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Nova denúncia de crime contra a saúde pública: segundo médico é flagrado vendendo receitas de controlados por aplicativo

Egle Leonardi   29 Novembro 2025   1647   Farmácia Clínica
Nova denúncia de crime contra a saúde pública: segundo médico é flagrado vendendo receitas de controlados por aplicativo

A investigação do ICTQ sobre o aplicativo ReceitasZap, que emitia receitas de medicamentos controlados sem consulta médica, abriu uma porta que agora revela um problema muito maior. À medida que a reportagem repercutia, chegaram ao ICTQ novos relatos de que outros aplicativos estariam reproduzindo o mesmo procedimento irregular, automatizando prescrições como se fossem produtos de prateleira.

Entre esses desdobramentos, o ICTQ identificou o aplicativo Doutor Digital, que passou a operar com a mesma lógica já constatada no caso anterior: um sistema que simula uma análise médica, cobra uma taxa fixa e libera receitas de antibióticos, antidepressivos e psicotrópicos sem qualquer ato clínico, nenhum tipo de avaliação, nenhuma verificação de segurança.

Para confirmar o funcionamento, o ICTQ repetiu o procedimento utilizado na primeira investigação. O produtor baixou o aplicativo, selecionou o medicamento desejado, preencheu dados mínimos e pagou a taxa. Não houve consulta, não houve teleatendimento, não houve abertura de prontuário.

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O pedido permaneceu por cerca de uma hora como “em análise médica” até que a receita foi liberada, assinada pelo médico indicado pela plataforma: Valmir da Silva Aranha Junior, CRM 19241/GO.

Em seguida, o ICTQ testou o documento em uma grande rede de farmácias. A assinatura digital foi validada corretamente e a venda foi autorizada.

Ou seja: o documento gerado pelo aplicativo circula normalmente no mercado, passando por sistemas de autenticação como se tivesse sido emitido após consulta real.

Receitas liberadas automaticamente: antibióticos e psicotrópicos sem ato médico

Os testes do ICTQ resultaram na emissão automatizada de duas receitas:

  • Amoxicilina + Clavulanato de Potássio 875 mg + 125 mg
  • Succinato de Desvenlafaxina 100 mg

São medicamentos que exigem avaliação clínica obrigatória e justificativa terapêutica documentada. Ainda assim, foram liberados como simples transação comercial, sem qualquer verificação de risco, interação medicamentosa, contraindicação ou histórico clínico.

O aplicativo funciona como um cardápio de controlados: antibióticos, antidepressivos, ansiolíticos, estabilizadores de humor e fármacos da Portaria 344/1998 aparecem em lista, bastando selecionar, pagar e aguardar a liberação.

A dinâmica observada pelo ICTQ é a seguinte:

  • Usuário baixa o aplicativo.
  • Escolhe medicamento, dose e quantidade.
  • Informa somente nome, e-mail e CPF.
  • Paga R$ 13,99.
  • Pedido aparece como “em análise médica” por cerca de uma hora.
  • Receita é liberada e assinada digitalmente.
  • Não ocorre nenhum ato médico real.

O ICTQ arquivou receitas, prints e comprovantes de pagamento. Todo o material está disponível para auditoria jurídica.

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Fundamentos legais: o que a prática pode configurar

A apuração do ICTQ reforça que o procedimento observado confronta diretamente normas sanitárias e médicas essenciais. Com base nos levantamentos jurídicos já realizados, os seguintes fundamentos podem estar violados:

  • Portaria 344/1998: veda prescrição e liberação de substâncias controladas sem avaliação clínica.
  • Lei 5.991/1973: determina que medicamentos sujeitos a controle só podem ser dispensados mediante ato médico, com justificativa terapêutica e relação clínica estabelecida.
  • Diretrizes de telemedicina: exigem prontuário, anamnese, registro clínico e atendimento síncrono quando necessário.
  • Código Penal: a emissão de documento ideologicamente falso pode estar caracterizada, já que a receita sugere um ato médico inexistente.
  • Infrações sanitárias: práticas que colocam a saúde pública em risco podem ser enquadradas como crime de relevância coletiva.

O ICTQ apurou que já existem encaminhamentos relacionados a esse tipo de prática junto à Vigilância Sanitária e ao Ministério Público, e reforça que apurações desse tipo tramitam sob sigilo, como ocorre em investigações que envolvem risco sanitário e potencial fraude documental.

Risco real: o impacto sanitário é grave

Ao permitir que antibióticos, antidepressivos e outros controlados circulem sem avaliação clínica, esses aplicativos eliminam todas as barreiras criadas para proteger a população. O impacto potencial é amplo:

  • aumento da resistência bacteriana;
  • agravamento de transtornos psiquiátricos;
  • risco de efeitos adversos sérios;
  • interações medicamentosas não detectadas;
  • uso irregular de substâncias de alto risco.

Transformar prescrição médica em produto digital instantâneo rompe o cerne do atendimento em saúde: a avaliação individual do paciente.

O paradoxo institucional

Enquanto farmacêuticos são rigidamente fiscalizados por práticas regulamentadas e previstas em lei, a existência de plataformas que automatizam prescrições controladas sem consulta e sem ato médico expõe um contraste preocupante entre discurso e fiscalização efetiva.

A investigação do ICTQ sugere que o problema não se limita a um único aplicativo, mas pode revelar um mercado clandestino de prescrição automática, operando à margem das normas sanitárias e médicas do país.

O ICTQ continuará investigando, documentando e tornando públicas todas as plataformas que colocam a saúde da população em risco.

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