Infecções por HIV caem no mundo, mas Brasil contraria tendência e registra alta de 21,9%

Infecções por HIV caem no mundo, mas Brasil contraria tendência e registra alta de 21,9%

O mundo alcançou o menor número de novas infecções por HIV em décadas, mas o Brasil não acompanhou a mesma trajetória. Enquanto as infecções diminuíram globalmente, o País registrou crescimento de 21,9% entre 2010 e 2024, de acordo com o Relatório Global sobre Aids 2026, divulgado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids, a Unaids.

A diferença coloca o Brasil entre os países que avançaram no diagnóstico e no tratamento, mas ainda enfrentam dificuldades para interromper a transmissão do vírus. O quadro exige ampliação da prevenção combinada, da testagem e da vinculação das pessoas diagnosticadas aos serviços de saúde.

Mundo reduz infecções e mortes

A Ficha Técnica 2026 da Unaids estima que 41 milhões de pessoas viviam com HIV em 2025. Ao longo daquele ano, foram registradas 1,2 milhão de novas infecções e 570 mil mortes por doenças relacionadas à aids.

Desde 2010, as novas infecções diminuíram 42%, passando de 2,1 milhões para 1,2 milhão. As mortes relacionadas à aids caíram 57%, de 1,3 milhão para 570 mil no mesmo período.

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O acesso ao tratamento também cresceu. Em 2025, 32,1 milhões de pessoas utilizavam terapia antirretroviral, ante 7,6 milhões em 2010. Apesar do avanço, cerca de 5 milhões ainda não conheciam seu estado sorológico e somente 78% das pessoas que viviam com HIV estavam em tratamento.

Nas metas globais de testagem e tratamento, conhecidas como 95-95-95, 88% das pessoas com HIV conheciam o diagnóstico, 89% das diagnosticadas estavam em tratamento e 95% das tratadas apresentavam supressão viral.

Os dados mostram que o controle clínico avançou mais rapidamente entre quem já está vinculado ao cuidado. As principais lacunas continuam na testagem, no diagnóstico oportuno e no início do tratamento.

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Brasil contraria tendência global

O crescimento de 21,9% estimado pela Unaids para o Brasil contrasta com a redução internacional. Os registros nacionais também indicam que a circulação do vírus permanece relevante, embora utilizem metodologia diferente daquela adotada nas estimativas globais.

O Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, do Ministério da Saúde, contabilizou 39.216 diagnósticos de HIV no Brasil em 2024, com taxa de detecção de 18,4 casos por 100 mil habitantes. Em 2014, essa taxa era de 16 casos por 100 mil habitantes.

Entre 2020 e 2024, o número de diagnósticos aumentou 19%. O Ministério da Saúde ressalta que 2020 foi fortemente afetado pelas restrições aos serviços durante a pandemia, o que exige cautela na comparação. Parte do crescimento posterior pode refletir a retomada da testagem e a melhoria dos registros, além da ocorrência de novas infecções.

O boletim também aponta resultados favoráveis em outros indicadores. Os casos de aids diminuíram 1,5% entre 2023 e 2024, enquanto as mortes relacionadas à doença recuaram 12,8%, chegando ao menor nível da série histórica. Essa diferença reforça que HIV e aids não são sinônimos: o tratamento pode impedir a progressão da infecção para estágios avançados e reduzir a mortalidade.

Diagnósticos quase dobram entre pessoas idosas

O avanço do HIV entre pessoas idosas aparece com clareza nos registros nacionais. Em 2014, o Brasil notificou 752 diagnósticos em pessoas com 60 anos ou mais. Em 2024, foram 1.458, crescimento aproximado de 94% em dez anos.

Entre as mulheres dessa faixa etária, os registros passaram de 292 para 596, aumento de 104%. Entre os homens, cresceram de 459 para 861, alta de aproximadamente 88%.

A participação das pessoas com 60 anos ou mais no total de diagnósticos também aumentou, de 2,3% em 2014 para 3,7% em 2024. Os dados não apontam uma causa isolada, mas evidenciam a necessidade de incluir a sexualidade na maturidade nas políticas de prevenção, ampliar a oferta de testes e enfrentar a baixa percepção de risco e o estigma.

O diagnóstico tardio merece atenção especial nessa população, pois sintomas iniciais podem ser confundidos com outras condições associadas ao envelhecimento. A ausência de testagem pode atrasar o início da terapia antirretroviral e aumentar o risco de complicações.

Prevenção precisa alcançar todas as idades

A resposta ao HIV depende da combinação de diferentes estratégias. Preservativos, testagem regular, tratamento antirretroviral, PrEP, PEP, diagnóstico de outras infecções sexualmente transmissíveis e educação em saúde devem ser oferecidos de acordo com as necessidades de cada pessoa.

A Profilaxia Pré-Exposição, a PrEP, utiliza antirretrovirais antes de uma possível exposição e é indicada para pessoas com maior risco de adquirir HIV. Seu uso exige acompanhamento, testagem periódica e adesão ao esquema definido. A PrEP previne o HIV, mas não protege contra outras infecções sexualmente transmissíveis.

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A Profilaxia Pós-Exposição, a PEP, é uma medida de urgência indicada após situações com possível contato com o vírus. Deve ser iniciada o mais rapidamente possível, em até 72 horas após a exposição, e mantida durante 28 dias.

Para quem vive com HIV, o início e a continuidade da terapia antirretroviral são fundamentais. Quando o tratamento mantém a carga viral indetectável de forma sustentada, o vírus não é transmitido por via sexual, princípio conhecido como indetectável igual a intransmissível.

Cuidado farmacêutico fortalece prevenção e tratamento

A atuação farmacêutica atravessa todas as etapas da resposta ao HIV. Na prevenção, o profissional pode orientar sobre PrEP e PEP, avaliar adesão, esclarecer horários de administração, identificar interações e reforçar a necessidade de testagem e acompanhamento.

No tratamento, o cuidado envolve conferir o esquema antirretroviral, avaliar outros medicamentos utilizados, acompanhar reações adversas e identificar dificuldades que possam provocar interrupções. Condições crônicas e polifarmácia tornam essa avaliação especialmente importante entre pessoas idosas.

O farmacêutico também orienta sobre atrasos ou esquecimentos de doses, conservação dos medicamentos, exames de acompanhamento e sinais que exigem avaliação da equipe de saúde. O acolhimento deve preservar privacidade, autonomia e ausência de julgamento, reduzindo barreiras criadas pelo estigma.

A queda global demonstra que prevenção, diagnóstico e tratamento conseguem modificar o curso da epidemia. O avanço brasileiro, especialmente nas faixas etárias mais altas, mostra que essas estratégias precisam chegar de forma contínua a todas as populações, com acesso, acompanhamento e cuidado integrado.

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