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Ministério da Saúde amplia acesso a tratamento para HIV multirresistente no SUS

Marcus Vinicius Andrade   18 Junho 2026   338   Farmácia Clínica
Ministério da Saúde amplia acesso a tratamento para HIV multirresistente no SUS

Quinta-feira, 18 de junho de 2026

O Ministério da Saúde atualizou os critérios para solicitação e autorização do fostensavir 600 mg no Sistema Único de Saúde. O medicamento é indicado para pessoas adultas vivendo com HIV ou aids com infecção por HIV-1 multirresistente, em falha virológica, quando não é possível compor um regime com capacidade de supressão viral contínua e duradoura com os demais antirretrovirais disponíveis.

A mudança foi formalizada pela Nota Técnica nº 68/2026, da Coordenação-Geral de Vigilância do HIV/Aids, vinculada ao Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde. O documento revoga a Nota Técnica nº 221/2025 e estabelece novas orientações para ampliar e qualificar o acesso ao medicamento.

Na prática, a atualização permite que a avaliação para uso do fostensavir ocorra mais cedo na trajetória terapêutica de pessoas com histórico de múltiplas falhas. A proposta é evitar que pacientes em maior vulnerabilidade clínica cheguem à análise apenas quando as alternativas de resgate já estiverem praticamente esgotadas.

O fostensavir é um pró-fármaco do tensavir e atua como inibidor de ligação gp120. Seu uso ocorre em associação a um regime otimizado de antirretrovirais, especialmente em situações nas quais a multirresistência viral limita a eficácia dos esquemas convencionais.

Fostensavir continua restrito, mas avaliação poderá ocorrer mais cedo

Apesar da ampliação, o fostensavir segue sendo um antirretroviral de uso restrito. A nota técnica deixa claro que a presença dos critérios para solicitação representa uma etapa de triagem e não garante automaticamente a autorização do medicamento.

A solicitação passa a ser indicada para pessoas adultas em falha virológica confirmada, com histórico de uso de pelo menos quatro classes de antirretrovirais, resistência a pelo menos três classes verificada por testes de genotipagem e presença de critérios relacionados à resistência ao darunavir, dolutegravir ou etravirina.

O documento também permite a avaliação de casos excepcionais, mesmo quando não há histórico completo de genotipagem acessível. Essa possibilidade vale para pessoas multiexperimentadas, com falha virológica confirmada, histórico clínico consistente com multirresistência presumida e fatores de maior risco clínico, como CD4 persistentemente abaixo de 200 células/mm³, eventos definidores de aids, hospitalizações recorrentes, interações relevantes, toxicidades ou intolerâncias que impeçam a composição de esquema adequado.

A mudança reconhece que a trajetória de pessoas com múltiplas falhas terapêuticas nem sempre é linear. Perdas de seguimento, dificuldades de acesso, efeitos adversos, interações, comorbidades e barreiras sociais podem comprometer o registro completo de exames e a reconstrução do histórico terapêutico.

Multirresistência exige mais do que troca de medicamento

A ampliação do acesso ao fostensavir reforça um ponto importante no cuidado em HIV: a falha virológica não pode ser tratada apenas como necessidade de substituir medicamentos. Em pacientes multiexperimentados, cada decisão envolve histórico de adesão, resistência viral, tolerabilidade, interações, posologia, comorbidades e capacidade real de manter o tratamento ao longo do tempo. 

A própria nota técnica destaca que, na população com múltiplas falhas terapêuticas, fatores como posologia, toxicidade, comorbidades, interações medicamentosas e impacto nas atividades cotidianas interferem diretamente na supressão virológica e na qualidade de vida.

Esse é um ponto central para o farmacêutico clínico. Em esquemas de resgate, o acompanhamento farmacoterapêutico pode ajudar a identificar barreiras que não aparecem apenas no resultado da carga viral. Dificuldade para cumprir horários, efeitos adversos, uso concomitante de outros medicamentos, baixa compreensão do esquema e interrupções frequentes podem comprometer a resposta terapêutica.

Quando o paciente chega ao fostensavir, a margem para novas falhas costuma ser menor. Por isso, o sucesso do tratamento depende não só da autorização do medicamento, mas da capacidade da equipe de sustentar adesão, segurança e monitoramento contínuo.

Acompanhamento será decisivo após o início da terapia

A Nota Técnica nº 68/2026 estabelece que a resposta ao fostensavir deve ser avaliada inicialmente oito semanas após o início do novo esquema de resgate. Depois, novos exames devem ser realizados até que haja resposta virológica satisfatória e, posteriormente, a cada seis meses de uso do medicamento.

Caso não seja observada carga viral igual ou inferior a 1.000 cópias/mL, ou não haja manutenção ou aumento da contagem de linfócitos T CD4+ em relação ao valor basal, o uso do fostensavir deverá ser reavaliado por ausência de resposta virológica e imunológica.

Esse monitoramento cria uma janela importante de atuação para o farmacêutico clínico. Entre a retirada do medicamento, o uso em casa, os retornos laboratoriais e a avaliação da resposta, há um período em que dúvidas, efeitos adversos, interações ou dificuldades de adesão podem surgir e comprometer o esquema.

A orientação qualificada sobre administração, regularidade, riscos de interrupção e comunicação de eventos adversos pode reduzir perdas terapêuticas. Em pacientes com HIV multirresistente, cada falha evitada ajuda a preservar alternativas de tratamento e a reduzir o risco de progressão clínica.

Descentralização da autorização muda a organização do cuidado

Outra mudança prevista na nota técnica é a descentralização do processo de avaliação e autorização do fostensavir para Câmaras Técnicas estaduais que se disponibilizarem a receber essa demanda. Nos estados sem estrutura estabelecida, a análise continuará sendo realizada de forma centralizada pelo Ministério da Saúde.

A medida aproxima a avaliação dos territórios e pode tornar o processo mais alinhado às realidades locais. Ao mesmo tempo, exige padronização, comunicação entre equipes e acompanhamento para evitar desigualdades de acesso entre estados.

O Ministério da Saúde prevê análise periódica das avaliações feitas pelas Câmaras Técnicas estaduais, com o objetivo de identificar discrepâncias, necessidades de ajuste, dúvidas sobre critérios e oportunidades de alinhamento entre os territórios.

Para os serviços que acompanham pessoas vivendo com HIV, a mudança reforça a importância de registros bem estruturados. Histórico terapêutico, resultados de genotipagem, falhas anteriores, eventos adversos, interações, adesão e resposta laboratorial precisam estar documentados para sustentar a solicitação e orientar a decisão.

Ampliação do acesso reforça papel do farmacêutico clínico no HIV

A atualização dos critérios para o fostensavir representa avanço para pessoas vivendo com HIV multirresistente, mas também evidencia a complexidade crescente do cuidado. O SUS amplia uma opção terapêutica importante, porém o resultado dependerá da capacidade da rede de transformar acesso em uso correto, adesão sustentada e monitoramento efetivo.

O farmacêutico clínico pode atuar nesse ponto de conexão entre medicamento, paciente e equipe de cuidado. Sua contribuição passa pela análise do esquema terapêutico, identificação de interações, orientação sobre adesão, acompanhamento de toxicidades, organização do uso crônico de medicamentos e reforço da importância dos exames de monitoramento.

Em HIV multirresistente, a tecnologia é decisiva, mas não atua sozinha. O tratamento exige acompanhamento próximo, escuta qualificada e capacidade de identificar problemas antes que eles se transformem em nova falha virológica.

A ampliação do fostensavir no SUS mostra que a resposta ao HIV no Brasil continua incorporando novas estratégias para casos complexos. Para o farmacêutico, a notícia também deixa um recado claro: quanto mais avançado o tratamento, maior a necessidade de cuidado farmacoterapêutico capaz de proteger a efetividade da terapia e a qualidade de vida do paciente.

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Nota editorial: Este conteúdo foi produzido originalmente pela equipe de jornalismo e conteúdos do ICTQ, com autoria de  Marcus Vinicius Andrade e revisão técnica do Diretor Acadêmico Ismael Rosa, CRF-GO 7311

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