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FDA aprova primeiro comprimido da classe de medicamentos que reduz o colesterol 'ruim' em até 60%

Marcus Vinicius Andrade   16 Julho 2026   1330   Farmácia Clínica
FDA aprova primeiro comprimido da classe de medicamentos que reduz o colesterol 'ruim' em até 60%

Quinta-feira, 16 de julho de 2026

Um novo capítulo no tratamento do colesterol alto começou nesta quinta-feira (16), quando a agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos (FDA) aprovou o Lipfendra (enlicitide), o primeiro comprimido de uma classe de medicamentos que, até hoje, só existia na forma de injeção.

Os estudos mostram que o medicamento é capaz de reduzir em até 60% os níveis de colesterol LDL, conhecido como "colesterol ruim", desempenho semelhante ao dos inibidores de PCSK9 injetáveis, considerados um dos tratamentos mais potentes disponíveis para diminuir o risco cardiovascular.

A expectativa é que a versão oral amplie o acesso a esse tipo de terapia. Embora os medicamentos injetáveis estejam disponíveis há anos, seu uso permanece restrito por fatores como custo elevado, necessidade de aplicações periódicas e menor adesão ao tratamento.

A aprovação do FDA foi baseada em dois estudos clínicos de fase 3, que mostraram que o comprimido reduziu significativamente os níveis de colesterol LDL em uma ampla gama de pacientes, incluindo pessoas com hipercolesterolemia familiar —doença genética que provoca níveis muito elevados de colesterol desde cedo— e pacientes que já faziam uso de estatinas.

Como o novo medicamento funciona

As estatinas continuam sendo o tratamento de primeira escolha para reduzir o colesterol e prevenir infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs). Elas diminuem a produção de colesterol pelo fígado e conseguem controlar a doença na maior parte dos pacientes.

Mas nem sempre isso é suficiente.

Pessoas com risco cardiovascular elevado, histórico de infarto, doença arterial ou alterações genéticas frequentemente precisam de reduções maiores do LDL do que as estatinas conseguem oferecer sozinhas. É nesse grupo que entram os inibidores de PCSK9.

Enquanto as estatinas bloqueiam uma enzima usada pelo fígado para produzir colesterol, o Lipfendra atua por outro mecanismo: ele inibe a proteína PCSK9, responsável por regular a quantidade de receptores que removem o colesterol LDL da circulação.

O cardiologista Elzo Mattar, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e professor da Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), explica que essa proteína reduz o tempo de funcionamento desses receptores. Ao bloqueá-la, o medicamento faz com que eles permaneçam ativos por mais tempo, retirando uma quantidade maior de colesterol da corrente sanguínea.

Segundo as diretrizes mais recentes da American Heart Association e do American College of Cardiology, pessoas com risco cardiovascular acima da média devem manter o LDL abaixo de 70 mg/dL. Para quem já sofreu um infarto ou apresenta risco muito elevado, a recomendação é atingir menos de 55 mg/dL.

Mattar afirma que as diretrizes publicadas nos últimos anos, incluindo as brasileiras, europeias e americanas, vêm reforçando uma estratégia de controle cada vez mais rigoroso do colesterol.

"Quanto mais baixo o LDL, melhor. E quanto mais cedo a gente conseguir reduzir esse colesterol, menor será a chance de o paciente desenvolver doença aterosclerótica ao longo da vida", afirma.

Comprimido pode ampliar o uso da classe

O mecanismo de ação do Lipfendra não é uma novidade. O que muda é a forma de administração.

Hoje, os medicamentos dessa classe são vendidos apenas como injetáveis, caso do Repatha, da Amgen, e do Praluent, desenvolvido por Regeneron e Sanofi.

Há ainda a inclisirana, medicamento aplicado a cada seis meses que reduz a produção da proteína PCSK9 por um mecanismo diferente e costuma ser indicada para pacientes com dificuldade de manter o uso diário de comprimidos.

Esses medicamentos já demonstraram reduzir em cerca de 20% o risco de infarto, AVC e morte por doenças cardiovasculares em pacientes de alto risco quando usados em associação às estatinas.

Nos estudos apresentados pela Merck, o comprimido alcançou reduções do LDL semelhantes às observadas com os injetáveis, sem aumento relevante de efeitos adversos em comparação com o placebo. A empresa conduz agora um estudo para avaliar se a versão oral também será capaz de reduzir infartos, AVCs e mortes cardiovasculares na mesma proporção.

Preço menor que o dos injetáveis

Além da praticidade de um comprimido diário, a Merck aposta em um preço inferior ao dos medicamentos concorrentes.

Nos Estados Unidos, o Lipfendra terá preço de tabela de US$ 315 para um tratamento de 30 dias e deve chegar às farmácias nas próximas semanas.

Os inibidores de PCSK9 injetáveis atualmente comercializados custam entre US$ 500 e US$ 600 por mês, ou até mais, dependendo da cobertura dos planos de saúde.

Segundo a American Heart Association, cerca de um em cada quatro adultos americanos apresenta níveis elevados de colesterol LDL.

O que vem pela frente

A aprovação do Lipfendra ocorre em um momento de rápida evolução dos tratamentos para redução do colesterol. Além dos medicamentos já disponíveis, pesquisadores estudam novas terapias que buscam tornar o tratamento mais simples e aumentar a adesão dos pacientes.

Segundo Mattar, a tendência observada nas diretrizes brasileiras, europeias e americanas é intensificar cada vez mais o controle do colesterol, especialmente entre pessoas com maior risco cardiovascular.

Enquanto as estatinas seguem como primeira escolha para a maioria dos pacientes, a chegada do primeiro comprimido da classe dos inibidores de PCSK9 amplia as opções para quem precisa de uma redução mais intensa do colesterol.

Ainda falta confirmar se o medicamento terá o mesmo impacto dos injetáveis na redução de infartos e AVCs, mas os resultados obtidos até agora indicam que ele pode oferecer a mesma eficácia com a praticidade de um comprimido diário.

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Nota editorial: Este conteúdo foi produzido originalmente pela equipe de jornalismo e conteúdos do ICTQ, com autoria de  Marcus Vinicius Andrade e revisão técnica do Diretor Acadêmico Ismael Rosa, CRF-GO 7311.

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