O aumento dos diagnósticos de câncer entre pessoas mais jovens pode estar relacionado a um fenômeno que não aparece na certidão de nascimento: o envelhecimento biológico acelerado. Um estudo publicado na Nature Medicine identificou que gerações mais recentes apresentam organismos biologicamente mais envelhecidos do que seria esperado para sua idade cronológica e que essa diferença esteve associada a maior risco de cânceres sólidos de início precoce.
A pesquisa, intitulada Biological aging and generational shifts in early-onset cancer risk, analisou inicialmente 154.169 adultos do UK Biobank, no Reino Unido, e encontrou sinais de envelhecimento sistêmico progressivamente maiores nas coortes de nascimento mais recentes. Os resultados foram parcialmente validados em outros 10.262 participantes do programa norte-americano All of Us.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que o trabalho é observacional. Isso significa que ele identificou uma associação entre envelhecimento biológico acelerado e câncer precoce, mas não demonstrou que um fenômeno seja diretamente responsável pelo outro.
Idade no documento não é a mesma idade das células
A idade cronológica indica quantos anos uma pessoa viveu. A idade biológica tenta representar o estado funcional do organismo a partir de alterações metabólicas, inflamatórias e fisiológicas acumuladas ao longo da vida.
Duas pessoas de 40 anos, portanto, podem ter o mesmo número de aniversários e apresentar organismos em condições biológicas diferentes.
Para estimar esse envelhecimento, os pesquisadores utilizaram diferentes modelos. Um deles foi o PhenoAge, que combina a idade cronológica com nove biomarcadores sanguíneos, incluindo albumina, creatinina, glicose, proteína C-reativa, contagem de leucócitos e outros parâmetros relacionados à saúde e à mortalidade. Também foram utilizados o método Klemera-Doubal e um modelo baseado em dados metabolômicos.
Além da avaliação do organismo como um todo, os cientistas utilizaram proteínas presentes no plasma para estimar o envelhecimento de sistemas e tecidos específicos.
A ideia não era simplesmente descobrir se determinado participante parecia “mais velho”. O objetivo era identificar se seu organismo apresentava um perfil molecular e fisiológico mais envelhecido do que o esperado para aquela idade.
Gerações mais recentes apresentaram maior diferença
No UK Biobank, pessoas nascidas entre 1965 e 1974 apresentaram um age gap padronizado 23% maior do que aquelas nascidas entre 1950 e 1954.
O mesmo padrão apareceu de forma ainda mais pronunciada na população norte-americana. Entre os participantes do All of Us, os nascidos entre 1990 e 1999 apresentaram diferença padronizada de idade biológica 92% maior quando comparados aos nascidos entre 1965 e 1969.
Isso não significa que uma pessoa nascida nos anos 1990 seja literalmente “92% mais velha”. O percentual se refere à diferença padronizada observada no marcador utilizado pelos pesquisadores.
O achado indica que gerações mais recentes tendem a apresentar perfis biológicos relativamente mais envelhecidos quando comparadas às gerações anteriores em idades semelhantes.
Envelhecimento acelerado foi associado a maior risco de câncer
A próxima pergunta foi verificar se essa diferença poderia estar relacionada ao surgimento de tumores em idades mais jovens.
Ao longo do acompanhamento no Reino Unido, cada aumento de um desvio padrão no age gap determinado pelo PhenoAge esteve associado a 8% mais risco de câncer sólido de início precoce.
Quando os pesquisadores compararam os participantes com menor e maior envelhecimento biológico, aqueles no grupo mais envelhecido apresentaram 15% mais risco de desenvolver câncer sólido antes dos 55 anos.
A relação não apareceu com a mesma intensidade para todos os tumores.
As associações mais evidentes envolveram:
- câncer de pulmão, com aumento de 57% no risco para cada desvio padrão no marcador;
- cânceres gastrointestinais, com aumento de 17%;
- câncer uterino, com aumento de 31%.
Para o câncer colorretal especificamente, o aumento observado foi de 14%, embora algumas análises tenham apresentado diferentes níveis de significância estatística.
Os resultados permaneceram semelhantes mesmo depois de os pesquisadores ajustarem as análises para predisposição genética ao envelhecimento, risco hereditário de determinados cânceres e comprimento dos telômeros.
Isso sugere que o fenômeno pode refletir exposições e alterações biológicas que vão além da herança genética.
Alguns tecidos parecem envelhecer de maneira diferente
Um dos achados mais interessantes apareceu quando os pesquisadores deixaram de analisar apenas o envelhecimento sistêmico e observaram órgãos e tecidos separadamente.
O envelhecimento acelerado do sistema imunológico esteve associado a maior risco de câncer de pulmão de início precoce. Cada aumento de um desvio padrão nesse marcador foi relacionado a um risco cerca de 89% maior.
Já o envelhecimento do tecido adiposo esteve associado a um risco 60% maior de câncer colorretal precoce.
Esses resultados levantam a possibilidade de que diferentes processos biológicos relacionados ao envelhecimento participem de maneira distinta da formação dos tumores.
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No pulmão, os autores discutem possíveis relações com inflamação crônica, remodelamento imunológico, exposições inaladas e alterações celulares acumuladas.
No câncer colorretal, alterações do tecido adiposo podem interagir com processos metabólicos, inflamatórios, resistência à insulina e microbioma intestinal.
Os próprios pesquisadores classificam essas análises como exploratórias e defendem validação em outras populações.
Por que pessoas mais jovens estariam envelhecendo biologicamente mais rápido?
Apesar de não identificarem uma causa objetiva para esse envelhecimento acelerado, os autores sugerem que ele pode funcionar como um marcador integrado das diferentes exposições acumuladas ao longo da vida.
Obesidade iniciada cada vez mais cedo, alterações metabólicas, pior qualidade da alimentação, períodos prolongados de sedentarismo, perturbações do ritmo circadiano, poluição e exposição a substâncias químicas ambientais estão entre as hipóteses discutidas.
Em vez de um único fator explicar o aumento dos tumores precoces, diferentes agressões podem atuar simultaneamente e modificar processos inflamatórios, imunológicos, metabólicos e celulares.
Isso também ajuda a explicar por que identificar a origem desse fenômeno tem sido tão difícil.
Câncer precoce já vinha aumentando há décadas
A nova pesquisa procura explicar uma tendência epidemiológica já observada anteriormente.
Um estudo publicado em 2023 na BMJ Oncology, denominado Global trends in incidence, death, burden and risk factors of early-onset cancer from 1990 to 2019, analisou dados de 29 tipos de câncer em 204 países e territórios.
O número global de novos casos diagnosticados entre 14 e 49 anos aumentou 79,1% entre 1990 e 2019, alcançando aproximadamente 3,26 milhões de casos. No mesmo período, o número de mortes por câncer de início precoce cresceu 27,7%, chegando a cerca de 1,06 milhão.
Câncer de mama, tumores de traqueia, brônquios e pulmão, câncer de estômago e câncer colorretal apareceram entre aqueles com maior impacto em mortalidade e anos de vida perdidos ou vividos com incapacidade.
O estudo também projetou aumento do número global de diagnósticos e mortes até 2030 e apontou que as faixas de 40 a 44 e 45 a 49 anos deverão concentrar parcela importante dessa carga.
Alimentação, obesidade, álcool e tabagismo permanecem no radar
O levantamento global também identificou fatores comportamentais e metabólicos associados aos principais cânceres de início precoce.
Para câncer colorretal, apareceram fatores como alimentação inadequada, consumo de álcool, tabagismo, baixa atividade física, IMC elevado e glicemia aumentada.
No câncer de pulmão precoce, o tabagismo permaneceu como principal fator identificado, mas dieta pobre em frutas e glicemia elevada também apareceram na análise.
Para câncer de mama, álcool, tabaco, alimentação e alterações metabólicas figuraram entre os principais fatores avaliados.
A pesquisa mais recente da Nature Medicine não invalida esses achados. Ela propõe uma nova maneira de interpretá-los: diferentes exposições podem estar deixando marcas biológicas cumulativas que fazem determinados sistemas do organismo envelhecerem antes do esperado.
Câncer em jovens pode exigir outra forma de olhar o paciente
O avanço dos tumores precoces cria uma mudança importante no perfil das pessoas que chegam aos serviços de oncologia.
Um adulto de 35 ou 40 anos pode ter fisiologia, composição corporal, metabolismo, função imunológica e histórico terapêutico muito diferentes dos encontrados em pacientes tradicionalmente associados ao câncer.
Além disso, pessoas jovens frequentemente permanecem em tratamento por períodos longos e apresentam questões específicas relacionadas à fertilidade, sexualidade, retorno ao trabalho, saúde cardiovascular, toxicidades tardias e convivência com outras terapias.
O crescimento dessa população aumenta a importância de avaliações individualizadas de tratamento, acompanhamento de interações medicamentosas, toxicidades, adesão e efeitos de longo prazo.
Se biomarcadores de envelhecimento biológico vierem a ser validados para uso clínico, eles também poderão contribuir futuramente para uma compreensão mais precisa da vulnerabilidade individual ao câncer e até da tolerabilidade de determinados tratamentos.
Por enquanto, porém, esses relógios biológicos permanecem ferramentas de pesquisa e não devem ser utilizados isoladamente para prever se alguém desenvolverá câncer.
Estudo pode abrir novos caminhos para prevenção e tratamento
Uma das perspectivas levantadas pelos autores é utilizar o envelhecimento biológico para identificar pessoas aparentemente saudáveis que apresentem maior vulnerabilidade antes que o câncer apareça.
Isso poderia, no futuro, ajudar a selecionar indivíduos que mais se beneficiariam de estratégias intensificadas de prevenção, acompanhamento ou rastreamento.
A implicação pode ir além do diagnóstico precoce.
Entender como envelhecimento imunológico, inflamação, metabolismo e tecido adiposo participam da formação de tumores em pessoas jovens pode revelar novos biomarcadores e possíveis alvos terapêuticos.
Para quem acompanha tratamentos antineoplásicos, o crescimento dos cânceres precoces também reforça a necessidade de compreender um paciente que está mudando. Não se trata apenas de tratar os mesmos tumores alguns anos antes, mas de investigar se eles surgem em ambientes biológicos diferentes e se essas características podem interferir na resposta aos medicamentos, no risco de toxicidade e no acompanhamento ao longo da vida.
Associação ainda precisa ser confirmada
Os pesquisadores destacam limitações importantes.
O estudo é observacional e não estabelece causalidade. A maior parte dos participantes veio do Reino Unido e dos Estados Unidos, o que limita a extrapolação para populações com características genéticas, ambientais e socioeconômicas distintas.
O número de determinados tumores também foi pequeno, especialmente na validação norte-americana, e algumas análises de envelhecimento específico dos órgãos tiveram amostras menores.
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Além disso, os relógios biológicos utilizados não possuem precisão absoluta e precisam de maior validação entre adultos jovens e diferentes grupos populacionais.
A próxima etapa será acompanhar populações durante períodos maiores e realizar medições repetidas. Isso poderá mostrar se uma aceleração da idade biológica realmente antecede o câncer e quais exposições são responsáveis por essa mudança.
A pesquisa, portanto, não permite afirmar que “jovens estão envelhecendo mais rápido e por isso estão tendo câncer”. O que ela apresenta é uma pista relevante: gerações mais recentes mostram sinais mensuráveis de envelhecimento biológico acelerado, e esses sinais aparecem associados justamente a alguns dos cânceres que têm surgido com maior frequência em adultos mais jovens.
Compreender essa relação pode mudar não apenas a forma de prevenir e detectar tumores precocemente, mas também a maneira de acompanhar uma população oncológica que está chegando aos serviços de saúde cada vez mais cedo.
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