Imagens de antes e depois produzidas ou alteradas por inteligência artificial passaram a circular no Instagram e no TikTok como supostas provas de emagrecimento rápido com tirzepatida. Em muitas publicações, transformações físicas improváveis aparecem associadas à oferta de fórmulas vendidas por perfis sem identificação clara, responsável técnico ou vínculo verificável com uma farmácia regularizada.
A combinação entre a alta procura por medicamentos que atuam nos receptores de GLP-1 e GIP e a facilidade de criar corpos digitais deu escala a esse tipo de conteúdo. Em segundos, uma imagem pode ser remodelada para mostrar uma perda de peso que nunca ocorreu.
Essa fabricação de resultados contamina a percepção do público sobre o tratamento. A imagem falsa impõe um prazo que o organismo humano não acompanha e pode levar pacientes a desconfiar de terapias legítimas quando a resposta não corresponde à promessa exibida na tela.
Para as farmácias de manipulação que trabalham dentro das normas sanitárias, o efeito é duplo. Além de enfrentar a concorrência clandestina, o setor precisa explicar que dose individualizada, acompanhamento profissional e controle de qualidade não produzem milagres instantâneos, mas sustentam um tratamento responsável.
Como a ilusão é fabricada
Perfis sem identificação de responsável técnico ou empresas de fachada podem usar softwares de inteligência artificial para alterar silhueta, proporções e volume corporal. Uma foto real é processada e, em poucos segundos, surge uma versão muito mais magra, com o rosto preservado. A montagem é publicada com legendas que podem prometer perdas de 15 a 20 quilos em menos de um mês, sem prontuário, método verificável ou evidência clínica.
O apelo está na comparação imediata. Duas imagens lado a lado contam uma história simples, rápida e fácil de compartilhar. O post nas redes sociais elimina as etapas difíceis do tratamento e entrega uma linha de chegada artificial, sem mostrar acompanhamento profissional, adaptação metabólica, alimentação ou tempo de resposta.
O golpe já deixou rastros no Brasil. Em setembro de 2025, a agência de checagem Lupa identificou ao menos seis sites que promoviam o chamado Mounjaro de pobre. Parte deles era anunciada em plataformas da Meta com promessas de perda de seis a 24 quilos em poucas semanas. Nas peças com supostos resultados de antes e depois, a mesma fotografia da influenciadora Lorena Assis foi atribuída a três personagens diferentes. Lorena já havia alertado seus seguidores sobre o uso indevido de sua imagem em golpes de emagrecimento.
O padrão também foi denunciado por autoridades públicas. Em dezembro de 2025, uma coalizão bipartidária de 35 procuradores-gerais estaduais dos Estados Unidos cobrou providências da Meta contra anúncios de medicamentos GLP-1 no Facebook e no Instagram. O documento apresentou exemplos de porta-vozes inexistentes e sequências falsas de antes e depois produzidas por IA. Em uma das peças, da TrimRx, uma modelo digital aparecia eliminando 208 libras, cerca de 94 quilos, em três semanas.
Esses casos pertencem ao mercado clandestino e não podem ser confundidos com a manipulação magistral regular. A farmácia legalizada trabalha a partir de prescrição individualizada, sob responsabilidade técnica, com qualificação de fornecedores, controle de qualidade e rastreabilidade. Combater anúncios ilícitos, produtos sem origem e promessas fabricadas também protege o setor magistral que cumpre as normas, porque impede que golpistas usem a tirzepatida como isca e contaminem a confiança em tratamentos legítimos.
A pressão sobre a saúde mental
O dano potencial não se limita ao marketing enganoso. A exposição repetida a corpos idealizados pode piorar a insatisfação com a própria imagem, especialmente entre pessoas já vulneráveis. Quando a transformação é fabricada por inteligência artificial e apresentada como resultado clínico, a comparação se torna ainda mais injusta: o paciente tenta alcançar um corpo e um prazo que nunca existiram.
Esse ambiente também exige cuidado com o transtorno dismórfico corporal (TDC), condição marcada por preocupação intensa com defeitos percebidos na aparência. Não se pode atribuir o transtorno a uma postagem isolada, mas imagens manipuladas podem reforçar comparações, frustração e sofrimento em pessoas predispostas. Pacientes que evoluem em ritmo clinicamente adequado podem se sentir fracassados e até abandonar terapias que estavam funcionando.
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O impacto é especialmente bem documentado entre adolescentes. “Quanto maior a exposição de meninas adolescentes às redes sociais baseadas em imagens, maior a probabilidade de terem percepção corporal negativa”, afirmou, em tradução livre, a pesquisadora do programa Strategic Training Initiative for the Prevention of Eating Disorders (STRIPED), da Escola de Saúde Pública T.H. Chan, da Universidade Harvard, Amanda Raffoul, em 2023. Segundo Amanda, Instagram e TikTok podem promover ideais de aparência irreais.
Quando a expectativa digital encontra a biologia
Ao iniciar um tratamento prescrito com tirzepatida, o paciente encontra a biologia humana, não o ritmo de um filtro. A resposta varia conforme dose, condição clínica, adesão e acompanhamento. O emagrecimento sustentável leva tempo e pode exigir ajustes, reeducação alimentar e constância. Quando o resultado real é comparado a uma montagem, até uma evolução adequada parece insuficiente.
O endocrinologista e pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Bruno Geloneze, afirmou à revista Pesquisa FAPESP: “A medicação sozinha não resolve o problema da obesidade”. Para Geloneze, esses medicamentos devem apoiar mudanças alimentares e atividade física.
A distância entre a ficção algorítmica e a realidade clínica pode alimentar ansiedade, expectativas irreais e abandono do tratamento. Também prejudica farmácias de manipulação regularizadas, porque o paciente pode interpretar um resultado gradual como falta de eficácia do medicamento, quando o padrão usado para comparação jamais existiu.
A vitrine do mercado clandestino
O risco não termina no dano psicológico. Perfis que exibem transformações fabricadas e oferecem tirzepatida sem prescrição, identificação do estabelecimento ou responsável técnico podem servir de vitrine para o mercado ilegal. Nesses canais, circulam canetas de origem desconhecida e pós para reconstituição sem garantia verificável de esterilidade, pureza, concentração ou condições de armazenamento.
A Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 67/2007, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), proíbe a exposição ao público de produtos manipulados com objetivo de propaganda, publicidade ou promoção. A RDC 96/2008 também veda o uso, na publicidade de medicamentos, de imagens ou representações capazes de induzir a uma interpretação falsa, erro ou confusão sobre o produto. Isso não torna toda imagem de antes e depois automaticamente ilícita, mas faz de montagens enganosas associadas à venda de medicamentos um sinal concreto de alerta.
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No Voto 52/2026, o diretor da Quinta Diretoria da Anvisa, Thiago Lopes Cardoso Campos, defendeu a manutenção de uma medida cautelar contra uma farmácia que anunciava manipulados pela internet. Campos afirmou que a exposição de produtos, preços, promoções e botão de compra configurava publicidade e comercialização explícitas, e não simples informação técnica. Em março de 2026, a Anvisa também proibiu a propaganda de manipulados em estabelecimentos fiscalizados e suspendeu a divulgação de tirzepatida por uma das empresas. Os episódios não envolviam necessariamente imagens criadas por IA, mas mostram que a oferta pública de manipulados já vem sendo tratada pela Agência como infração sanitária, não como conteúdo informativo.
O papel da farmácia ética
Farmácias de manipulação regularizadas têm um papel direto na educação do paciente. Em vez de prometer uma estética instantânea, a comunicação deve mostrar laudos de pureza, controles analíticos, estrutura, processos de manipulação e critérios de rastreabilidade. Também precisa deixar claro que a tirzepatida atua sobre mecanismos de saciedade e metabolismo, mas não elimina o tempo biológico do tratamento.
Na prática, a diferença entre uma farmácia regularizada e um perfil clandestino não está na força da imagem publicada, mas na possibilidade de verificar quem prescreveu, quem manipulou, qual insumo foi utilizado e quais controles sustentam aquela preparação. Em um mercado dominado por promessas visuais, essa rastreabilidade é o que separa o tratamento responsável da venda de uma ilusão.
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