O governo brasileiro tentou avançar na incorporação do lenacapavir ao SUS, mas esbarrou no preço. A Gilead Sciences recusou a proposta apresentada pelo Ministério da Saúde para aquisição do medicamento, uma das principais inovações recentes na prevenção do HIV.
Segundo as informações disponíveis, o governo ofereceu pagar até US$ 400 por tratamento, cerca de R$ 2 mil, valor que, de acordo com a própria pasta, já seria até dez vezes superior ao praticado em países de perfil econômico semelhante, como Indonésia, Tailândia e África do Sul. Com a recusa, o Ministério da Saúde passou a aguardar uma contraproposta da farmacêutica.
As negociações envolveram não apenas redução de preço, mas também a possibilidade de transferência de tecnologia para o Brasil, com potencial de produção do medicamento para abastecer outros países da América Latina. A Gilead confirmou a reunião com o governo, mas não detalhou os valores discutidos.
O impasse ocorre poucos meses após a aprovação do lenacapavir pela Anvisa e evidencia um dos principais desafios da inovação farmacêutica: transformar uma tecnologia capaz de mudar a prática clínica em um tratamento acessível para sistemas públicos de saúde.
O que é o lenacapavir
O lenacapavir é um antirretroviral de longa duração desenvolvido pela Gilead Sciences e pertence a uma classe diferente dos medicamentos tradicionalmente utilizados contra o HIV.
Ele atua como inibidor do capsídeo, estrutura proteica que protege o material genético do HIV e participa de diferentes etapas do ciclo de replicação viral.
Ao se ligar ao capsídeo do HIV-1, o medicamento interfere em processos fundamentais para que o vírus consiga infectar novas células e se reproduzir adequadamente.
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Esse mecanismo é considerado inovador justamente porque muitos antirretrovirais disponíveis atuam sobre enzimas virais, enquanto o lenacapavir age diretamente sobre uma estrutura essencial do vírus.
O medicamento possui apresentações oral e injetável. A formulação de longa duração permite que a profilaxia pré-exposição, a PrEP, seja realizada com duas aplicações por ano, o que representa uma diferença importante em relação à estratégia oral diária atualmente disponível no SUS.
Duas aplicações por ano podem facilitar adesão
A principal vantagem do lenacapavir é a duração de seu efeito. Enquanto a PrEP oral exige uso regular, o esquema injetável pode manter a proteção por aproximadamente seis meses entre as aplicações.
Essa característica pode ser especialmente importante para pessoas que têm dificuldade em manter o uso diário dos comprimidos, seja por esquecimento, estigma, barreiras de acesso ou condições sociais que dificultam a continuidade do tratamento.
Também pode trazer vantagens logísticas para populações que vivem em regiões com menor acesso aos serviços de saúde ou que apresentam maior dificuldade de acompanhamento regular.
Nos estudos apresentados para avaliação regulatória, o lenacapavir demonstrou eficácia muito elevada na prevenção do HIV-1. Entre mulheres cisgênero avaliadas em um dos estudos, não foram observadas novas infecções durante o período analisado, enquanto outros dados apontaram redução de 96% da incidência em comparação com a taxa de base.
É justamente essa combinação entre eficácia e longa duração que colocou o medicamento entre as principais apostas recentes para prevenção do HIV.
Anvisa aprovou medicamento em janeiro
A Anvisa aprovou o lenacapavir no Brasil em janeiro de 2026 para prevenção da infecção pelo HIV-1.
A aprovação sanitária, porém, não significa incorporação automática ao SUS.
Depois do registro, o medicamento ainda precisa passar por etapas relacionadas à definição de preço e à avaliação de incorporação no sistema público.
A Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, a CMED, é responsável por estabelecer o preço máximo de comercialização. Já a Conitec avalia aspectos como eficácia, segurança, custo-efetividade e impacto orçamentário antes de recomendar ou não a incorporação de uma nova tecnologia ao SUS.
O processo de definição de preço do lenacapavir ainda estava em análise, com recurso apresentado pela Gilead, enquanto o Ministério da Saúde conduzia uma negociação separada para tentar estabelecer um valor compatível com uma eventual compra pública.
Preço é um dos principais obstáculos
Nos Estados Unidos, o custo anual do lenacapavir chega a aproximadamente US$ 28 mil por paciente, considerando os valores praticados comercialmente naquele mercado.
Para um sistema público com milhões de potenciais usuários, uma diferença de algumas centenas ou milhares de dólares por pessoa pode representar bilhões em impacto orçamentário.
Por isso, medicamentos inovadores costumam passar por negociações específicas de preço, acordos de fornecimento, transferência de tecnologia ou outros mecanismos capazes de reduzir o custo final para governos.
No caso brasileiro, a tentativa de limitar o valor a US$ 400 mostra justamente essa diferença entre o preço praticado em mercados privados e o que pode ser sustentável para uma política pública de grande escala.
O preço elevado não está relacionado apenas ao custo físico de fabricar uma dose.
Por que medicamentos inovadores chegam ao mercado tão caros?
O desenvolvimento de um novo medicamento começa anos antes de sua comercialização.
Antes de chegar ao paciente, uma molécula passa por descoberta, seleção de candidatos, estudos pré-clínicos, desenvolvimento farmacêutico, produção de lotes experimentais, ensaios clínicos em diferentes fases e submissões regulatórias.
Muitos projetos são interrompidos antes da aprovação.
Isso significa que as empresas não financiam apenas os candidatos que chegam ao mercado. Parte do investimento em pesquisa também cobre moléculas que falharam por falta de eficácia, problemas de segurança ou inviabilidade técnica.
Além disso, ensaios clínicos internacionais podem envolver milhares de participantes, dezenas de centros de pesquisa, monitoramento, farmacovigilância, análises laboratoriais, gestão de dados e estruturas regulatórias durante vários anos.
A proteção patentária permite que a empresa responsável pelo desenvolvimento comercialize a inovação com exclusividade por determinado período, justamente como forma de recuperar parte desse investimento e financiar novos projetos.
Isso, porém, cria uma tensão permanente entre retorno sobre inovação e acesso ao tratamento, especialmente quando se trata de medicamentos essenciais para doenças de grande impacto em saúde pública.
Médicos Sem Fronteiras pressiona por redução do preço
O custo do lenacapavir levou a organização Médicos Sem Fronteiras a intensificar uma campanha internacional pela ampliação do acesso ao medicamento.
Durante a Conferência Internacional sobre AIDS de 2026, realizada no Rio de Janeiro, a entidade passou a defender que o lenacapavir seja disponibilizado por até US$ 40 por pessoa ao ano em países de renda baixa e média.
A organização argumenta que o custo de produção poderia ser muito inferior ao preço atualmente praticado e critica o fato de países que participaram dos ensaios clínicos, entre eles o Brasil, terem ficado fora de determinados acordos de licenciamento voluntário.
MSF também afirmou que a Gilead restringe a produção de versões genéricas a fabricantes e países selecionados e defende o uso de mecanismos internacionais de propriedade intelectual caso o acesso continue limitado.
A entidade chegou a lançar uma campanha específica contra as restrições de acesso ao medicamento.
Brasil ficou fora de parte dos acordos de licenciamento
A Gilead firmou acordos de licenciamento voluntário para permitir que alguns fabricantes produzam versões mais acessíveis do lenacapavir destinadas a determinados países de renda baixa e média.
O Brasil, no entanto, ficou fora desse grupo.
Essa exclusão tornou-se um dos pontos mais criticados por organizações de saúde global, especialmente porque centros brasileiros participaram dos estudos clínicos que contribuíram para o desenvolvimento do medicamento.
Ao mesmo tempo, a Gilead assinou um memorando de entendimento com a Fiocruz para avaliar possibilidades de transferência de tecnologia e produção regional, o que mantém aberta uma alternativa de fabricação no país.
Patentes podem definir quando genéricos chegarão
Enquanto a proteção de propriedade intelectual estiver vigente, outras farmacêuticas não podem simplesmente copiar e comercializar o lenacapavir sem autorização.
Isso pode mudar por diferentes caminhos. A própria detentora da patente pode conceder licenças voluntárias para outras empresas produzirem versões genéricas. Governos também podem utilizar mecanismos legais específicos em situações de interesse público, como licenciamento compulsório, conforme as regras internacionais aplicáveis.
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No longo prazo, a expiração das patentes também abre espaço para maior concorrência. Quando essas barreiras deixam de existir, outras indústrias podem desenvolver medicamentos genéricos equivalentes ao produto de referência, desde que cumpram as exigências de qualidade, equivalência e registro sanitário.
A entrada de novos fabricantes costuma aumentar a competição e criar condições para redução de preços. Foi esse processo que ajudou a transformar o acesso aos antirretrovirais ao longo das últimas décadas.
Inovação farmacêutica depende de profissionais altamente especializados
Toda a discussão envolvendo lenacapavir, preço, patente e acesso começa muitos anos antes da negociação com governos. Ela começa na Pesquisa e Desenvolvimento.
Para transformar uma hipótese científica em um medicamento aprovado, a indústria precisa integrar profissionais de química, farmacologia, tecnologia farmacêutica, pesquisa clínica, qualidade, farmacovigilância, produção e assuntos regulatórios.
O farmacêutico ocupa espaço importante nesse processo por possuir formação diretamente ligada à molécula, à formulação, à farmacocinética, à segurança e ao desenvolvimento de medicamentos.
Quanto maior a complexidade tecnológica do projeto, maior tende a ser a necessidade de profissionais capazes de compreender diferentes etapas do desenvolvimento e dialogar com áreas científicas e regulatórias.
Essas posições costumam exigir formação especializada, domínio técnico e experiência em ambientes altamente regulados. Em contrapartida, carreiras em Pesquisa e Desenvolvimento dentro da indústria farmacêutica estão entre aquelas que podem oferecer remuneração mais competitiva, justamente pelo grau de especialização e responsabilidade envolvido.
O caso do lenacapavir mostra os dois lados da inovação farmacêutica. De um lado, anos de pesquisa resultaram em um medicamento capaz de oferecer proteção contra o HIV com apenas duas aplicações anuais. Do outro, o preço e a propriedade intelectual ainda limitam a velocidade com que essa inovação pode chegar à população.
Entre a descoberta de uma nova molécula e sua disponibilização no SUS existe uma cadeia que envolve ciência, desenvolvimento, regulação, propriedade intelectual, negociação econômica e produção em escala. Nessa cadeia que estão algumas das áreas mais estratégicas da indústria farmacêutica.
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