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Médico põe em dúvida a honestidade científica das sociedades médicas que pedem o banimento da tirzepatida manipulada

Egle Leonardi   07 Novembro 2026   52   Farmácia Clínica
Médico põe em dúvida a honestidade científica das sociedades médicas que pedem o banimento da tirzepatida manipulada

Sábado, 07 de novembro de 2026

As sociedades médicas que pedem à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) o banimento da tirzepatida manipulada perderam a credibilidade para se apresentar como expoentes da honestidade científica, porque parte da cúpula dessas entidades está ligada a empresas da indústria, afirmou o médico e integrante da diretoria da Sociedade Brasileira de Pesquisa e Ensino em Medicina (Sobrapem), Paulo Guimarães Jr., ao podcast Acesso & Saúde, do ICTQ - Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico. Ele cobra uma lei que obrigue as sociedades médicas a abrir as contas.

O episódio foi publicado em 12 de agosto de 2026 no canal do ICTQ no YouTube. Com clínica em Joinville (SC), Guimarães Jr. contou que a defesa dos manipulados estéreis no Senado Federal teve preço. As visitas da vigilância sanitária à clínica dele passaram de um para quatro fiscais, e uma delas chegou com a Polícia Militar, relatou o médico, que liga o endurecimento à exposição pública em Brasília.

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) está entre as entidades que querem tirar a tirzepatida manipulada do mercado. Em 26 de agosto de 2025, ela pediu à Anvisa que estendesse à tirzepatida a medida cautelar aplicada à semaglutida, o que na prática proibiria a manipulação do princípio ativo do Mounjaro, segundo o Diário do Nordeste. A restrição parcial abriria espaço para a migração do mercado irregular para a manipulada, argumentou a entidade.

A transparência cobrada pelo médico não reverbera no Brasil. O Conselho Federal de Medicina (CFM) obriga o médico, pela Resolução CFM 2.386/2024, a declarar vínculos com a indústria antes de manifestações públicas e entrevistas. Apenas 94 profissionais cumpriram a exigência em 2025, num universo de quase 600 mil médicos em atividade, segundo reportagem da Agência Pública de 27 de abril de 2026.

O médico quer uma lei que abra as contas das sociedades médicas

“Tem que passar projeto de lei para ter uma transparência financeira das sociedades médicas”, disse Guimarães Jr. no podcast. A desconfiança dele mira o que chama de alto clero das sociedades e as palestras pagas pela indústria. “Como é que são essas ligações, gente? São palestras, entendeu? O pessoal ganha para fazer palestra, viajar o mundo e tal”, afirmou.

A pergunta que ele deixou no ar atinge o papel dessas entidades junto ao regulador. “Como é que a gente vai acreditar que essas sociedades médicas são os expoentes de honestidade científica para poder levar para a Anvisa qual que é a opinião mais equilibrada?”, questionou. Integrantes de diretorias já admitiram conflitos de interesse em trabalhos científicos “em um surto de honestidade”, ironizou o médico.

O modelo que ele cita vem dos Estados Unidos e rastreia o dinheiro que sai do fabricante. O programa Open Payments, criado pela seção 6002 da Affordable Care Act, obriga fabricantes de medicamentos e dispositivos a informar pagamentos e outras transferências de valor feitos a médicos e hospitais de ensino, segundo o Centers for Medicare & Medicaid Services (CMS), órgão do governo americano.

No Brasil, Minas Gerais é o único estado com declaração obrigatória. Na plataforma estadual DeclaraSUS, Novo Nordisk e Eli Lilly, fabricantes do Ozempic e do Mounjaro, declararam quase R$ 24 milhões para beneficiar ou contratar médicos mineiros, de acordo com a mesma reportagem da Agência Pública.

Guimarães Jr. levou o pedido ao Senado. Em audiência pública da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), presidida pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF) em 30 de junho de 2026, ele defendeu transparência e “prevenção de conflitos de interesse, especialmente para entidades que influenciam diretamente a regulação sanitária”, segundo as notas taquigráficas da reunião. SBEM, Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) estiveram na mesma mesa. A Anvisa foi convidada e não compareceu.

Depois do Senado, a vigilância sanitária chegou com quatro fiscais e a PM

“O resultado daqui, umas visitas a mais da Vigilância Sanitária na minha clínica, entendeu? As visitas da minha clínica, hoje em dia, não são só com um fiscal, são com quatro, já teve PM”, contou o médico, ao responder o que ganhou com a ida a Brasília. Dinheiro, nenhum, segundo ele. Vieram visibilidade, alguns amigos e alguns inimigos.

Guimarães Jr. diz receber os fiscais de portas abertas. “Podem ver tudo, tá, a chave do cofre é essa, aqui na clínica não tem nem rachadura na parede”, relatou. A clínica tem duas enfermeiras e três técnicas de enfermagem e aplica injetáveis estéreis a partir de exame, longe da soroterapia que ele ironiza como “mitocondrial, power, ultra, megamax”.

A fiscalização em si conta com o apoio do médico. “A vistoria é uma ferramenta de proteção para a gente”, afirmou. A cobrança dele recai sobre o fundamento técnico de cada exigência. “Agora, se veio, tem que ter o embasamento certinho”, disse. No Senado, ele resumiu a mesma ideia ao afirmar que quem atua em conformidade “não teme a fiscalização, precisa dela para não ser confundido com o mercado clandestino”.

Os implantes hormonais serviram de roteiro para a ofensiva contra a tirzepatida, diz o médico

Quando leu, em 2024, o pedido das entidades médicas para proibir os implantes hormonais manipulados, Guimarães Jr. teve um pressentimento. “Eu falei, hum, tem coisa grossa vindo por aí”, lembrou. Aquela carta segue o modelo e os argumentos usados atualmente contra a manipulação, sustentou o médico. “Deu um problema, chega e proíbe”, resumiu.

A Febrasgo e outras 15 entidades médicas apresentaram a proposta à Anvisa em 23 de agosto de 2024. Em 18 de outubro, a Resolução RE 3.915/2024 suspendeu a manipulação, a comercialização, a propaganda e o uso de implantes hormonais manipulados em todo o país, motivada sobretudo pelo relato da Febrasgo de dois óbitos registrados no sistema Vigicom-Hormônios, segundo o Voto 270/2024 da própria Agência.

A área de farmacovigilância da Anvisa concluiu, em novembro, que nenhum dos óbitos relatados tinha relação com os implantes e que os dados do Vigicom não podiam ser validados nem transpostos para o VigiMed, o sistema oficial. Em 21 de novembro de 2024, a Resolução RE 4.353/2024 trocou a suspensão geral por uma restrição a fins estéticos, de ganho de massa e de desempenho esportivo, de acordo com o mesmo voto. No Senado, Guimarães Jr. classificou o pedido de 2024 como um pedido de ocasião e disse sobre o Vigicom: “Aquilo ali não tem validade”.

O médico desafia os colegas a apresentar um caso de pancreatite

Um médico presente à audiência do Senado relatou atender muitas intercorrências, lembrou Guimarães Jr., que cobra a publicação desses casos. “Publica então, faz o trabalho científico”, disse. “Eu até agora não vi um único caso de pancreatite. Quem quiser, por favor, me manda um e-mail. Eu estou curioso”, provocou.

Diante de qualquer caso, a primeira pergunta dele seria a origem do produto. Quem manipula a tirzepatida é a farmácia magistral de estéreis, que vende para clínicas mediante prescrição. Quando a clínica tem responsável técnico e a aplicação é feita pela técnica de enfermagem ou pelo próprio médico, a rastreabilidade é completa, sustentou. O prontuário da clínica dele registra quem aplicou, o lote e a marca, e a farmácia sabe de onde veio o insumo. “Nem na drogaria tem essa rastreabilidade”, comparou.

Lote virou palavra proibida na manipulação de estéreis

O médico pede à farmácia a documentação técnica de cada tirzepatida que entra na clínica, por remessa. “Não pode falar lote, porque lote é uma palavra proibida, né? Nesse assunto aqui”, ironizou. A exigência que mais o irrita surgiu, segundo ele, sem embasamento: a farmácia só começa a produzir depois de receber a receita.

Pelas contas dele, a regra cria espera de 90 dias. “Eu tenho que consultar uma cartomante para ela poder me falar, ó, daqui a 90 dias esse paciente vai precisar de vitamina D”, disse. A produção em quantidade maior garante uniformidade e controle mais confiável, defendeu. “Se eu faço 10, pego um e coloco para analisar. Se eu faço mil, uso 100”, explicou.

A exigência do nome do paciente no rótulo, cobrada por fiscais, é “um entendimento isolado, que contraria as próprias normas da Anvisa”, afirmou o médico no Senado. A Agência ainda não decidiu se a revisão do Anexo IV da RDC 67/2007, que fixa as boas práticas de manipulação de estéreis, vai permitir a preparação antecipada ou em maior quantidade, segundo nota enviada com exclusividade a esta repórter em 22 de outubro de 2026. No mesmo documento, a Anvisa informou 53 inspeções em farmácias de estéreis em 2026, contra 12 em 2025 e seis em 2024.

A dose ajustada é medicina de verdade, defende Guimarães Jr.

Pacientes com lipedema voltaram a sentir dor quando ele suspendeu a tirzepatida, e a dose de 1 mg a cada 10 dias resolveu o quadro, relatou o médico. A dose de entrada, de 2,5 mg, já era excessiva para elas. “Ah, mas e a metanálise? Não tem. É como tudo, toda a medicina é isso aí. Isso aqui é medicina de verdade, entendeu?”, disse.

A individualização tem respaldo legal. A Lei 9.279/1996, a Lei da Propriedade Industrial, exclui dos direitos de patente, no artigo 43, inciso III, a preparação de medicamento de acordo com prescrição médica para casos individuais, executada por profissional habilitado. A própria Anvisa escreveu na nota exclusiva que a manipulação existe para ajustes de dose, forma farmacêutica ou composição clinicamente justificados.

“O que eu estou lutando é para que o meu paciente possa ter e tenha o direito daquilo ali. Eu não estou pedindo nada demais”, concluiu Guimarães Jr.

Nota editorial: Este conteúdo foi produzido originalmente pela equipe de jornalismo e conteúdos do ICTQ, com autoria de Egle Leonardi e revisão técnica do Diretor Acadêmico Ismael Rosa, CRF-GO 7311. 

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