Estudo liga gordura abdominal e baixa vitamina D a maior risco de m@rte

Estudo liga gordura abdominal e baixa vitamina D a maior risco de m@rte

A combinação entre obesidade abdominal e deficiência de vitamina D foi associada a um risco de morte 123% maior em pessoas com 50 anos ou mais. O resultado vem de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da University College London, no Reino Unido.

Publicado na revista Diabetes, Obesity and Metabolism, o trabalho acompanhou 5.520 pessoas durante seis anos. A pesquisa recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e de instituições britânicas e norte-americanas.

O risco mais elevado apareceu entre participantes que apresentavam simultaneamente circunferência abdominal aumentada e concentração sérica de vitamina D igual ou inferior a 30 nanomoles por litro.

O achado não significa que 123 em cada 100 pessoas morrerão, nem permite prever individualmente o desfecho. O percentual representa uma elevação relativa do risco ao longo do acompanhamento, depois de ajustes estatísticos para diferentes condições clínicas, sociais e comportamentais.

Estudo acompanhou adultos ingleses por seis anos

O artigo “Does the Combination of Abdominal Obesity and Vitamin D Deficiency Increase the Risk of Death in Individuals Aged 50 or Older? Evidence From the ELSA Study” analisou dados do English Longitudinal Study of Ageing, o ELSA.

A amostra foi composta por adultos com 50 anos ou mais que viviam na comunidade inglesa. A idade média era de 66,6 anos, 55,2% eram mulheres e 97,3% se declararam brancos.

Os níveis de vitamina D foram avaliados por meio da concentração de 25-hidroxivitamina D, ou 25(OH)D, considerada o principal marcador laboratorial das reservas da substância no organismo.

Os pesquisadores classificaram os participantes em três grupos:

  • Suficiência, com concentração superior a 50 nmol/L
  • Insuficiência, entre 30 e 50 nmol/L
  • Deficiência, igual ou inferior a 30 nmol/L

A obesidade abdominal foi definida como circunferência da cintura superior a 102 centímetros nos homens e 88 centímetros nas mulheres, conforme os critérios adotados pelo estudo.

A combinação dessas classificações formou seis grupos, reunindo pessoas com ou sem obesidade abdominal e com níveis suficientes, insuficientes ou deficientes de vitamina D.

Durante os seis anos de acompanhamento, foram registradas 419 mortes, equivalentes a 7,6% da amostra.

Combinação apresentou o maior risco

O grupo sem obesidade abdominal e com vitamina D suficiente foi utilizado como referência. Em comparação com ele, participantes que apresentavam obesidade abdominal e deficiência de vitamina D tiveram risco de morte 123% maior.

O resultado corresponde a uma hazard ratio de 2,23, com intervalo de confiança de 95% entre 1,50 e 3,33. Como o intervalo não inclui o valor 1, a associação foi considerada estatisticamente significativa.

A obesidade abdominal com níveis suficientes de vitamina D foi associada a risco 47% maior. Quando acompanhada de insuficiência de vitamina D, o aumento foi de 50%.

Entre participantes sem obesidade abdominal, a insuficiência de vitamina D foi associada a risco 91% maior, enquanto a deficiência apresentou elevação de 81%.

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Os números mostram que a relação não ocorreu de forma perfeitamente progressiva entre todas as categorias. Ainda assim, a coexistência de obesidade abdominal e deficiência apresentou o maior risco entre os grupos avaliados.

Os modelos estatísticos consideraram idade, sexo, escolaridade, renda, situação conjugal, etnia, tabagismo, consumo de álcool, atividade física, hipertensão, diabetes, câncer, doenças cardíacas e pulmonares, acidente vascular cerebral, osteoporose, colesterol, índice de massa corporal, sintomas depressivos, força muscular, suplementação de vitamina D e estação do ano em que o sangue foi coletado.

Gordura abdominal pode reduzir vitamina disponível

Os pesquisadores apresentam alguns mecanismos que podem ajudar a explicar a associação. Um deles é a menor disponibilidade da vitamina D na presença de excesso de tecido adiposo.

Parte da 25(OH)D circulante pode ficar armazenada nos adipócitos, as células de gordura, reduzindo sua presença no sangue e sua disponibilidade para outros tecidos. Pessoas com obesidade também podem apresentar menor atividade de enzimas envolvidas no metabolismo da vitamina.

A gordura visceral está relacionada a inflamação crônica de baixa intensidade, resistência à insulina, estresse oxidativo e alterações metabólicas. A deficiência de vitamina D, por sua vez, pode comprometer mecanismos de regulação imunológica.

Quando as duas condições coexistem, o ambiente inflamatório e metabólico pode se tornar mais desfavorável. Esse processo ganha relevância após os 50 anos, período em que o organismo já passa por mudanças associadas ao envelhecimento.

Esses mecanismos são hipóteses biologicamente plausíveis, mas o estudo não demonstrou que a deficiência de vitamina D ou a gordura abdominal causaram diretamente as mortes observadas.

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Pesquisa possui limitações

O trabalho é observacional. Portanto, identifica associações, mas não comprova que corrigir a vitamina D ou reduzir a circunferência abdominal diminuirá, por si só, a mortalidade na mesma proporção.

A amostra também foi formada por pessoas que viviam na comunidade inglesa. Os resultados não podem ser automaticamente generalizados para pessoas institucionalizadas ou populações com características sociais e étnicas diferentes.

A gordura abdominal foi estimada pela circunferência da cintura, uma medida acessível e útil na prática clínica, mas menos precisa que exames de composição corporal, tomografia computadorizada ou absorciometria por dupla energia.

Os pesquisadores também não dispunham de alguns marcadores, como o paratormônio, relacionado ao metabolismo da vitamina D. Além disso, participantes excluídos por ausência de dados apresentavam características diferentes daqueles mantidos na análise, o que pode influenciar os resultados.

Essas limitações não invalidam o achado, mas exigem que ele seja interpretado como evidência de associação e alerta para novos estudos, não como prova de que a suplementação isolada previne mortes.

Estudo anterior apontou risco para a mobilidade

O novo trabalho dá continuidade a uma série de pesquisas do mesmo grupo sobre vitamina D e envelhecimento.

Em 2025, pesquisadores da UFSCar e da University College London publicaram o artigo “Is Serum 25-Hydroxyvitamin D Deficiency a Risk Factor for the Incidence of Slow Gait Speed in Older Individuals? Evidence From the English Longitudinal Study of Ageing”.

A pesquisa analisou 2.815 pessoas com 60 anos ou mais que não apresentavam lentidão da marcha no início do acompanhamento. A velocidade da caminhada foi reavaliada ao longo de seis anos.

Participantes com concentração de vitamina D inferior a 30 nmol/L apresentaram risco 22% maior de desenvolver lentidão na caminhada em comparação com aqueles que tinham níveis superiores a 50 nmol/L.

A lentidão foi definida como velocidade inferior a 0,8 metro por segundo. Em pessoas idosas, esse indicador está relacionado à perda de autonomia e ao aumento do risco de quedas, hospitalização, institucionalização e morte.

A deficiência de vitamina D pode afetar a função muscular, a síntese de proteínas e o controle da entrada e saída de cálcio nas células. Também pode interferir na transmissão dos impulsos nervosos relacionados ao movimento.

A marcha, porém, depende de múltiplos fatores. Alterações neurológicas, perda muscular, doenças articulares, sedentarismo, uso de medicamentos e condições cardiovasculares também podem reduzir a velocidade da caminhada.

Deficiência pode permanecer silenciosa

Níveis reduzidos de vitamina D frequentemente não provocam sintomas específicos. Quando a deficiência é importante ou prolongada, podem ocorrer fadiga, fraqueza muscular, dor óssea e dificuldade funcional.

Cansaço, dor nas articulações, queda de cabelo, mudanças de humor ou infecções frequentes também podem aparecer em diferentes condições de saúde. Esses sinais não permitem concluir que existe deficiência de vitamina D.

O diagnóstico depende da avaliação clínica e, quando houver indicação, da dosagem de 25(OH)D no sangue. O resultado precisa ser interpretado junto com idade, alimentação, exposição solar, doenças associadas, função renal, medicamentos utilizados e risco de alterações ósseas.

A obesidade também pode influenciar os níveis circulantes e as necessidades individuais. Por isso, não é adequado iniciar doses elevadas de vitamina D somente com base em sintomas ou informações encontradas na internet.

Suplementação excessiva pode causar toxicidade

A popularização da vitamina D aumentou o consumo sem acompanhamento profissional. Embora seja necessária ao organismo, sua utilização em excesso pode provocar hipercalcemia, condição caracterizada pelo aumento do cálcio no sangue.

Náuseas, vômitos, fraqueza, confusão, sede intensa, aumento da urina, cálculos e lesões renais estão entre as possíveis consequências. Em situações graves, também podem ocorrer alterações cardíacas.

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Dose, duração e necessidade de suplementação devem ser individualizadas. Pessoas com doença renal, histórico de cálculos, alterações do paratormônio, hipercalcemia ou outras condições que modificam o metabolismo da vitamina exigem avaliação mais cuidadosa.

A correção laboratorial também não substitui medidas voltadas ao controle da obesidade abdominal. Alimentação adequada, atividade física, sono, cessação do tabagismo e acompanhamento de doenças crônicas permanecem fundamentais.

Farmacêutico pode identificar riscos e acompanhar o cuidado

O farmacêutico pode reconhecer sinais inespecíficos, fatores de risco e situações que justificam uma investigação clínica mais detalhada. A avaliação pode incluir histórico de saúde, alimentação, exposição solar, medicamentos, suplementos, ocorrência de quedas, força muscular e dificuldades de mobilidade.

A medida da circunferência abdominal é uma ferramenta simples que pode integrar o acompanhamento. Quando associada à avaliação de pressão arterial, glicemia, perfil lipídico e hábitos, ajuda a identificar riscos cardiometabólicos que precisam de intervenção.

Dentro de suas atribuições, dos protocolos adotados e da regulamentação aplicável ao serviço, o farmacêutico pode solicitar exames laboratoriais para rastreamento ou monitoramento do paciente, incluindo a dosagem de 25(OH)D quando clinicamente justificada.

O resultado não deve ser analisado de forma isolada. Casos de deficiência importante, sintomas persistentes, alterações renais, distúrbios do cálcio ou suspeita de doenças associadas precisam ser encaminhados para avaliação médica e acompanhamento multiprofissional.

Quando a suplementação estiver indicada e dentro dos limites de sua atuação, o farmacêutico pode prescrever produtos adequados, definir orientações de uso e acompanhar a resposta. A decisão deve considerar dose, duração, outros suplementos e risco de interações ou duplicidades.

O acompanhamento também permite verificar adesão, evitar doses excessivas e reavaliar a necessidade de continuidade. Mais do que indicar vitamina D, o cuidado farmacêutico deve integrar o resultado laboratorial às condições clínicas e aos demais riscos do paciente.

O estudo reforça que envelhecimento saudável não depende de um único marcador. Gordura abdominal, vitamina D, força muscular, mobilidade e doenças crônicas formam uma rede de fatores que precisa ser avaliada de maneira conjunta. Nesse processo, o farmacêutico pode transformar um achado silencioso em oportunidade de prevenção, sem reduzir um problema complexo à suplementação isolada.

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