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Álcool corta o efeito do antibiótico? A polêmica que divide farmacêuticos

Egle Leonardi e Júlio Matos   11 Julho 2024   3160   Farmácia Clínica
Álcool corta o efeito do antibiótico? A polêmica que divide farmacêuticos

Viralizou nas redes sociais um corte de uma entrevista concedida em abril pela médica alergista e imunologista, Ekaterini Goudouris, ao programa Sem Censura, da TV Brasil, em que ela afirma que bebida alcoólica não corta o efeito do antibiótico. Tema polêmico, que pode levar à desinformação.

O próprio Conselho Federal de Farmácia (CFF) se manifestou ontem (10/07), por meio das suas redes sociais, em que a farmacêutica Carolina Xaubet Cebrim, da Coordenação Técnica e Científica (CTECT) da entidade, buscou responder à pergunta feita à médica no Sem Censura.

Segundo Carolina, não só o álcool pode alterar o processo de biotransformação e os efeitos farmacológicos de muitos medicamentos comuns, como, inversamente, muitos medicamentos podem alterar a absorção e a biotransformação do álcool.

“As potenciais interações dos antimicrobianos com o álcool são consideradas em três categorias, as quais têm implicações para o paciente”, comenta a representante do CFF. Conforme ela, podem ocorrer alterações na farmacocinética e na farmacodinâmica do antimicrobiano e/ou nos efeitos do álcool; alterações na eficácia do antimicrobiano; e desenvolvimento ou aumento da toxicidade dos medicamentos com consequentes efeitos adversos.

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Em relação aos antimicrobianos, Carolina diz que devem ser verificadas as interações do álcool com o fármaco específico. Ela lembra que outros fatores precisam ser considerados, como por exemplo, a idade. “Pessoas com 65 anos ou mais têm risco particularmente elevado de sofrer danos, em parte devido às alterações na sua fisiologia relacionadas com a idade e, em parte, ao uso geralmente aumentado de medicamentos que podem interagir com o álcool”, orienta.

Por outro lado

Já o PhD em Farmacologia e professor do ICTQ, Thiago de Melo, ressalta que não há exemplos práticos de álcool anular o efeito do antibiótico. O que pode acontecer é o paciente ingerir bebida alcoólica e acabar esquecendo de tomar a próxima dose, aumentar a chance de náusea e vômito e perder também aquele comprimido que era para ser absorvido, do mesmo modo que outras classes podem ter seus efeitos anulados com álcool.

“O que não dá é ficar colocando o argumento de indução enzimática. Essa fala era muito comum nos livros antigos e ficou cansada, porque muitos fármacos como antibióticos nem biotransformados são, como a cefalexina, a amoxicilina, a nitrofurantoína, isso não tem chance de anular efeito. Na verdade, a forma como a médica falou não está errada, é verdade que não anula. Nós vamos sugerir que o paciente não tome álcool, porque eu não quero aumento de efeitos adversos. E, em alguns casos, até chance de lesão hepática, como doxiciclina, rifampicina. Mas dizer que o antibiótico não funcionou porque bebeu álcool, isso não tem sentido”, assegura Melo.

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Ele ressalta que essa polêmica do álcool é muito antiga. Nas décadas de 1960 e 1970, achavam que pelo efeito diurético que o álcool promove, a excreção de antibióticos por via urinária seria maior. Se isso acontecesse, o álcool anularia uma série de respostas de outros medicamentos, o que não é verdade.

O especialista lembra que se colocava em aulas que o álcool é um importante indutor enzimático que acelera a biotransformação de fármacos. Agora estuda-se com mais detalhes e sabe-se que ele induz um tipo de isoforma do citocromo P450 chamada CYP2E1. Acontece que os antibióticos não são biotransformados por essa CYP.

“A única que tem uma possível relação é a isoniazida e que com a ação da CYP2E1 aumenta a chance de lesão hepática, mas não anula o efeito da isoniazida. O que fica claro é que, embora não recomendamos a associação de álcool com antibióticos, não é verdade, trazer à tona, de que o álcool anula ou corta o efeito de qualquer antibiótico, até porque muitos deles nem biotransformados são, como a cefalexina, a cefadroxila, a amoxicilina, a penicilina, a piperacilina, a meropenem. Nenhum deles é biotransformado”, garante Melo.

Frente a essa polêmica, e com base nos  especialistas, o que você, farmacêutico, acha sobre o tema do consumo de bebida alcoólica em conjunto com antibióticos? A médica foi ou não irresponsável em seus apontamentos na TV?

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