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Conheça a agonorexia, uma manifestação clínica ligada às canetas emagrecedoras

Metrópoles   18 Fevereiro 2026   553   Farmácia Clínica
Conheça a agonorexia, uma manifestação clínica ligada às canetas emagrecedoras

Um efeito indesejado dos análogos de GLP-1, classe de medicamentos usada para obesidade e diabetes e conhecida popularmente como “canetas emagrecedoras”, como o Wegovy e o Mounjaro, tem chamado atenção de médicos pelo mundo e levado à criação de um novo termo: a agonorexia.

O fenômeno, que pode ser resumido como um quadro de anorexia induzido pelos remédios, ainda não é reconhecido como um diagnóstico formal, mas tem ajudado a caracterizar um comportamento cada vez mais comum conforme cresce o número de usuários dos medicamentos.

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O termo começou a circular nos Estados Unidos e tem sido utilizado no Brasil por Clayton Macedo, professor e coordenador do Núcleo de Endocrinologia do Exercício da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem).

— É quando o medicamento ultrapassa a fronteira de modular o apetite e a saciedade, e a pessoa entra num quadro como se fosse uma anorexia farmacológica. Ela não sente nenhuma fome, se esquece de comer e cria uma aversão a comida. Muitas vezes exagera nas atividades físicas e se isola socialmente, deixando de ir a eventos que vão a expor a comidas, por exemplo. É uma combinação de várias situações — diz ele.

O professor da Unifesp pretende publicar um artigo científico explorando o tema, definindo critérios para identificar o quadro e abordá-lo na prática clínica. Segundo o médico, ele tem atendido muitos pacientes com esse perfil, observado principalmente, mas não exclusivamente, entre pessoas que fazem uso das canetas sem indicação médica:

— É algo que temos vivenciado bastante no consultório, principalmente entre o público que usa os medicamentos sem recomendação. E muitas já têm previamente um distúrbio de autoimagem. Há também pessoas que querem um emagrecimento rápido e acabam usando diretamente doses altas, em vez de aumentá-la progressivamente, como é indicado, causando essa ausência de fome excessiva.

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Ele explica que essas medicações têm uma ação central no cérebro, regulando vias hipotalâmicas que controlam o apetite e a saciedade, e no sistema de recompensa do cérebro, relacionado ao prazer, reduzindo a sua sensação com a comida. Além disso, agem no estômago retardando o esvaziamento gástrico, por isso conseguem conter a fome com tanto sucesso.

Isso é positivo para pacientes com obesidade, que precisam perder peso, e utilizam as medicações com indicação e acompanhamento médico, conforme aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No entanto, quando o quadro começa a se aproximar do que seria a agonorexia, há diversos riscos à saúde que estão envolvidos, alerta Macedo:

— Pode haver uma perda de massa muscular acentuada, desnutrição, desidratação, queda de performance, fadiga, perda de imunidade. Vamos precisar estabelecer critérios e, a partir daí, acompanhar esses pacientes da melhor maneira. Temos trabalhado muito para coibir o uso indevido dessas medicações, que não são ferramentas estéticas. E entre os que têm indicação, se o apetite está tão bloqueado assim, passando do limite, a dose precisa ser ajustada pelo médico.

Entre os usuários que não têm obesidade, ou seja, não têm indicação de uso para os análogos de GLP-1, há riscos adicionais, afirma o endocrinologista. Ele lembra que os estudos que avaliaram a segurança dos remédios foram conduzidos apenas com voluntários que tinham obesidade e diabetes:

— Essas pessoas que não têm obesidade acabam ciclando muito o peso, que é o nome técnico para o “efeito sanfona”. Elas perdem peso e, junto, perdem um pouco de massa magra. O que para pacientes com obesidade não é um grande problema, mas para os que não têm é. Porque quando eles recuperam o peso depois de interromper o remédio, recuperam apenas gordura. Então proporcionalmente vão ficando mais sarcopênicos, com menos proporção de massa magra.

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