O primeiro estudo em humanos com a polilaminina foi publicado na revista científica Spinal Cord, periódico do grupo Springer Nature, com uma interpretação mais cautelosa sobre o potencial da substância no tratamento de lesões medulares.
Intitulado “Intramedullary injection of polymerized laminin in acute traumatic spinal cord injury: a first-in-human pilot study”, o artigo descreve uma pesquisa piloto, de braço único e iniciada pelos próprios investigadores, voltada principalmente à segurança e à viabilidade do procedimento. Os autores deixam claro que o desenho não permite comprovar eficácia clínica.
A publicação ocorre após a polilaminina ganhar ampla repercussão nas redes sociais, onde chegou a ser apresentada precipitadamente como uma possível cura para a paraplegia. O estudo revisado por pares, entretanto, não sustenta essa conclusão.
Pesquisa acompanhou oito pacientes
O estudo incluiu oito pessoas com lesão traumática aguda e completa da medula, classificadas inicialmente como AIS A, o nível mais grave da Escala de Comprometimento da American Spinal Injury Association.
As lesões estavam localizadas entre as regiões C4 e T12 da coluna. Os participantes receberam a polilaminina, em média, 2,3 dias após o trauma, em dose única de 1 micrograma por quilo, com quantidades totais entre 55 e 80 microgramas.
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O acompanhamento durou 12 meses e incluiu avaliações neurológicas, exames laboratoriais, exames de imagem e, quando possível, testes neurofisiológicos. Como a finalidade principal era investigar segurança e viabilidade, não houve cálculo formal do número de participantes necessário para demonstrar eficácia.
Seis participantes receberam as injeções durante uma cirurgia de descompressão da medula. Nos outros dois casos, a aplicação ocorreu por via percutânea, com o posicionamento das agulhas orientado por imagens de fluoroscopia.
Aplicação ocorreu sem intercorrências atribuídas ao procedimento
A administração intramedular foi realizada sem intercorrências nos oito pacientes. O artigo não identificou deterioração neurológica nem eventos adversos graves atribuídos diretamente à polilaminina.
Alterações laboratoriais renais e hepáticas foram classificadas como leves ou transitórias. Algumas já estavam presentes antes da aplicação, e os autores não encontraram sinais de toxicidade clinicamente relevante associados à intervenção.
Isso não significa que o acompanhamento tenha ocorrido sem complicações. Todos os participantes apresentaram pelo menos uma intercorrência médica durante a hospitalização, situação esperada diante da gravidade de lesões medulares agudas.
Infecções foram os eventos mais frequentes, registradas em sete dos oito pacientes no primeiro mês. Também ocorreram complicações gastrointestinais, geniturinárias, neuropsiquiátricas, pulmonares, cardiovasculares, hematológicas e lesões por pressão.
Três pacientes morreram durante o acompanhamento
Três dos oito participantes morreram durante o estudo. De acordo com o artigo, os óbitos foram avaliados pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, a Conep, e por um consultor clínico externo, que não estabeleceram relação causal com o tratamento experimental.
Um paciente apresentou sinais de broncoaspiração na admissão, desenvolveu pneumonia grave e morreu cinco dias depois da aplicação. Outro sofreu um evento cardiovascular no vigésimo dia de acompanhamento, com derrame pericárdico e tamponamento cardíaco, considerados provavelmente relacionados ao trauma inicial.
O terceiro havia recebido alta, mas posteriormente foi internado com uma lesão por pressão infectada e morreu por sepse cerca de dois meses após a inclusão. A Conep autorizou a continuidade da pesquisa após a avaliação dos casos.
A classificação dos óbitos como não relacionados à intervenção não elimina a importância de acompanhá-los em estudos futuros. Com apenas oito participantes, a pesquisa possui capacidade limitada para identificar eventos adversos raros ou estabelecer com precisão todos os riscos do procedimento.
Melhoras neurológicas foram tratadas como exploratórias
Seis participantes apresentaram melhora de pelo menos dois graus na escala AIS durante o acompanhamento. Um deles morreu depois de evoluir para AIS C. Em três pacientes, também foram observadas mudanças em potenciais evocados motores ou somatossensoriais, exames usados para avaliar a transmissão de sinais entre o cérebro, a medula e o restante do corpo.
Esses resultados despertam interesse científico, mas não provam que a polilaminina tenha provocado a recuperação.
Os próprios pesquisadores classificam os desfechos neurológicos como exploratórios. Em um dos participantes, a melhora apareceu nas primeiras 48 horas, o que pode representar recuperação inicial ou limitações da classificação realizada logo após um trauma grave.
Também não é possível afirmar que as seis pessoas voltaram a andar ou recuperaram completamente a sensibilidade. A mudança de categoria na escala AIS representa uma evolução neurológica, mas o significado funcional varia conforme o nível da lesão, os músculos afetados e a intensidade da recuperação.
Ausência de grupo controle impede atribuir efeito à terapia
A principal limitação é a inexistência de um grupo controle formado por pacientes semelhantes que não receberam a polilaminina. Sem essa comparação, não é possível separar os possíveis efeitos da substância da recuperação espontânea, da reabilitação, das diferenças individuais ou de imprecisões nas avaliações iniciais.
O número reduzido de participantes também limita a análise. Além de pequena, a amostra era heterogênea, com lesões cervicais e torácicas, diferentes mecanismos de trauma e variações no intervalo entre o acidente e a aplicação.
Os autores reconhecem ainda que o estudo não foi desenhado nem dimensionado estatisticamente para avaliar eficácia. Por isso, os resultados não podem ser generalizados para todas as pessoas com lesão medular, especialmente pacientes com lesões crônicas, incompletas ou provocadas por outras causas.
O artigo também informa que os dados individualizados e anonimizados não estão disponíveis em um repositório público. Eles permanecem armazenados em uma base REDCap e podem ser solicitados ao autor correspondente, de acordo com critérios institucionais e éticos.
Estudo foi registrado retrospectivamente
A pesquisa começou em dezembro de 2016, antes dos atuais requisitos de registro prospectivo mencionados pelos autores. O ensaio foi posteriormente registrado na plataforma brasileira ReBEC, vinculada à rede internacional de registros da Organização Mundial da Saúde.
O protocolo foi aprovado pela Conep e classificado pelos pesquisadores como um estudo acadêmico, exploratório, não patrocinado e sem uma hipótese de eficácia previamente estabelecida.
O financiamento veio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, a Faperj. A taxa de publicação do artigo foi financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, a Capes.
O artigo declara ainda que Tatiana Coelho-Sampaio, líder da pesquisa, iniciou uma relação de consultoria com o Laboratório Cristália durante o andamento do estudo. Segundo a publicação, essa relação começou depois do início da pesquisa e não interferiu no desenho, na coleta, na análise, na interpretação dos dados ou na elaboração do manuscrito. Os demais autores declararam não possuir conflitos de interesse.
Publicação não autoriza uso amplo da polilaminina
A revisão por pares representa um avanço importante na avaliação científica da terapia. O artigo permite que pesquisadores independentes examinem métodos, dados, limitações e interpretações que anteriormente circulavam principalmente em uma versão preliminar.
A publicação, porém, não transforma a polilaminina em tratamento aprovado. O estudo demonstra que foi possível realizar a aplicação em um grupo muito pequeno sem identificar sinais inesperados de segurança diretamente atribuídos à intervenção.
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Para avaliar eficácia, serão necessários ensaios maiores, prospectivos e controlados, com critérios uniformes, comparação entre grupos e análise estatística previamente definida. Também será necessário esclarecer quais pacientes poderiam se beneficiar, qual a melhor dose, o momento adequado da aplicação e os riscos de um procedimento invasivo dentro da medula.
Os próprios autores concluem que os resultados justificam novas investigações, mas não permitem afirmar que a polilaminina recupere movimentos, reverta a paralisia ou represente uma cura para lesões medulares.
Pesquisa de terapias inovadoras abre espaço para farmacêuticos
O avanço da polilaminina para estudos clínicos mostra a complexidade envolvida na transformação de uma descoberta experimental em uma possível terapia. Entre os resultados obtidos em células e animais e a aprovação de um medicamento existem etapas de desenvolvimento, caracterização, produção, controle de qualidade, estudos não clínicos e ensaios em humanos.
Esse percurso amplia as oportunidades para farmacêuticos capacitados em pesquisa e desenvolvimento de medicamentos inovadores. O profissional pode atuar na caracterização da substância, desenvolvimento da formulação, definição de dose, estabilidade, produção asséptica, controle de matérias-primas e validação de métodos analíticos.
Também há espaço em pesquisa clínica, gestão de protocolos, farmacovigilância, assuntos regulatórios, documentação, monitoramento de segurança e interface com comitês de ética e autoridades sanitárias.
Em terapias experimentais, o rigor científico precisa acompanhar a inovação. O farmacêutico preparado pode contribuir justamente para que uma descoberta promissora avance com qualidade, rastreabilidade e evidências suficientes, sem transformar resultados preliminares em promessas que a ciência ainda não confirmou.
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