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Cientistas criam ferramenta com IA que prevê agressividade de câncer por meio de proteínas

Poder 360   30 Abril 2025   879   Farmácia Hospitalar
Cientistas criam ferramenta com IA que prevê agressividade de câncer por meio de proteínas

Com o aumento dos casos de câncer no mundo, a doença tem se mostrado cada vez mais complexa, desafiando a ciência na busca por avanços no diagnóstico e tratamento. Nesse cenário, a IA (Inteligência Artificial) vem sendo uma aliada em modelos de predição e detecção de casos. Uma ferramenta desenvolvida por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo e da Polônia pode contribuir nesse processo.

O modelo de aprendizado de máquina se mostrou capaz de prever por meio de proteínas específicas a agressividade de alguns tipos de tumor, gerando um índice para o grau de stemness que varia de baixo (zero) a alto (um). Conforme aumenta esse índice, o câncer tende a ser mais agressivo, resistente a medicamentos e propenso a recidivas.

O grau stemness se refere a quanto as células tumorais se assemelham a células-tronco pluripotentes, aquelas com capacidade de se transformar em quase todos os tipos de célula do organismo humano. Quanto mais a doença avança, menos as células malignas se parecem com o tecido do qual se originaram, se autorrenovando e com fenótipo indiferenciado.

Para desenvolver a ferramenta, os cientistas utilizaram conjuntos de dados do Consórcio de Análise Proteômica Clínica de Tumores (CPTAC, na sigla em inglês) referentes a 11 tipos de câncer e desenvolveram o índice de stemness baseado na expressão proteica (PROTsi). Foram analisadas mais de 1.300 amostras de casos de mama, ovário, pulmão – carcinoma de células escamosas e adenocarcinoma –, rim, útero, cérebro (pediátrico e adulto), cabeça e pescoço, cólon e pâncreas.

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Por meio da integração do PROTsi com dados proteômicos de 207 células-tronco pluripotentes, o grupo identificou proteínas que impulsionam a agressividade de alguns tipos desses tumores. Essas moléculas podem ser possíveis alvos para novas terapias gerais ou específicas. Com isso, a ferramenta também contribui para a personalização da terapia anticâncer, além do avanço do desenvolvimento clínico de tratamentos.

“Muitas dessas proteínas já são alvos de medicamentos disponíveis no mercado para pacientes de câncer e outras doenças. Podem ser testadas em trabalhos futuros a partir dessa identificação. Chegamos a elas ao fazer a associação entre o fenótipo de stemness e a agressividade tumoral”, disse a professora Tathiane Malta, do Laboratório de Multiômica e Oncologia Molecular da FMRP-USP.

Em 2018, Malta foi a 1ª autora de um artigo divulgado na Cell, resultado de sua pesquisa de pós-doutorado, em que o grupo desenvolveu um índice stemness capaz de medir de forma objetiva o grau de similaridade de amostras tumorais com células-tronco pluripotentes.

“À época desenvolvemos o algoritmo baseado em aprendizado de máquina usando o banco público de tumores mantido pelo The Cancer Genome Atlas (TCGA), nos Estados Unidos. Nos baseamos em dados de expressão gênica, quantificando RNA, e de epigenômica, com metilação no DNA. Agora trabalhamos com o banco do CPTAC, baseado em proteômica, e fizemos um update com as análises de proteína, uma molécula funcional que se enquadra em possibilidades de tratamento e aplicação clínica”, afirmou Malta.

Nos resultados obtidos agora, o PROTsi correlacionou-se positivamente com escores de stemness baseados em transcriptomas previamente publicados, incluindo o modelo de 2018. Foi mais eficaz, por exemplo, na distinção entre amostras tumorais e não tumorais.

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Para Renan Santos Simões, orientando de Malta e que divide a 1ª autoria do artigo com Iga Kołodziejczak-Guglas, do International Institute for Molecular Oncology (Poznań), o avanço obtido na caracterização do stemness, considerando os níveis de proteína e suas modificações, abre caminho para uma compreensão mais profunda da progressão tumoral e dos mecanismos de resistência às terapias atuais.

          “A ciência avança aos poucos, de forma cuidadosa e construída em muitas mãos. É gratificante perceber que estamos contribuindo com esse processo. É isso que nos motiva: saber que o que fazemos hoje pode significar uma diferença real para os pacientes, aprimorando os tratamentos e a qualidade de vida”, afirmou Simões.

Resultados

No processo de validação, o PROTsi apresentou desempenho consistente em vários conjuntos de dados, distinguindo claramente células-tronco das diferenciadas, com diferentes tumores se posicionando em níveis intermediários. No desfecho clínico, o PROTsi foi preditivo em casos de câncer de útero e cabeça e pescoço, por exemplo.

Além disso, a ferramenta conseguiu diferenciar melhor os tumores de maior grau em amostras de adenocarcinoma, útero, pâncreas e câncer de cérebro pediátrico.

“Buscamos montar um modelo que pode ser aplicado para qualquer câncer, mas vimos que funciona melhor para alguns do que para outros. Estamos deixando uma fonte de dados à disposição para trabalhos futuros”, disse Malta.

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