A indústria farmacêutica, sindicatos e associações do setor são acusados, por representantes das farmácias magistrais, de exercer forte pressão (lobby) junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e aos conselhos de classe para restringir a manipulação de análogos de GLP-1, como a tirzepatida. Para os players do setor magistral, sob o argumento de zelar pela segurança do paciente, a mobilização visaria, prioritariamente, proteger patentes e margens de lucro.
As canetas emagrecedoras de marca custam valores proibitivos para boa parte da população. O Mounjaro, da Eli Lilly do Brasil, único medicamento com tirzepatida comercializado oficialmente no país, tem preço autorizado, em 2026, entre R$ 1.580,31 e R$ 2.052,35 na embalagem com duas canetas e entre R$ 3.160,64 e R$ 4.104,72 na de quatro, conforme a faixa fixada pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). Para os representantes das magistrais, esse patamar exclui do tratamento oficial a maioria dos brasileiros das classes média e baixa.
É nesse cenário de vulnerabilidade social e dependência terapêutica que se instalou uma das disputas comerciais e políticas mais intensas do mercado farmacêutico brasileiro recente: a queda de braço entre indústria, Anvisa e farmácias magistrais pela manipulação da tirzepatida.
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O pano de fundo é uma crise crônica de saúde pública. Segundo o Atlas Mundial da Obesidade, divulgado pela Agência Brasil, 68% da população brasileira convive com excesso de peso e 31% com obesidade. Dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), compilados pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), apontam que o país alcançou a marca de 9 milhões de pessoas com obesidade registradas em 2024.
Nem o SUS alcança essa epidemia. Apesar do tamanho do problema, a resposta do Estado é limitada pela falta de recursos. O Sistema Único de Saúde (SUS) realiza pouco mais de 7.500 cirurgias bariátricas por ano, volume que, segundo a SBCBM, atende a cerca de 0,2% do público com indicação para o procedimento. Aos demais, sobra a busca por tratamentos farmacológicos.
O bilionário mercado da dependência crônica
Os análogos de GLP-1 e os agonistas duplos, como a tirzepatida, tornaram-se um dos maiores fenômenos financeiros da medicina recente. Projeções da consultoria IQVIA estimam que o mercado global de medicamentos para obesidade já supera US$ 60 bilhões e caminha para mais de US$ 100 bilhões na próxima década.
No mercado interno, o varejo farmacêutico atingiu R$ 243,33 bilhões em faturamento no total anual móvel até novembro de 2025, alta de 10,81%, segundo dados da IQVIA divulgados pela Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar). A forte demanda por medicamentos à base de GLP-1 foi um dos fatores que impulsionaram o setor, embora a própria Febrafar registre que a oferta restrita desses produtos expôs gargalos de abastecimento, sobretudo para o varejo independente.
Análises do banco UBS BB, divulgadas pelo ICTQ, projetam que o segmento de canetas emagrecedoras, estimado em cerca de R$ 11 bilhões em 2025, pode chegar a R$ 20 bilhões em 2026, impulsionado pela entrada de genéricos após a queda da patente da semaglutida. Apenas no quarto trimestre de 2025, segundo o UBS BB, as vendas de GLP-1 somaram cerca de R$ 4 bilhões, com o Mounjaro respondendo por 57% do total.
O avanço da tirzepatida elevou o faturamento da Eli Lilly no varejo nacional. Levantamento do Grupo FarmaBrasil, com base em dados da IQVIA, aponta que a multinacional foi a sexta farmacêutica em vendas no varejo em 2025, com crescimento de 611% em relação a 2024, ano de chegada do Mounjaro ao Brasil. No mercado global, impulsionada pelo medicamento, a companhia tornou-se a primeira farmacêutica a atingir US$ 1 trilhão em valor de mercado.
O ponto central, para o setor magistral, é o custo imposto ao paciente. Por ser a obesidade uma doença crônica e reincidente, a interrupção do tratamento costuma resultar em reganho de peso, o que cria, na avaliação desses representantes, um vínculo de dependência financeira de longo prazo. Com as caixas de medicamentos de marca em valores proibitivos, a maior parte dos brasileiros com sobrepeso segue, segundo o segmento, excluída do tratamento oficial nas grandes redes de drogaria.
Conflito de interesses na pressão política
Diante da barreira financeira dos produtos de referência, as farmácias magistrais passaram a oferecer versões personalizadas e mais baratas de tirzepatida, respaldadas por prescrições de médicos que enxergaram na manipulação individualizada uma saída terapêutica. A manipulação da tirzepatida sintética é legal no Brasil: ampara-se na Lei 9.279/1996, que autoriza a preparação de medicamento sob prescrição individual, e está sujeita às regras da Anvisa, que reconheceu a prática nas Notas Técnicas 92/2024 e 200/2025, desde que cumpridas as exigências da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 67/2007.
A reação da indústria foi imediata. O Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma) passou a defender o veto à prática. Em 6 de maio de 2026, durante reunião da Diretoria Colegiada da Anvisa, o presidente-executivo do Sindusfarma, Nelson Mussolini, defendeu o fim da manipulação: “A proposta do Sindusfarma é simplesmente proibir a manipulação”, afirmou.
A Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), que reúne laboratórios estrangeiros, também passou a defender a proibição. A diretora de política e inteligência regulatória da entidade, Luciana Takara, sustenta que a regulamentação em discussão concentra esforços no controle dos insumos, mas não garante a avaliação do produto final entregue ao paciente.
Segundo Luciana, independentemente de o princípio ativo ser biológico ou sintético, a complexidade das moléculas é semelhante, e isso não justificaria a manipulação. O diretor de acesso e assuntos corporativos da Eli Lilly do Brasil, Felipe Borges, resumiu a posição da fabricante: “Não somos contra a manipulação magistral. Somos contra o desvio de finalidade”, em declaração ao Valor Econômico.
Para os representantes do setor magistral, a narrativa corporativa tenta desqualificar todo o ecossistema de manipulação, tratando laboratórios fiscalizados como se fossem operações clandestinas. O presidente da Associação de Farmácias Estéreis (AFE), William Dib, defende a atividade: “A farmácia de manipulação oferece uma alternativa segura, legal e rastreável, que não apenas democratiza o acesso a tratamentos essenciais como a tirzepatida, mas também protege o paciente do mercado ilegal de medicamentos”, afirmou ao Jornal de Brasília.
Dib lembra que a própria multinacional admitiu, em nota, não ter capacidade de suprir a demanda nacional, o que, para ele, evidencia a essencialidade do setor magistral.
O diretor executivo da Associação Nacional de Farmacêuticos Magistrais (Anfarmag), Marco Fiaschetti, sustenta que é preciso distinguir manipulação magistral de produção industrial, já que a farmácia prepara cada produto sob prescrição, para um paciente específico, sem escala industrial.
Em reunião da Anvisa, o representante da Anfarmag, Wander Rabelo, defendeu que mudanças nas regras sejam precedidas de avaliação de impacto regulatório e de consulta pública: “A legislação já assegura de forma expressa e suficiente os requisitos relativos à qualidade, segurança e eficácia dos IFAs em discussão. A imposição de testes adicionais específicos, sem demonstração de risco sanitário diferenciado, viola os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade”, afirmou ao Panorama Farmacêutico.
O segmento sustenta ainda que a manobra ocultaria o verdadeiro interesse comercial: blindar patentes e impedir que a concorrência local reduza o preço final das terapias. Vale lembrar que a manipulação individualizada da tirzepatida é legal e está sujeita a regras rígidas estabelecidas pela própria Anvisa.
A estratégia da reserva de mercado
Para os players do setor, a ofensiva regulatória desenharia um cenário de exclusão econômica. A pressão para proibir a manipulação, na leitura do segmento, poderia configurar uma tentativa de criar reserva de mercado, forçando os pacientes a depender exclusivamente de um ou dois produtos fabricados em larga escala.
Ao fechar as portas para as magistrais, argumentam esses representantes, as grandes entidades industriais eliminariam o principal mecanismo de controle de preços pela concorrência direta. O paciente com obesidade grave ficaria encurralado: ou se submete aos valores do que o setor magistral chama de monopólio das canetas industrializadas, ou abandona o tratamento, exposto às complicações metabólicas e cardiovasculares da doença.
Na avaliação do segmento, essa reserva de mercado agravaria as desigualdades de acesso à saúde. Enquanto uma minoria consegue financiar a manutenção contínua das canetas de marca, a maior parte da população, dependente do SUS, permanece desassistida, o que pressiona as filas por procedimentos de alta complexidade. A manipulação por laboratórios regulamentados atuaria justamente na descentralização desse poder econômico, transformando uma tecnologia de elite em alternativa de saúde pública.
O impacto financeiro oculto no SUS
O bloqueio ao acesso a tratamentos modernos para a obesidade não atinge apenas o indivíduo: gera efeito em cadeia sobre as contas públicas. Análise do Instituto Cordial, responsável pelo Painel Brasileiro da Obesidade, estima que a doença custe entre R$ 41,7 bilhões e R$ 44,6 bilhões por ano aos cofres públicos, o equivalente a 2% do Produto Interno Bruto (PIB). O estudo, divulgado em 2026 e financiado pela farmacêutica Novo Nordisk, calcula em R$ 29,56 bilhões anuais os custos de saúde associados à obesidade e às suas comorbidades.
Dentro do sistema público, segundo o mesmo levantamento, os custos diretos associados à obesidade já superam R$ 1,89 bilhão ao ano, sendo R$ 911,6 milhões em internações hospitalares e R$ 983,8 milhões em medicamentos. Cada ponto adicional no Índice de Massa Corporal (IMC) médio da população representaria um custo extra de R$ 387,3 milhões por ano ao SUS.
Para o setor magistral, tentar proibir ou estigmatizar a manipulação de tirzepatida sob pressão da indústria significaria asfixiar uma alternativa que desafoga o sistema público. Ao restringir o segmento, argumentam seus representantes, o Estado empurraria o paciente de volta para a fila da cirurgia bariátrica ou para o leito hospitalar de infartos e AVCs, cujos custos de internação são muito superiores aos de uma política de acesso a medicamentos preventivos.
Defender a legitimidade das farmácias de manipulação é, na avaliação do segmento, defender o direito de escolha do paciente e a sustentabilidade econômica do sistema de saúde brasileiro. Do outro lado, indústria e parte da Anvisa sustentam que a prioridade é a segurança do produto injetável e o combate às irregularidades. O debate, que segue em aberto na Diretoria Colegiada da Anvisa, definirá quem terá acesso, e a que preço, ao tratamento de uma das doenças crônicas que mais avançam no país.
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