itaperuna. Pol…

Associado ao câncer, nova descoberta sobre o vírus Epstein-Barr reforça importância da atuação farmacêutica

O vírus Epstein-Barr (EBV) é um dos patógenos mais comuns no mundo, infectando…

Mulher é internada em estado grave após usar caneta emagrecedora do Paraguai

Uma mulher de 42 anos, de Belo Horizonte, está internada desde dezembro em esta…