Na reunião para troca de bula da cloroquina havia pessoas de farda, diz Mandetta

Na reunião para troca de bula da cloroquina havia pessoas de farda, diz Mandetta

O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou ao portal Poder 360 que pessoas fardadas compareceram à reunião que tinha a proposta de mudar a bula da cloroquina, indicando o medicamento como tratamento para Covid-19, apesar de sua ineficácia já ter sido atestada internacionalmente.

Na entrevista, Mandetta deu detalhes sobre o ‘aconselhamento paralelo’ do Palácio do Planalto para que mudasse a bula da cloroquina e destacou a posição firme – e contrária – do presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres.

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“Eu estava em uma reunião, me lembro bem até a data, dia 6 de abril, porque era o dia que eu seria exonerado, mas resolveram não me exonerar. Quando terminei, me pediram para subir ao quarto andar. Eles já estavam lá e trabalhando nisso (mudança da bula). Que médico chega com um decreto presidencial?”, salientou Mandetta.

Ele frisou ainda que médico não tem formação para escrever minuta de decreto presidencial. “Nesse papel que estava lá, entre outras coisas, estava que a Anvisa deveria concordar de colocar na bula porque não tem prescrição. Eu perguntei ao senhor Barra Torres se ele estava de acordo e ele foi veementemente contra. O ministro Jorge Oliveira estava ao meu lado, recolheu todos os papéis e disse que estava fora de contexto”, contou.

Mandetta revelou que essa foi a primeira vez em que viu o presidente da Anvisa tomando uma posição firme em relação às decisões do Governo Federal. Ele disse também que não conhecia a médica oncologista Nise Yamaguchi, e que pessoas fardadas compareceram àquela reunião.

“Não conhecia essa médica… talvez se ela tivesse ido ao meu gabinete para se apresentar. Perguntei o nome dela e qual a formação. Tinha um outro médico do lado que eu nunca o vi antes e nem depois, esse aí nem guardei o nome. E tinham mais pessoas lá (na reunião)… tinha o ministro Braga Netto, pessoas fardadas também”, afirmou ao portal.

Cloroquina não funciona

Apesar da insistência do Governo, estudos científicos já demonstraram que a cloroquina e sua derivada hidroxicloroquina não trazem qualquer benefício contra a Covid-19. Em março, a OMS foi definitiva contra o uso da substância no tratamento da Covid-19. Após revisar seis ensaios clínicos com 6.000 pessoas, os especialistas da entidade concluíram que a hidroxicloroquina não influencia nas taxas de infecção e, provavelmente, aumenta o risco de efeitos adversos, como problemas cardíacos. “A hidroxicloroquina não é mais uma prioridade de pesquisa”, concluíram os especialistas.

Os próprios fabricantes não recomendam o uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina para o tratamento da Covid-19. Quatro indústrias farmacêuticas que fabricam esses medicamentos no Brasil vetaram o seu uso para tratar a doença.

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PhD em Farmacologia, Thiago de Melo professor de pós-graduação em Farmácia Clínica e Prescrição Farmacêutica do ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, aponta os riscos da utilização da hidroxicloroquina na terapia dos pacientes infectados pelo novo coronavírus.

“Recentemente, a literatura tem apresentado os problemas de arritmia cardíaca pela associação (de medicamentos). Então, quando se fala em hidroxicloroquina é importante lembrar que esses indivíduos não estão somente tomando essa substância. Esse que é o verdadeiro problema que, inclusive, tem sido pouco comentado na mídia. A hidroxicloroquina é um medicamento arritmogênico, mas o problema principal é a sua associação com a azitromicina que também é”, explica Melo.

“Essas duas drogas juntas representam uma outra conversa. Nesse caso, estamos diante de uma interação medicamentosa. E detalhe, há pouca discussão sobre isso, como não é uma associação comum, ao longo da história, muitas pessoas que apresentam quadro de parada cardíaca devido a essa associação podem cair na conta das mortes por Covid-19”, salienta o professor.

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