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De tabu a tendência: como os homens estão aderindo à reposição de testosterona

Veja   18 Fevereiro 2025   1277   Farmácia Clínica
De tabu a tendência: como os homens estão aderindo à reposição de testosterona

Se na Antiguidade clássica as estátuas dos deuses gregos representavam o ideal de um corpo másculo, hoje as redes sociais espelham, de post em post, o que homens devem buscar para manter a beleza, a força e a juventude. E, por trás das fotos de gente sarada e feliz, não raro reside um atalho do qual nossos antepassados não dispunham: a fórmula — quase mágica, na visão de alguns entusiastas — está na versão sintética de um hormônio naturalmente fabricado pelo organismo, a testosterona. Isolada e descrita em 1935, é ela que confere as características masculinas típicas, embora também seja produzida, em menor escala, pelo corpo feminino. A partir do momento em que demonstraram suas propriedades anabolizantes e conseguiram reproduzi-la em laboratório, tornou-se uma arma perigosa no circuito das academias, com uma clientela disposta a arriscar a saúde em busca de músculos robustos.

A fórmula é sedutora: a aplicação de injeções e géis, nem sempre obtidos com orientação e receita médica, costuma render efeitos logo nos primeiros dias. Usuários apontam maior disposição, melhora do desempenho sexual e, com o tempo, facilidade para eliminar gordura e ganhar massa magra. Os relatos insuflados pela autoestima anabolizaram as buscas pela internet e as vendas. Pelos cálculos da Anvisa, o comércio de produtos com testosterona sintética decolou 670% nos últimos cinco anos. Um crescimento tão exponencial que acendeu o alerta do Conselho Federal de Medicina e o levou a proibir a prescrição para fins estéticos. E por quê? Porque, fora das indicações terapêuticas, o uso sem necessidade fisiológica pode impor reveses à saúde.

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Ao mesmo tempo que se faz o combate ao mau uso da droga, vem caindo o preconceito masculino a respeito da necessária prescrição dela em tratamentos de reposição hormonal. A partir dos 40 anos de idade, calcula-se que o corpo começa a reduzir a produção de testosterona. Se esse processo chega a níveis críticos, aparecem sintomas como fadiga excessiva, perda de libido e aumento de peso. O hormônio sintético é recomendado para reequilibrar essa química, mas vale ressaltar: a rigor, como pregam as diretrizes, a administração só faz sentido quando, após uma análise criteriosa dos sintomas e dos exames, for detectada a carência hormonal. “Nesses casos, a reposição permite que os níveis de testosterona voltem ao normal, devolvendo o bem-estar sem causar efeitos colaterais ao paciente”, diz o endocrinologista Alexandre Hohl, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Esse tipo de condição atinge cerca de 2% dos homens, autorizando o uso do tratamento. Com o envelhecimento da população, o público em busca dessa ajuda da medicina vem aumentando. Embora esses dados não estejam públicos no Brasil, estima-se que nos Estados Unidos as prescrições desse tipo de droga tenham aumentado de 7,3 milhões em 2019 para 11 milhões em 2024.

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A maior conscientização a respeito dos cuidados que envolvem esse tipo de terapia não impede o movimento de muitos brasileiros abraçarem géis, implantes e injeções de testosterona, a ponto de a terapia hormonal ter se tornado o carro-chefe de muitos consultórios médicos. O que se procura e vende? Melhora do cansaço, da vida sexual, da performance e da aparência. E há uma zona nebulosa aí, porque, no curto prazo, a sensação dos pacientes pode até ser positiva. A questão é que o tratamento com hormônio sintético fora das indicações estudadas deixará o corpo com taxas fisiologicamente mais elevadas do que o natural. E isso abre caminho a uma gama de reações indesejáveis e potencialmente graves e irreversíveis: queda de cabelo, acne, desordens no coração e no fígado, alterações de humor, atrofia dos testículos, infertilidade… um estudo recente atesta que pessoas que utilizam hormônios anabolizantes encaram, em média, um risco de morte precoce três vezes maior que não usuários.

É preciso, portanto, tomar precauções inclusive com certas condutas que não levam em consideração todo o contexto do paciente. Por exemplo: sozinho, o exame que dosa testosterona no sangue, utilizado por alguns profissionais como a justificativa para o tratamento, é insuficiente para subscrever a reposição. “Doenças como obesidade, diabetes e disfunção renal podem diminuir os níveis do hormônio. Ao tratá-las, com frequência eles se normalizam”, diz a endocrinologista Leandra Negretto, da Universidade Federal de Goiás. Descartados esses problemas e diagnosticada corretamente a necessidade de reposição, a terapia tem um efeito positivo. Melhor ainda se ela vier acompanhada da adoção de hábitos mais saudáveis. “Na maioria das vezes, basta fazer a lição de casa”, afirma Hohl. Ou seja, cumprir aquele plano que até os antigos gregos já prescreviam: dormir bem, comer direito, exercitar-se e cuidar da mente.

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