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Confusão mental de Joe Biden em debate da CNN foi causada por zolpidem

Egle Leonardi   23 Julho 2025   1298   Farmácia Clínica
Confusão mental de Joe Biden em debate da CNN foi causada por zolpidem

O desempenho do presidente norte-americano Joe Biden no debate contra Donald Trump, em junho do ano passado, levantou dúvidas e preocupações em todo o mundo. Biden, então com 81 anos, mostrou lapsos de memória, confusão mental e dificuldades de articulação. Agora, quase um ano depois, o próprio filho do ex-presidente, Hunter Biden, atribuiu o episódio ao uso de zolpidem, que é um medicamento indicado para insônia, administrado antes do confronto eleitoral.

“Deram Ambien (nome comercial do zolpidem) para que ele pudesse dormir. Aí, ele subiu no palco e ficou igual a barata tonta”, declarou Hunter em entrevista. Ele explicou que o pai vinha de uma maratona de compromissos e voos internacionais e, exausto, tomou o medicamento para conseguir descansar antes do debate. A revelação reacendeu o debate sobre o uso inadequado de medicamentos hipnóticos e seus efeitos colaterais quando o paciente não segue as orientações corretamente.

Para esclarecer os riscos e particularidades do zolpidem, o professor do ICTQ - Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico e doutor em farmacologia, Humberto Spindola, explicou que o medicamento deve ser usado, exclusivamente, para a indução do sono, e não como ansiolítico, tranquilizante ou alternativa para reduzir o estresse antes de compromissos importantes.

Zolpidem não é ansiolítico e exige cuidado extremo

“O zolpidem não é um calmante. Diferente de medicamentos como o clonazepam (Rivotril), que atuam em quadros de ansiedade, o zolpidem tem como única função a indução do sono. Seu uso deve ser feito apenas no momento em que a pessoa vai se deitar. Ele coloca o sistema nervoso em estado de hipnose, uma indução artificial ao sono”, destaca o farmacologista.

Segundo Spindola, o tempo de ação do zolpidem é curto — de duas a três horas e meia. Por isso, o risco está principalmente no uso em horários indevidos. Se o paciente toma o medicamento e permanece acordado, o efeito pode ser exatamente o oposto do desejado: alucinações, desorientação e até episódios de amnésia.

“Quando alguém toma zolpidem e não dorme, o que pode acontecer é um efeito alucinógeno. A pessoa força o cérebro a permanecer acordado sob um forte depressor do sistema nervoso central. Esse estado pode provocar confusão mental intensa, perda de raciocínio e ausência de lembrança do que foi feito naquele período, uma condição chamada de amnésia anterógrada”, explica.

Uso fora do horário adequado pode comprometer funções cognitivas

De acordo com o professor, isso pode ter ocorrido com Biden, caso ele tenha tomado o zolpidem no mesmo dia do debate e não tenha conseguido dormir adequadamente. “Se foi feito o uso do zolpidem e depois ele ficou acordado para participar de um evento público, é possível que tenha sofrido esses efeitos adversos. O próprio fato de ter ido para o palco indica que o sono não foi induzido de forma adequada”, completa.

Outro cenário possível, segundo o especialista, seria a ocorrência de efeitos residuais do medicamento no dia seguinte, principalmente se o metabolismo do paciente estiver comprometido, o que é mais comum em pessoas idosas. “Se ele usou o zolpidem na noite anterior e não metabolizou o fármaco por completo, poderia ter acordado com tontura, sonolência ou confusão mental. Embora o tempo de ação do remédio seja curto, esses efeitos residuais podem acontecer”, pontua Spindola.

Venda do medicamento é controlada no Brasil

O caso evidencia a importância da prescrição correta e do acompanhamento profissional em qualquer uso de medicamento controlado. “Muitas vezes, pacientes com insônia crônica ou ansiedade fazem uso simultâneo de clonazepam e zolpidem. Isso deve ser rigidamente monitorado, porque há risco de dependência, efeitos adversos combinados e perda de eficácia ao longo do tempo”, alerta o professor.

Spindola reforça que medicamentos como o zolpidem não devem, em hipótese alguma, ser utilizados para compensar cansaço extremo ou como ferramenta para "ajustar o relógio biológico" antes de compromissos importantes. “Se alguém precisa estar lúcido e com a mente ativa em determinado momento, jamais deve tomar zolpidem poucas horas antes. O medicamento é indicado apenas para momentos de repouso, e seu uso incorreto pode comprometer gravemente a performance cognitiva e comportamental do indivíduo”, afirma.

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No Brasil, o zolpidem está entre os hipnóticos mais prescritos e monitorados pela Anvisa. De acordo com dados do Conselho Federal de Farmácia (CFF), as vendas do medicamento aumentaram 71% entre 2018 e 2020, com mais de 20 milhões de unidades comercializadas anualmente no país.

Diante desse cenário, a Anvisa atualizou a regulamentação do medicamento em maio de 2024. Por meio da RDC 871/2024, o zolpidem passou a exigir Notificação de Receita tipo B (azul) em qualquer concentração. A medida eliminou a possibilidade de prescrição em receita branca para doses de até 10 mg, como era permitido anteriormente. A decisão foi tomada após o crescente número de relatos de uso inadequado e efeitos adversos associados.

Farmacêutico tem papel essencial na orientação ao paciente

O caso de Biden expõe uma realidade que vai além da política: o uso inadequado de medicamentos psicotrópicos pode ter sérias consequências à saúde. Para os profissionais farmacêuticos, trata-se de um alerta sobre o papel essencial da orientação ao paciente e da farmacovigilância.

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“É preciso entender que o zolpidem não é um medicamento para ansiedade ou estresse. Ele é um hipnótico, e, como tal, deve ser utilizado com muito cuidado. A automedicação, ou mesmo o uso prescrito em momentos inadequados, pode comprometer a saúde mental e física do paciente, com efeitos imediatos e perigosos”, conclui Spindola.

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