Perfumes que antes eram agradáveis passam a causar repulsa. Fragrâncias doces ficam mais intensas. Em outros casos, acontece o contrário: pacientes que utilizam medicamentos agonistas de GLP-1 relatam um interesse incomum por perfumes, começam a experimentar novas fragrâncias e até aumentam os gastos com esse tipo de produto.
Relatos como esses já circulavam em comunidades na internet, antes que houvesse uma evidência mais consistente relacionando medicamentos da classe a alterações no olfato. Entre usuários de semaglutida e outros agonistas de GLP-1, as experiências compartilhadas vão da aversão a cheiros antes tolerados até uma percepção mais intensa de determinados aromas.
E esse tipo de relato pode aparecer durante durante a rotina do farmacêutico clínico, na dispensação ou no acompanhamento do tratamento: “Depois que comecei o medicamento, os cheiros ficaram diferentes”. Até pouco tempo, poderia parecer apenas uma percepção individual difícil de relacionar ao uso do medicamento.
Agora, um estudo publicado na JAMA Otolaryngology–Head & Neck Surgery acrescenta um dado importante a essa discussão.
Estudo encontrou mais alterações de olfato entre usuários de GLP-1
O trabalho “Smell and taste disturbances among glucagon-like peptide-1 receptor agonist users” analisou registros de mais de 876 mil adultos com diabetes tipo 2.
Os pacientes foram divididos em dois grupos de 438.474 pessoas. Um deles utilizava agonistas do receptor de GLP-1. O outro recebia medicamentos para diabetes que não pertenciam à classe.
Os pesquisadores identificaram uma taxa 48% maior de distúrbios de olfato e paladar entre os usuários de GLP-1.
Quando os dois sentidos foram analisados separadamente, a diferença foi ainda maior para o olfato: os usuários de agonistas de GLP-1 apresentaram uma taxa 81% superior de alterações relacionadas ao cheiro. Para os distúrbios de paladar, a taxa foi 52% maior em relação ao grupo controle.
Nos registros analisados, 649 pacientes do grupo GLP-1 apresentaram alterações de olfato, contra 316 entre aqueles tratados com outros antidiabéticos. Para alterações do paladar, foram identificados 769 casos entre usuários de GLP-1 e 445 no grupo comparador.
Esses dados colocam sob uma nova perspectiva relatos que já vinham aparecendo entre usuários de medicamentos como a semaglutida, princípio ativo presente no Ozempic.
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O estudo não diz que GLP-1 causa obsessão por perfumes
Aqui existe uma diferença importante. O estudo não investigou se pacientes começaram a comprar mais perfumes, desenvolveram preferência por fragrâncias doces ou passaram a rejeitar determinados aromas.
Esses são relatos compartilhados por usuários na internet. O que a pesquisa encontrou cientificamente foi uma associação entre o uso de agonistas de GLP-1 e uma maior ocorrência de distúrbios de olfato e paladar.
Também não é possível afirmar, a partir desse estudo, que os medicamentos sejam a causa direta dessas alterações. A pesquisa é observacional e retrospectiva. Portanto, identifica uma associação entre os fenômenos, mas não estabelece uma relação definitiva de causa e efeito.
Os próprios pesquisadores apontam a necessidade de novos estudos para confirmar os achados e compreender melhor os mecanismos envolvidos.
Essa distinção é fundamental para evitar que relatos curiosos das redes sociais sejam transformados em conclusões científicas que a pesquisa ainda não permite fazer.
Alguns passam a amar perfumes. Outros não suportam mais os mesmos cheiros
Nas comunidades online, o que chama atenção é a variedade dos relatos. Alguns usuários dizem que passaram a se interessar muito mais por perfumes após iniciar medicamentos da classe GLP-1. Há pessoas relatando coleções que cresceram rapidamente, maior interesse por experimentar fragrâncias e preferência por aromas doces, como baunilha, caramelo e outras notas classificadas como gourmand.
Outros descrevem uma experiência oposta. Perfumes que faziam parte da rotina começam a provocar desconforto ou repulsa. Fragrâncias doces podem parecer excessivamente intensas, enquanto determinados aromas passam a ser percebidos de maneira diferente da experiência anterior ao tratamento.
Um dos relatos reunidos no material analisado descreve, por exemplo, uma usuária de semaglutida que deixou de tolerar perfumes de que gostava há anos e passou a sentir náusea diante de determinadas fragrâncias. Em comunidades do Reddit, outros usuários relatam tanto aversões quanto aumento do interesse por perfumes.
Esses depoimentos não provam que o medicamento tenha provocado cada uma dessas mudanças. Mas mostram o tipo de experiência que pode ser relatada por um paciente durante o tratamento.
E é justamente aí que o tema deixa de ser apenas uma curiosidade das redes sociais e passa a ser de interesse do farmacêutico.
Esses relatos podem aparecer durante a dispensação
Durante a dispensação, um paciente em uso de semaglutida pode comentar que perfumes, alimentos ou outros cheiros passaram a parecer diferentes. Diante de um relato como esse, o farmacêutico pode explicar que alterações de olfato e paladar já foram observadas com maior frequência entre usuários de agonistas de GLP-1, embora a ciência ainda não tenha estabelecido uma relação direta de causa e efeito.
Na maioria das situações, uma mudança na percepção de cheiros pode aparecer apenas como uma experiência diferente durante o tratamento, sem necessariamente exigir uma intervenção específica. O papel do farmacêutico clínico é conhecer essa possibilidade para orientar o paciente com informação baseada nas evidências disponíveis, evitando tanto minimizar a queixa quanto atribuí-la automaticamente ao medicamento.
Caso a alteração seja intensa, persistente ou causar impacto importante na rotina do paciente, o farmacêutico pode orientá-lo a conversar com o profissional que prescreveu o medicamento, para que o caso seja avaliado e, se necessário, sejam discutidas alternativas para a continuidade do tratamento.
É justamente esse tipo de situação que mostra por que acompanhar novos estudos importa para quem trabalha com Atenção Farmacêutica: uma queixa que poderia parecer sem relação com o tratamento passa a ser compreendida e explicada de forma mais adequada ao paciente.
Dispensar não é apenas entregar o medicamento
Casos como esse reforçam a importância de uma dispensação realizada de forma adequada, com espaço para orientação e diálogo com o paciente.
A dispensação não deve se limitar à entrega do medicamento. É também o momento em que o farmacêutico pode confirmar se o paciente compreendeu a forma correta de uso, esclarecer dúvidas, reforçar orientações importantes e conversar sobre a adesão ao tratamento.
Ouvir o paciente também faz parte desse processo. Relatos sobre mudanças percebidas durante o uso de um medicamento, mesmo quando parecem simples ou inesperados, podem ajudar o profissional a compreender melhor como aquele tratamento está funcionando na prática.
No caso da semaglutida e de outros agonistas de GLP-1, conhecer estudos recentes permite que o farmacêutico responda a essas dúvidas com mais segurança e contextualize experiências que o próprio paciente talvez não soubesse relacionar ao medicamento.
É por isso que a Atenção Farmacêutica exige mais do que conhecimento sobre posologia e administração: exige escuta, atualização científica e capacidade de transformar a dispensação em um momento efetivo de orientação.
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Novos estudos também mudam as perguntas feitas ao paciente
Medicamentos amplamente utilizados continuam sendo estudados mesmo depois de chegarem à prática clínica.
Com a expansão do uso de semaglutida e de outros agonistas de GLP-1, novas informações podem surgir a partir de grandes bases de dados, estudos observacionais e acompanhamento dos pacientes.
É por isso que acompanhar a produção científica faz parte da atuação do farmacêutico clínico.
O estudo publicado na JAMA não confirma as histórias de “obsessão por perfumes” compartilhadas nas redes e tampouco explica por que alguns usuários passam a gostar mais de determinadas fragrâncias enquanto outros desenvolvem aversão.
Mas mostra que existe um dado científico por trás de uma parte importante desses relatos: alterações de olfato e paladar foram registradas com maior frequência entre usuários de agonistas de GLP-1.
É importante que o farmacêutico saiba reconhecer a queixa quando ela chega ao atendimento e tenha repertório para orientar o paciente com segurança. Uma dispensação qualificada também depende da atualização constante sobre o que a ciência continua descobrindo a respeito dos medicamentos e de seus possíveis efeitos.
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