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Movimento anti-protetor solar cresce: farmacêutico reforça alerta contra fake news e câncer de pele

Egle Leonardi   31 Dezembro 2025   1146   Farmácia Clínica
Movimento anti-protetor solar cresce: farmacêutico reforça alerta contra fake news e câncer de pele

O debate sobre fotoproteção saiu do consultório e caiu nas redes, impulsionado por vídeos e depoimentos que colocam o protetor solar no banco dos réus. A narrativa se repete: “não bronzeia” e “não ativa a vitamina D”. Só que, quando o assunto é radiação ultravioleta, opinião não substitui evidência.

A discussão ganhou tração após uma reportagem do Domingo Espetacular relatar o crescimento, no Brasil, de um movimento contrário ao uso de protetores solares convencionais, em geral com apelos de naturalidade e promessas de barreira alternativa.

O risco de transformar essa tendência em comportamento coletivo é óbvio para qualquer profissional de saúde: o câncer de pele é o tipo mais frequente no país. Na estimativa oficial do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de pele não melanoma deve somar 220.490 novos casos por ano no triênio 2023 a 2025.

Além do câncer, o custo aparece em camadas, manchas, fotoenvelhecimento e piora de doenças dermatológicas. “Parar de usar protetor solar traz riscos reais e cumulativos para a saúde, tanto em curto quanto em longo prazo”, afirma a professora do ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico e membro do Grupo Técnico (GT) de Estética do Conselho Regional de Farmácia de Goiás (CRF-GO), Kamyla de Mesquita Ribeiro.

Bronzeado, vitamina D e o que o filtro realmente faz

A primeira falha do discurso anti-protetor é vender a ideia de que proteção equivale a bloquear completamente qualquer efeito do sol. “O que o protetor faz é reduzir a intensidade da radiação, evitar queimaduras e vermelhidão, e prevenir manchas e danos profundos”, explica Kamyla. “O resultado é que você bronzeia, mas de forma mais lenta, uniforme e com menos riscos”.

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Na prática, a diferença é de trajetória, não de destino. Sem proteção, o bronze rápido costuma vir acompanhado de queimadura, descamação, envelhecimento precoce e gatilhos para melasma. Com proteção, o bronze tende a ser progressivo, com menos manchas e muito menos danos, segundo a farmacêutica.

A segunda alegação, sobre vitamina D, também é usada de forma simplista para sustentar o abandono da fotoproteção. “O protetor solar não impede a produção de vitamina D a ponto de causar deficiência”, diz Kamyla. Ela reconhece o ponto que costuma ser distorcido nas redes: o filtro pode reduzir um pouco a absorção de raios UVB envolvidos na síntese, mas “na prática isso não atrapalha”.

A própria rotina explica. “A maioria das pessoas não aplica a quantidade ideal de protetor. Ele sai com suor, água e atrito. Sempre há alguma área da pele exposta”, lista. Por isso, mesmo com uso diário, a síntese de vitamina D geralmente continua ocorrendo. A Sociedade Brasileira de Dermatologia também sustenta que exposição leve, com medidas fotoprotetoras, não impacta de forma relevante a produção no organismo.

O preço de abandonar a fotoproteção

Se o movimento anti-protetor cresce, o que cresce junto é a conta dermatológica. Kamyla organiza os riscos com objetividade:

  • Câncer de pele. O dano solar é cumulativo ao longo da vida e não depende apenas de ‘queimar’. A estimativa do INCA para câncer de pele não melanoma é de mais de 220 mil casos ao ano, no período 2023 a 2025.
  • Envelhecimento precoce (fotoenvelhecimento). A exposição repetida acelera rugas, perda de elasticidade e textura irregular.
  • Queimaduras solares. Eritema e ardor são sinais de dano agudo, não de “pele se acostumando”.
  • Agravamento de doenças de pele. Melasma, rosácea, lúpus cutâneo, acne inflamatória e hiperpigmentação pós-inflamatória podem piorar com radiação e calor.
  • Imunossupressão cutânea. “A radiação UV pode reduzir a imunidade local da pele”, alerta, aumentando chance de infecções, lesões que demoram a cicatrizar e ativação de lesões pré-cancerígenas.

O problema de quem abandona o protetor é acreditar que o corpo “avisa” antes do estrago importante. Nem sempre avisa. Muitas lesões se acumulam em silêncio e aparecem anos depois.

Como usar protetor para funcionar

O erro mais comum não é “esquecer”, é subdosar. Kamyla reforça que quantidade é o pilar da efetividade e traduz isso em regras simples de aplicação:

  • Rosto e pescoço: regra dos 2 dedos (indicador e médio).
  • Rosto, pescoço e colo: 3 dedos.
  • Corpo todo (adulto): cerca de 30 g a 35 g, aproximadamente um copo de shot.

O segundo erro é o timing. “Passe o protetor 15 a 30 minutos antes de sair ao sol. Isso garante a formação do filme protetor na pele”, orienta ela.

O terceiro erro é acreditar que uma camada dura o dia inteiro. Reaplicação é necessária, sobretudo com suor, água, atrito de roupa e toalha, e exposição prolongada. E há um quarto ponto, frequentemente negligenciado: espalhar corretamente, sem economizar em áreas como orelhas, pescoço, nuca, mãos e linha do cabelo.

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Na escolha do produto, Kamyla aponta critérios diretos: “FPS mínimo 30, proteção UVA e UVB”. Ela também ressalta um diferencial importante para quem busca proteção mais completa: protetores com pigmento, aqueles com cor, que podem ampliar a barreira contra estímulos que agravam manchas.

Vitamina D: medir, orientar e suplementar quando necessário

A preocupação com vitamina D não deveria virar pretexto para tirar o protetor da rotina. Deveria virar conduta clínica, com avaliação e orientação adequadas. “Continue usando protetor solar diariamente, pela prevenção de câncer de pele e envelhecimento”, diz Kamyla.

Se houver risco ou suspeita de deficiência, ela recomenda um caminho baseado em evidência: exame de sangue para avaliação e, quando indicado, suplementação orientada por profissional de saúde.

A síntese de vitamina D é importante, mas não exige uma troca perigosa: pele queimada, manchada e exposta a risco oncológico em nome de um atalho que pode ser resolvido com diagnóstico e suplementação bem conduzida. E, em saúde pública, transformar desinformação em hábito costuma custar caro.

O papel do farmacêutico na fotoproteção e no combate à desinformação

Nesse cenário, o farmacêutico tem um papel que vai além de recomendar um FPS. É ele quem traduz evidência em conduta prática, identifica desinformação em tempo real no balcão, na clínica e nas redes, e corrige a lógica perigosa de que bronzeado rápido é sinônimo de saúde. Ao orientar fotoproteção, o farmacêutico atua como barreira sanitária contra um risco cumulativo e silencioso: reduz queimaduras, previne agravamento de dermatoses como melasma e rosácea, e ajuda a diminuir a exposição crônica associada ao câncer de pele, especialmente em um país de alta incidência solar.

Também cabe ao farmacêutico individualizar a recomendação e garantir adesão, que é onde a maioria falha: escolher o veículo adequado ao tipo de pele, reforçar a quantidade correta, a reaplicação e os pontos esquecidos, além de integrar a conversa sobre vitamina D com responsabilidade clínica. Em vez de abandonar o protetor, o caminho profissional é avaliar risco, orientar exame quando necessário e encaminhar para suplementação com base em resultado laboratorial. Isso é cuidado farmacêutico: proteger a pele sem alimentar mitos, com orientação técnica e rastreável.

Capacitação farmacêutica

Para quem deseja se capacitar e atuar em Farmácia Clínica, o ICTQ oferece alguns cursos de pós-graduação que devem interessar:

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