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Especialistas explicam riscos do uso de psicodélicos fora de tratamento

Metrópoles   19 Março 2026   168   Farmácia Clínica
Especialistas explicam riscos do uso de psicodélicos fora de tratamento

Nos últimos anos, os psicodélicos, substâncias que causam mudanças na percepção, no pensamento e na consciência voltaram a ser estudados no campo da saúde mental. No passado, eles ficaram famosos pelo uso recreativo, mas hoje são alvo de pesquisas que investigam possíveis aplicações terapêuticas.

Entre as substâncias mais analisadas estão a psilocibina — presente em alguns cogumelos —, o LSD e o MDMA. Em estudos conduzidos em ambiente clínico, os compostos têm sido avaliados como parte de estratégias experimentais para tratar transtornos psiquiátricos que nem sempre respondem bem às terapias tradicionais.

Apesar do interesse científico, o uso dessas substâncias ainda é restrito a pesquisas controladas. No Brasil e na maior parte do mundo, os psicodélicos não fazem parte do tratamento psiquiátrico convencional e não são autorizados para uso clínico fora de estudos aprovados por comitês de ética.

O que são psicodélicos?

Substâncias que alteram temporariamente a percepção, o pensamento e a consciência.

Podem provocar mudanças na forma como a pessoa percebe sons, cores, emoções e o próprio corpo.

Alguns exemplos são a psilocibina, LSD e MDMA.

Em pesquisas médicas, são estudados em sessões controladas e associadas à psicoterapia.

Fora do ambiente clínico, o uso pode trazer riscos físicos e psicológicos.

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Para quais transtornos os psicodélicos estão sendo estudados?

As pesquisas concentram atenção em alguns quadros psiquiátricos considerados mais difíceis de tratar. Entre os mais investigados estão a depressão resistente — quando o paciente não melhora mesmo depois de diferentes tratamentos — e o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

Além disso, também há estudos que analisam o uso de psicodélicos em pessoas com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), dependência de álcool e ansiedade associada a doenças graves ou em fase terminal.

A ideia é entender se, em contextos específicos, esses compostos podem ajudar no processo terapêutico. Nos protocolos de pesquisa, os psicodélicos não são usados como um remédio tradicional.

As substâncias aparecem em sessões controladas e fazem parte de um tratamento mais amplo, que inclui preparação psicológica antes da experiência e acompanhamento terapêutico depois.

Mesmo assim, a etapa considerada central e mais importante continua sendo o acompanhamento psicológico. Antes da sessão, os profissionais precisam fazer avaliações bem detalhadas para entender o histórico emocional do paciente.

“É importante destacar que, nesses protocolos, a substância não é vista como uma ‘cura’ em si. O uso pode favorecer acesso a conteúdos emocionais ou perspectivas diferentes, mas é o trabalho terapêutico antes, durante e principalmente depois da experiência que sustenta qualquer possível benefício”, ensina a psicóloga Flávia Marsola, do Hospital Brasília Águas Claras, da Rede Américas.

Depois da experiência, o trabalho terapêutico também busca ajudar na elaboração do que foi vivenciado. O processo depois de tomar psicodélicos, chamado de integração psicoterapêutica, tem o objetivo de transformar percepções obtidas durante a sessão em reflexões e mudanças reais no cotidiano.

Quem pode ter mais risco com psicodélicos?

Os psicodélicos não são considerados seguros para todos os perfis, uma vez que pessoas com maior vulnerabilidade a transtornos psiquiátricos podem apresentar reações adversas ou agravamento de sintomas. Entre os casos que exigem mais cautela estão:

Histórico de transtornos psicóticos;

Esquizofrenia;

Transtorno esquizoafetivo;

Transtorno bipolar tipo I, especialmente com episódios de mania;

Histórico familiar dessas condições.

“O uso pode precipitar episódios de psicose, estados maníacos ou desorganização psíquica aguda em indivíduos vulneráveis. Também podem ocorrer reações intensas de ansiedade, pânico, despersonalização ou desrealização. Em alguns casos raros, há relatos de sintomas perceptivos persistentes após o uso de alucinógenos, quadro descrito como Transtorno de Percepção Persistente por Alucinógenos”, explica a psiquiatra Lais Buytendorp, do Hospital Mantevida, em Brasília.

Por que o uso fora de ambientes clínicos preocupa?

Fora do ambiente de pesquisa, os riscos são ainda maiores. Em estudos clínicos, as sessões ocorrem com controle de dose, triagem psicológica prévia e acompanhamento profissional durante toda a experiência.

No uso recreativo, raramente esses cuidados vão existir. A pessoa pode consumir psicodélicos adulterados, doses imprevisíveis ou enfrentar a experiência sem o suporte emocional necessário.

Outro ponto de atenção envolve a interação com medicamentos psiquiátricos, já que muitos psicodélicos atuam em sistemas cerebrais semelhantes aos de antidepressivos comuns, o que pode alterar efeitos, provocar reações inesperadas ou dificultar o acompanhamento de tratamentos em andamento.

Por essas razões, embora o campo de pesquisa avance e desperte interesse na medicina, os especialistas de saúde reforçam que o uso das substâncias ainda exige muito cuidado e estudo aprofundado antes de qualquer aplicação terapêutica ampla.

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