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Há cem anos, Droga Raia manteve portas abertas 24h na pandemia da gripe espanhola

Marcelo de Valécio   30 Abril 2021   6174   Varejo Farmacêutico
Há cem anos, Droga Raia manteve portas abertas 24h na pandemia da gripe espanhola

Na primeira pandemia de sua história – a da gripe espanhola – a Pharmacia Raia manteve suas portas abertas 24 horas para atender seus pacientes. Mais de cem anos depois, e uma nova pandemia no currículo, a empresa tornou-se uma rede nacional com 2.303 estabelecimentos distribuídos por 23 estados e 40 mil funcionários, revelou a Folha.

Em 1918, quando a gripe espanhola que acometeu o mundo chegou ao território brasileiro, as farmácias se tornaram redutos de esperança para as vítimas. A Pharmacia Raia tinha 13 anos – havia sido fundada pelo imigrante italiano João Baptista Raia em 1905, em Araraquara (SP).

Nessa época, os farmacêuticos eram reverenciados pela sociedade por seus conhecimentos no trato de enfermidades e na manipulação de fórmulas curativas. Ao construir seu negócio, Baptista Raia foi além – adotou um padrão diferenciado de atendimento.

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Prestativo e meticuloso com as prescrições, logo conquistou uma clientela fiel na região. Essa proximidade fez com Baptista decidisse manter as portas abertas dia e noite durante a pandemia, numa visível dedicação às necessidades dos clientes.

Passados mais de 100 anos, as preciosas lições e providências aprendidas naquele tempo ainda são úteis nestes dias de pandemia, de acordo com o engenheiro e empresário Antônio Carlos Pipponzi, neto do fundador, que hoje é o controlador e presidente do conselho da Raia Drogasil.

“Os médicos davam as receitas e aconselhavam: ‘É melhor aviar na Raia’. Significava confiança, símbolo de excelência”, afirmou à Folha o escritor e jornalista Ignácio de Loyola Brandão, que desde a infância em Araraquara frequentou a loja. “Lembro-me de que existiam farmácias grandes no centro da cidade, mas o respeito para com a Raia superava tudo. Tinha se tornado uma marca referencial”, afirma o escritor no livro Droga Raia Cem Anos.

Ao longo dos anos, o negócio se expandiu. Piracicaba e Araçatuba ganharam as primeiras filiais nos anos de 1930. “Meu avô tinha um olhar intuitivo e a ideia pioneira de criar uma rede de farmácias”, frisou Pipponzi. Na década seguinte, surgiram lojas em Marília e em Campo Grande (MS).

Tal como ocorreu com a maioria das empresas brasileiras que resistiram ao passar do tempo, a Raia foi mais desafiada pelas ciclotimias da economia e menos pelo principal fator de risco de mortandade empresarial, que são as crises sucessórias. Hoje se tornou o maior grupo varejista do ramo no Brasil. São 2.303 lojas em 23 estados, 40 mil funcionários e receita bruta de R$ 21,2 bilhões em 2020.

Um dos segredos que explica a ascensão da Raia, segundo Pipponzi, foi cultivar princípios legados pelo fundador no que diz respeito ao relacionamento centrado nos clientes, combinado com o uso intensivo de tecnologia para acompanhar as mudanças de hábitos de consumidores, assim como promover economias significativas em seus processos internos.

Um exemplo expressivo dessa prática foi a revolução representada pela informatização dos controles de estoques, adotada ainda nos anos 1980. Esse avanço solucionou um problema crítico enfrentado pela terceira geração, já com Antonio Carlos Pipponzi e seus irmãos à frente da empresa – dinheiro imobilizado em estoques volumosos para abastecer a rede durante 60 dias.

Antes da mudança de procedimento, os controles eram imprecisos e inexistiam ferramentas que indicassem os produtos com maior ou menor saída em cada filial. O processo, concluído em 1983, conferiu eficiência à logística de compra e distribuição liberando capital para a expansão crescente da rede. Na mesma década a companhia substituiu as velhas caixas registradoras por terminais de ponto de venda, o que contribuiu para reduzir ainda mais o nível de produtos em falta nas lojas.

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Desde então o uso de tecnologia tornou-se rotineiro, assim como pesquisas refinadas. Antes de abrir um novo ponto de venda, a empresa investiga a faixa etária e os hábitos de compras dos moradores do bairro ou região. Dessa forma, consegue compor as prateleiras com marcas e produtos adequados.

“A nova farmácia será cada vez mais digital, um centro para cuidados da saúde dos clientes”, contou ao jornal o presidente da Raia Drogasil, Marcilio Pousada. No ano passado, a venda de produtos por meio do ecommerce quadruplicaram e atingiram R$ 1,2 bilhão.

Um ano após Droga Raia abrir seu capital, em 2011, a empresa se uniu com outra grande rede, a Drogasil. Apesar da crise, no ano passado, o tíquete médio de compras subiu 19,2%. Na Raia Drogasil, as vendas do comércio eletrônico quadruplicaram e atingiram R$ 1,2 bi.

Mas a empresa não deixou de lado as lojas físicas. Foram inaugurados 240 estabelecimentos em 2020 e outros 240 serão abertos neste ano, de acordo com o presidente. Os planos contemplam uma expansão também verticalizada com serviços como vacinação contra gripe e testes de glicemia. Além disso, um marketplace deve ampliar a oferta de produtos para 13 mil itens, sendo 9 mil deles no site e aplicativo.

Para o farmacêutico e professor da pós-graduação em Farmácia Clínica e Prescrição Farmacêutica no ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, Rafael Poloni, as farmácias ganharam profissionalismo e se tornaram grandes empresas. Mas o farmacêutico continua sendo o diferencial do negócio.

“O farmacêutico já foi muito mais próximo ao paciente, quando era tratado como cuidador de muitas famílias. Hoje, temos a oportunidade de nos reaproximar dos pacientes, com os serviços farmacêuticos e orientação dos pacientes acerca de medicamentos e temas da saúde. O farmacêutico é o profissional com maior contato com o paciente, que passa mais tempo com ele, orientando-o e colaborando com a melhoria da sua qualidade de vida”, frisa Poloni.

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