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Aprovada na União Europeia a primeira terapia gênica

Marcus Andrade   07 Julho 2016   12449   Indústria Farmacêutica
Aprovada na União Europeia a primeira terapia gênica

Quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Criado em 1972 pelos cientistas americanos Theodore Friedmann e Richard Roblin, o conceito da terapia gênica consiste na troca de um gene "defeituoso" por outro normal. Para que isso seja possível, são retiradas amostras genéticas do paciente. Em seguida, o gene que carrega o DNA com defeito é isolado e se produz uma nova cópia dele sem o problema original. Esse novo gene, chamado de gene terapêutico, é, então, inserido em um vetor. Normalmente, o vetor escolhido é um vírus, organismo especializado em invadir células. Depois de injetado na célula, o novo DNA substitui o DNA defeituoso ao se integrar ao genoma celular e começa a dar ordens ao organismo. As células que receberam esse novo gene se multiplicam, perpetuando a novidade no organismo. Essa troca de DNA pode funcionar como um tratamento eficaz para doenças hereditárias, como no caso do britânico Rhys Evans.

"É como se a fita do genoma fosse um zíper com um dente faltando. Uma maneira de corrigir o problema é colocar um durex no lugar do dente que está faltando. Assim, o zíper volta a fechar com mais facilidade, apesar de não escorregar de maneira perfeita. O mecanismo de correção é a terapia gênica. O durex em si é o gene alterado inserido na célula", explica Mayana Zatz, geneticista da Universidade de São Paulo (USP) e colunista do site de VEJA.

Abril de 2002. A única esperança de Rhys Evans era um vírus. Portador da síndrome da imunodeficiência combinada grave (SCID, sigla em inglês), também conhecida como doença do menino bolha, o britânico, então com 18 meses, recebeu uma injeção na veia contendo um vírus que carregava um gene alterado em laboratório. Ao entrar na corrente sanguínea de Evans, o microrganismo ligou-se às células da medula óssea. Arremessado para dentro do núcleo, o novo gene começou, então, a mudar as ordens para que as células de defesa passassem a ser produzidas.

Atualmente, Rhys Evans ainda depende de medicamentos diários e de injeções semanais para se manter saudável. Mas a terapia gênica, uma novidade que parecia ficção científica na época, salvou a vida do garoto. Agora, dez anos depois do tratamento pioneiro, a Agência Europeia de Medicamentos recomendou a aprovação do Glybera, primeira terapia gênica autorizada na União Europeia. O tratamento foi destinado a pacientes com deficiência de lipoproteína lipase e histórico de crises graves ou recorrentes de pancreatite.

Tratamento pioneiro — Existem hoje milhares de pesquisas em terapia gênica elencadas pelo PubMed, principal banco de dados online de pesquisas de saúde. Ainda assim, naquele período, poucos tratamentos baseados em terapia gênica estavam liberados para uso no mundo. O Glybera utilizava um vetor viral adenoassociado para levar cópias funcionais do gene da lipoproteína lipase a células musculares de pacientes com deficiência dessa enzima.

A doença é causada por uma mutação genética que impede a produção adequada da enzima, necessária para a quebra de partículas de gordura no sangue, que se formam após as refeições. Sem essa enzima, a gordura pode se acumular tanto que a cor do sangue chega a ficar meio esbranquiçada. Pacientes com essa condição são muito mais suscetíveis a crises de inflamação no pâncreas. Na época, o principal manejo consistia em uma dieta extremamente baixa em gordura. No tratamento com o Glybera, eram inseridas no organismo do paciente cópias corretas do gene responsável pela produção da lipoproteína lipase.

Além do tratamento de doenças, a terapia gênica também passou a ser estudada em outras frentes experimentais. Especialistas do Centro Nacional de Pesquisa em Câncer (CNIO), na Espanha, mostraram em um estudo com camundongos adultos e idosos que uma terapia gênica baseada em telomerase aumentou a mediana de sobrevida em 24% nos animais adultos e em 13% nos idosos. O estudo também relatou melhora de parâmetros relacionados à saúde, como sensibilidade à insulina, osteoporose e coordenação neuromuscular.

Outra pesquisa desenvolvida no Weill Cornell Medical College, nos Estados Unidos, testou em ratos uma estratégia de terapia gênica voltada ao tabagismo. O tratamento induzia a produção persistente de anticorpos contra a nicotina, reduzindo sua chegada ao cérebro.

Doenças sem cura. Embora a terapia gênica seja um tratamento promissor para diversas doenças, principalmente as hereditárias e alguns tipos de câncer, a maior barreira é a utilização em larga escala. De acordo com a geneticista Mayana Zatz, a tecnologia não estava, naquele período, suficientemente apurada para que se tivesse controle absoluto sobre a inserção desse gene. Em caso de erros na substituição dos genes, ou mesmo quando um material não se integra adequadamente ao genoma, problemas sérios de saúde podem acontecer. Há riscos de desenvolvimento de tumores, por exemplo, ou de uma resposta imunológica muito forte, perigosa ao organismo.

Por causa do pouco domínio da técnica naquele período, a terapia vinha sendo testada comumente em doenças sem cura e ainda enfrentava dificuldades para deixar os laboratórios. "Se alguém consegue conviver bem com determinada condição, por que arriscar com a terapia gênica?", diz Carlos Frederico Menck, especialista em genética e professor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP.

Em alguns casos, os efeitos terapêuticos podem, ainda, ser inesperadamente transitórios, como no caso de uma pesquisa realizada pelo médico Renato Kalil, do Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul, em 2009. O cardiologista conseguiu aumentar o número de vasos sanguíneos no coração de 13 pacientes. Mas, doze meses depois do procedimento, os pequenos vasos que haviam se formado desapareceram. "Os primeiros testes não tiveram sucesso, mas hoje temos melhores resultados para doenças como Parkinson e leucemia, por exemplo", diz Roberto Araújo, professor de pesquisa clínica do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) e diretor de pesquisa clínica no RDO R&D.

Fonte: Revista Veja - http://veja.abril.com.br/noticia/saude/a-cura-pelos-genes

Nota editorial: Este conteúdo foi produzido originalmente pela equipe de jornalismo e conteúdos do ICTQ, com autoria de Marcus Andrade e revisão técnica do Diretor Acadêmico Ismael Rosa, CRF-GO 7311.

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