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Apesar do uso indiscriminado, canetas para obesidade ficam fora do top 10 de vendas no Brasil

Valor Econômico   23 Junho 2025   1240   Varejo Farmacêutico
Apesar do uso indiscriminado, canetas para obesidade ficam fora do top 10 de vendas no Brasil

Os medicamentos tradicionais para tratamento de diabetes e hipertensão arterial lideram a lista dos remédios mais vendidos no Brasil neste ano, de acordo com dados da consultoria IQVIA e da Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos e Biossimilares (PróGenéricos) obtidos pelo Valor.

O Glifage XR, marca de referência de metformina da Merck, é o líder de vendas segundo a lista geral da IQVIA. O medicamento para diabetes somou 131,8 milhões de unidades comercializadas entre janeiro e maio.

Já a lista dos genéricos é encabeçada pela molécula losartana, usada contra a hipertensão arterial, com 56,4 milhões de caixas vendidas até abril. O ranking de dez mais vendidos da PróGenéricos é composto por vários outros medicamentos para pressão alta, como enalapril, atenolol e anlodipino, além do diurético hidroclorotiazida.

Para o presidente-executivo da PróGenéricos, Tiago de Moraes Vicente, as categorias líderes de vendas no Brasil explicitam o tamanho do mercado para os chamados análogos do GLP-1, categoria de canetas injetáveis como Ozempic e Wegovy.

“Muito do que vemos do perfil de consumo está ligada à distribuição demográfica da população, e o aumento da expectativa de vida e da busca de qualidade de vida também. Há 100 anos se morria de fome, e hoje em dia, se morre por problemas decorrentes da obesidade. Obviamente, isso inclui hipertensão e diabetes”, afirma o executivo.

As estatísticas do mercado brasileiro ainda não refletem a crescente popularidade global das canetas injetáveis para tratamento de diabetes e obesidade. De acordo com dados da IQVIA, o Ozempic faturou o equivalente a R$ 3,13 bilhões nos 12 meses findos em outubro de 2024. Medicamentos maduros para diabetes, como a metformina e a dapagliflozina, completam o pódio, enquanto as canetas Saxenda e Wegovy estão em oitavo e décimo lugar, respectivamente.

Moraes Vicente afirma que o segmento já está no radar da indústria nacional e destaca o desenvolvimento do primeiro similar brasileiro da liraglutida, o Olire, da EMS, cujo lançamento está previsto para agosto deste ano. Um dos obstáculos para a indústria nacional, segundo o presidente da PróGenéricos, é a judicialização de períodos de patente. “O Mounjaro [tirzepatida] já está sendo pesquisado para quando o prazo patentário se encerrar”, afirma.

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Analistas do setor apontam, porém, que a substituição de produtos tradicionais para diabetes pelas canetas injetáveis não é um caminho óbvio. O primeiro obstáculo, de acordo com o sócio da Lek Consulting para a área de saúde, Rafael Freixo, é a diferença de preço entre drogas consolidadas e as novas tecnologias. A expectativa é que o fim das patentes reduza os preços dos medicamentos, mas ainda não é possível prever o impacto.

As categorias líderes de vendas no país explicitam o tamanho do mercado para os chamados análogos do GLP-1

“Há uma parcela da população que consegue pagar e vai eventualmente migrar para um medicamento dessas tecnologias. Se há uma demanda mais sensível a custo, esse paciente pode não ir necessariamente para a semaglutida, por exemplo, e optar pela liraglutida, que é uma molécula mais antiga”, explica.

Na avaliação de Freixo, o avanço das canetas injetáveis no Brasil está dentro do esperado, considerando o fator de tíquete médio e a exigência de retenção de receita médica para venda.

Essa também é a análise do especialista em saúde da IGC Partners, Frederico Toledo. “Recentemente, o Mounjaro [produzido pela Eli Lilly ] teve o uso aprovado para controle de obesidade, o que deve facilitar a prescrição médica para esta finalidade. Com a regularização do uso na bula e a entrada de medicamentos similares no mercado, é provável que os preços caiam e a adesão aumente”, afirma.

Além disso, a própria popularidade acima do esperado pode explicar, parcialmente, um ritmo mais modesto dos volumes dos análogos de GLP-1 no Brasil. A Novo Nordisk, fabricante do Ozempic, reportou diversas vezes ao longo de 2023 e 2024 a “disponibilidade intermitente” do medicamento.

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A principal razão era a demanda acima do esperado, especialmente no caso de pacientes que compravam o medicamento - inicialmente estudado para diabetes - para auxiliar na perda de peso. A Novo Nordisk, agora, garante que não haverá desabastecimento do produto.

A companhia anunciou em abril o maior investimento de sua história, de R$ 6,4 bilhões, para construção de uma unidade fabril para produção dos medicamentos na fábrica de Montes Claros (MG). A expansão das instalações deve ser concluída em janeiro de 2027 e prevê dobrar o tamanho das linhas atuais, para 74 mil metros quadrados.

No início de junho, a Novo Nordisk reduziu os preços dos medicamentos à base de semaglutida entre 9% e 20%, afirmando que a medida ampliaria o acesso aos medicamentos. De acordo com a gerente geral no Brasil, Isabella Wanderley, a redução de preços foi possível após a normalização do abastecimento global do princípio ativo.

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