Farmacêutico rebate o Sindusfarma e diz que pedir a proibição da tirzepatida manipulada é falta de conhecimento
Sábado, 07 de novembro de 2026
Pedir a proibição da tirzepatida manipulada é falta de conhecimento sobre a farmácia magistral de estéreis, rebateu o farmacêutico clínico, Mário Rezende, em entrevista ao podcast Acesso & Saúde, do ICTQ - Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, onde é professor. O recado tem endereço certo, o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), que quer simplesmente proibir a manipulação. Os injetáveis manipulados vivem sob uma reserva de mercado sustentada pelo lobby da indústria, acusa Rezende.
O episódio foi publicado em 20 de agosto de 2026 no canal do ICTQ no YouTube. Rezende comentava a fala do presidente executivo do Sindusfarma, Nelson Mussolini, na 7ª Reunião da Diretoria Colegiada (Dicol) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em 6 de maio de 2026. “O que está acontecendo no mercado dessas canetas emagrecedoras nas farmácias de manipulação é um grande absurdo”, afirmou Mussolini na reunião, segundo o jornal O Hoje, de 6 de maio, e reportagem do ICTQ de 15 de maio. “A proposta do Sindusfarma é simplesmente proibir a manipulação”, completou, de acordo com o ICTQ.
Mestre em Ciências Farmacêuticas, Rezende é franqueado de uma marca de farmácias de manipulação, tem duas unidades, planeja expandir para uma rede e trabalha com emagrecimento e hipertrofia. Ele atua fora do segmento de estéreis e diz conhecer o processo pelo estudo e pela convivência com colegas que investiram na atividade. Desistiu do plano de passar em concurso e virou empreendedor na pandemia, cansado de dar aula para telas pretas, contou no episódio.
A tirzepatida tem dono no Brasil. A Eli Lilly, que vende a molécula com o nome comercial Mounjaro, detém a patente no país até 5 de janeiro de 2036, segundo dados do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) publicados pelo Times Brasil. A empresa mantém no site brasileiro uma carta aberta contra a manipulação da substância em escala industrial. A tirzepatida manipulada sai da farmácia magistral de estéreis, que atende clínicas mediante prescrição médica.
Rezende acusa a indústria de brigar por market share
O farmacêutico enxerga uma disputa comercial por trás do endurecimento das regras para os injetáveis manipulados. “Nós sabemos que existe uma pressão da indústria por um market share”, afirmou. Cada setor defende o próprio negócio, admitiu. “É óbvio que eu, como dono de farmácia com manipulação, vou defender os meus interesses, como um dono de drogaria vai defender o dele, ou a indústria vai defender o dela”, disse.
A concorrência é o centro do argumento dele. “Farmácias com manipulação estéril são extremamente importantes para a população no sentido de diminuir custos e haver concorrência”, sustentou Rezende. A conclusão veio em seguida: “Então, realmente, nós temos ali uma reserva de mercado e isso tem que ser muito bem observado”. A dificuldade de atuar nesse mercado vem “de todo o lobby que tem a indústria”, completou.
Quem pede o banimento desconhece o processo ou fala das farmácias ilegais, afirma o farmacêutico
“Dizer que uma farmácia com manipulação estéril não pode produzir qualquer substância que seja é uma falta de conhecimento”, afirmou Rezende, ao comentar a proposta do Sindusfarma. A farmácia de estéreis segue “uma resolução rigorosíssima”, disse. Questionado se a regra é mais dura do que a exigida da indústria, ele respondeu: “Eu posso afirmar para você que é”.
O farmacêutico oferece dois caminhos a quem defende a proibição. “Se a pessoa fala que não pode ser manipulado em uma farmácia estéril, de duas uma. Ou ela não tem conhecimento sobre o processo que é utilizado, ou ela está falando apenas das farmácias que não deveriam ser exemplos”, disse. Com as irregulares, a posição dele é de tolerância zero. “Essas nem a gente quer que permaneçam de portas abertas. A gente, na verdade, quer que estejam fechadas”, afirmou.
A Diretoria Colegiada tinha na mesa, em 6 de maio, uma proposta para regular a matéria-prima da manipulação. Relatado pelo diretor da Anvisa, Daniel Meirelles, o texto entregava ao Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS), ligado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a análise do insumo importado, retinha os lotes até o laudo e exigia prescrição médica individualizada, segundo O Hoje. O diretor da Agência, Thiago Campos, pediu vista, e a votação foi adiada.
A regra continua parada. A instrução normativa sobre a importação de insumos agonistas de GLP-1 e GIP está em fase final de avaliação, informou a Anvisa em nota enviada com exclusividade a esta repórter em 22 de outubro de 2026.
Concentrar a produção trava a queda do preço das canetas, diz Rezende
Rezende aposta numa queda forte do preço. “A gente tem uma expectativa de que daqui a mais ou menos quatro a cinco anos essas canetas emagrecedoras vão estar abaixo de 100 reais”, disse. A condição é a concorrência. “E não tem como isso acontecer se toda a produção estiver concentrada somente em determinadas empresas”, afirmou.
O calendário da patente joga contra a previsão no caso da tirzepatida, protegida até 2036. A semaglutida mostra o que acontece quando a exclusividade cai. A patente do princípio ativo do Ozempic expirou em março de 2026, e a Anvisa publicou em 26 de maio o registro da Ozivy, primeira semaglutida nacional, fabricada pela EMS, segundo o Diário do Nordeste. A caneta chegou às farmácias em 15 de junho, com preço a partir de R$ 452, de acordo com o Conselho Federal de Farmácia (CFF).
Enquanto a patente valer, a via que a lei abre à produção de tirzepatida fora da Lilly é a manipulação. A Lei 9.279/1996, a Lei da Propriedade Industrial, exclui dos direitos de patente, no artigo 43, inciso III, a preparação de medicamento de acordo com prescrição médica para casos individuais, executada por profissional habilitado.
Os países ricos já fizeram essa conta, lembrou o farmacêutico. Emagrecer o paciente sai muito mais barato para o governo do que tratá-lo depois numa cirurgia ou numa ponte de safena, argumentou. Na Inglaterra, médicos de família do National Health Service (NHS), o sistema público de saúde, passaram a prescrever o Mounjaro em 23 de junho de 2025, com a previsão de atender cerca de 220 mil pessoas em três anos, segundo a ITV News.
Dose fixa faz paciente abandonar o tratamento, diz o farmacêutico
A maior vantagem da tirzepatida manipulada está na liberdade do médico para ajustar a dose ao peso e às comorbidades de cada paciente, segundo Rezende. A Eli Lilly vende o Mounjaro no Brasil em canetas de doses fixas, a partir de 2,5 mg, de acordo com o Olhar Digital. “Às vezes o paciente passa muito mal com a dose de 5, mas não sente muita coisa com a dose de 2,5”, exemplificou.
A saída improvisada é pedir meia dose, que o paciente nem sempre consegue aplicar por causa da tecnologia da caneta, explicou. A dose ajustada reduz os efeitos colaterais, que derrubaram muitos tratamentos, segundo ele. “Muitas pessoas começaram a utilizar, mas não aguentaram o efeito colateral”, disse.
A própria Anvisa reconhece esse papel. A manipulação existe para “oferecer alternativas para circunstâncias particulares que demandem ajustes de dose, forma farmacêutica, composição ou outras adaptações clinicamente justificadas”, escreveu a Agência na nota exclusiva.
A mãe do farmacêutico perdeu 15 quilos e largou o medicamento da pressão
Rezende fala da tirzepatida também como filho. A mãe dele emagreceu 15 quilos com a molécula e abandonou o medicamento para pressão arterial, que passou a provocar hipotensão e tontura, contou. A suspensão foi do médico, depois de uma bateria de exames. “Como farmacêutico e como filho de uma pessoa que utilizou, não tem como você falar mal de uma molécula como essa”, disse.
O perfil do paciente mudou no balcão dele. Antes, chegava quem não conseguia conter a fome e a compulsão. Atualmente, chega quem quer manter a massa muscular e não voltar a sentir fome, relatou o farmacêutico. Sem acompanhamento e sem proteína suficiente, o paciente enfraquece e passa a estranhar a própria imagem. “Eu olhava no espelho e não me sentia bem porque estava gordinho. Agora eu olho no espelho e não estou me sentindo bem porque estou parecendo um maracujá”, disse Rezende, ao reproduzir a queixa.
O recado dele a quem usa tirzepatida tem três pontos. Usar com acompanhamento profissional, porque a desidratação está entre os principais problemas de quem sofre efeitos colaterais e traz desconforto estomacal e dor de cabeça. Usar só com indicação, porque todo medicamento tem efeitos que variam com a dose e o tempo de uso. E procurar o nutricionista para preservar a massa muscular. “A dieta é do nutricionista”, afirmou.
A guerra pela tirzepatida vai continuar porque envolve muito dinheiro
Rezende prevê briga longa. “Essas disputas por mercado vão continuar existindo, porque a gente sabe que isso envolve dinheiro. Envolve muito dinheiro”, afirmou. O farmacêutico espera que a revisão da RDC 67/2007, que fixa as boas práticas de manipulação e completa 20 anos em outubro de 2027, venha para somar e reforce a confiança da população nas farmácias magistrais.
“A gente tem vários interesses, mas eu também acredito que o interesse maior tem que ser o interesse da população”, concluiu.
Nota editorial: Este conteúdo foi produzido originalmente pela equipe de jornalismo e conteúdos do ICTQ, com autoria de Egle Leonardi e revisão técnica do Diretor Acadêmico Ismael Rosa, CRF-GO 7311.
















