O estado de São Paulo confirmou 16 casos de sarampo em 2026 e iniciou uma campanha de vacinação ampliada para interromper a circulação do vírus. Dos registros, 13 ocorreram na capital, dois em São Bernardo do Campo e um em Guarulhos.
O caso mais recente envolve um bebê com menos de um ano, morador da capital, que já havia recebido uma dose da vacina tríplice viral. Nessa faixa etária, a aplicação é considerada “dose zero” e não substitui o esquema previsto no Calendário Nacional de Vacinação.
Entre as pessoas infectadas estão sete pacientes do sexo masculino e nove do feminino. Dez casos envolvem crianças com até um ano, enquanto os demais ocorreram em adultos entre 20 e 50 anos.
O Brasil contabiliza 19 casos da doença no ano. São Paulo, porém, é o único estado com um surto ativo, caracterizado pela existência de casos relacionados e de uma cadeia de transmissão em andamento.
Vírus circula entre municípios paulistas
Dois casos identificados anteriormente na capital estavam relacionados a viagens à Bolívia e à Guatemala. As demais infecções incluem transmissões ocorridas dentro do estado.
Os dois moradores de São Bernardo do Campo foram infectados após contato com casos da cidade de São Paulo. Isso significa que o município de residência utilizado nas estatísticas não corresponde necessariamente ao local de exposição.
Na capital, a maior concentração foi identificada na Zona Norte, com registros na Vila Medeiros e na Vila Maria. Também houve casos nos bairros do Capão Redondo e Jabaquara, na Zona Sul.
A vigilância sanitária ainda não conseguiu estabelecer a fonte inicial de toda a cadeia. O sequenciamento do vírus indica relação com casos importados, em uma região marcada por intensa mobilidade populacional e fluxo internacional de viajantes.
Para declarar a interrupção do surto, será necessário permanecer por um período sem novos registros relacionados à cadeia atual. Enquanto isso, as ações incluem investigação, busca de contatos, bloqueio vacinal e acompanhamento de pessoas expostas.
Brasil eliminou circulação endêmica, mas não erradicou o sarampo
O sarampo já foi considerado eliminado no Brasil, mas não erradicado. Os termos possuem significados diferentes.
Eliminação significa interromper a transmissão endêmica do vírus dentro de um território por determinado período. Erradicação representa o desaparecimento da doença em todo o mundo, algo que ainda não ocorreu com o sarampo.
O Brasil recebeu, em 2016, o certificado de eliminação concedido pela Organização Pan-Americana da Saúde. O reconhecimento foi perdido em 2019, após a retomada da transmissão sustentada e o registro de aproximadamente 18 mil casos naquele ano.
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Depois de novas campanhas, vigilância epidemiológica e interrupção da circulação endêmica, o País recuperou o certificado em 2024. Isso não impede o aparecimento de casos importados, pois o vírus continua circulando em outras partes do mundo.
O risco é que um viajante infectado introduza o sarampo em uma comunidade com muitas pessoas sem proteção adequada. Quando a cobertura vacinal está abaixo da meta, o vírus encontra indivíduos suscetíveis e pode iniciar uma nova cadeia de transmissão.
Cobertura abaixo de 95% abre espaço para surtos
O sarampo é uma das doenças infecciosas mais transmissíveis. Por isso, o Ministério da Saúde estabelece uma meta de 95% de cobertura para as duas doses da vacina.
Dados preliminares de São Paulo em 2026 indicam cobertura de 77,5% para a primeira dose e 65,5% para a segunda. Em 2025, os percentuais foram de 94% e 84,4%, respectivamente.
A diferença entre as doses mostra que parte das pessoas inicia o esquema, mas não completa a vacinação. Essa situação forma bolsões de suscetibilidade, principalmente entre crianças pequenas, e permite que casos importados provoquem transmissão local.
Portanto, o retorno dos casos não possui uma causa única. Ele resulta da circulação internacional do vírus associada a lacunas de cobertura, atrasos no esquema, dificuldade de acesso, perda de oportunidades de vacinação e desinformação.
Campanha alcança pessoas de até 59 anos
Diante do surto, o Ministério da Saúde recomendou que São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo ampliem a vacinação para toda a população de 6 meses a 59 anos, independentemente do histórico vacinal.
A estratégia começou em 3 de agosto e deverá continuar até 1º de setembro. Na capital, a vacina está disponível nas Unidades Básicas de Saúde e nas AMAs/UBSs integradas.
Um Dia D está previsto para 22 de agosto, quando as 483 UBSs da cidade de São Paulo deverão abrir para vacinação.
Nos outros 642 municípios paulistas, a campanha estadual está concentrada na atualização da caderneta de crianças e adolescentes com menos de 15 anos. A população deve consultar as orientações da prefeitura, pois horários e estratégias podem variar.
A tríplice viral protege contra sarampo, caxumba e rubéola. Para crianças de 6 a 11 meses e 29 dias, a dose administrada em situações de risco é adicional e não substitui as aplicações de rotina aos 12 e aos 15 meses.
Fora dos municípios com vacinação ampliada, o esquema deve seguir o Calendário Nacional e a avaliação da unidade de saúde. Trabalhadores da saúde precisam comprovar duas doses da tríplice viral, independentemente da idade.
Sintomas começam antes das manchas
O sarampo é transmitido pelo ar e por secreções respiratórias eliminadas ao falar, tossir, espirrar ou respirar. O vírus pode permanecer suspenso no ambiente, especialmente em locais fechados e pouco ventilados.
Os primeiros sintomas costumam incluir:
- Febre alta
- Tosse
- Coriza
- Conjuntivite
- Mal-estar intenso
- Pequenos pontos esbranquiçados na parte interna da boca
Depois do quadro inicial, surgem manchas avermelhadas que geralmente começam no rosto, próximas à linha do cabelo ou atrás das orelhas, e se espalham pelo restante do corpo.
A pessoa pode transmitir o vírus antes mesmo do aparecimento das manchas. Em geral, o período de transmissibilidade começa quatro dias antes e permanece até quatro dias depois do início do exantema.
Não existe um antiviral específico de uso rotineiro capaz de eliminar o sarampo. O tratamento é baseado em suporte clínico, controle dos sintomas e prevenção ou manejo de complicações.
Embora muitas pessoas se recuperem, a doença pode causar pneumonia, otite, diarreia, desidratação e encefalite. Crianças pequenas, gestantes, pessoas desnutridas e indivíduos imunossuprimidos apresentam maior risco de evolução grave.
Farmacêutico deve reconhecer suspeita e evitar novas exposições
O farmacêutico pode ser o primeiro profissional procurado por uma pessoa com febre, tosse, coriza, conjuntivite e manchas na pele. Diante dessa combinação, a prioridade não deve ser apenas indicar um medicamento para os sintomas.
O paciente com suspeita precisa ser afastado dos demais usuários e orientado a utilizar máscara. O profissional deve evitar sua permanência em filas ou salas de espera compartilhadas e acionar o fluxo definido pelo serviço para avaliação clínica.
Como a transmissão ocorre pelo ar, profissionais que realizam atendimento próximo devem seguir as precauções para aerossóis, incluindo o uso de respirador PFF2 ou N95, além das medidas de higiene e proteção previstas no protocolo.
O caso suspeito deve ser comunicado imediatamente à vigilância epidemiológica. O sarampo é uma doença de notificação compulsória imediata, e a rapidez permite investigar contatos, coletar amostras e iniciar o bloqueio vacinal.
Sempre que possível, a unidade de referência deve ser avisada antes do deslocamento do paciente. Essa comunicação ajuda o serviço a organizar a chegada e reduz o risco de exposição de gestantes, bebês, pessoas imunossuprimidas e outros usuários.
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O farmacêutico não deve confirmar o diagnóstico apenas pelos sintomas. A definição depende de avaliação clínica, investigação epidemiológica e exames laboratoriais.
Também é necessário perguntar sobre viagens recentes, contato com pessoas doentes, data de início da febre e das manchas e situação vacinal. Essas informações auxiliam a vigilância, mas precisam ser coletadas sem atrasar o encaminhamento.
Contatos também precisam ser avaliados
Pessoas que tiveram contato próximo com um caso suspeito ou confirmado devem receber orientação da vigilância. Dependendo da idade, da situação vacinal, do tempo desde a exposição e das condições clínicas, podem ser indicadas vacinação de bloqueio ou imunoglobulina.
A vacina tríplice viral pode ser utilizada até 72 horas após a exposição em pessoas suscetíveis, conforme avaliação do serviço. A imunoglobulina pode ser indicada até seis dias depois para determinados grupos de maior risco.
Por ser uma vacina de vírus vivo atenuado, a tríplice viral possui contraindicações e precauções específicas, incluindo gestação e algumas situações de imunossupressão. A triagem antes da aplicação é indispensável.
Farmacêutico fortalece cada etapa da imunização
O farmacêutico é um agente fundamental no processo de imunização, especialmente na avaliação segura de quem pode receber cada vacina. Nos serviços habilitados, ele verifica a caderneta, identifica doses atrasadas, realiza a triagem de contraindicações e precauções, administra e registra os imunizantes e orienta sobre possíveis eventos adversos.
Sua atuação também envolve recebimento, armazenamento, monitoramento de temperatura, controle de validade, rastreabilidade e manutenção da cadeia fria, processos indispensáveis para preservar a qualidade dos imunizantes.
Em uma doença altamente transmissível, a orientação individual produz impacto coletivo. Ao reconhecer oportunidades de vacinação, combater a desinformação e encaminhar rapidamente casos suspeitos, o farmacêutico contribui para interromper cadeias de transmissão.
A recuperação do certificado de eliminação em 2024 mostrou que o Brasil consegue controlar o sarampo. Os 16 casos em São Paulo reforçam, porém, que essa conquista depende de vigilância permanente, coberturas elevadas e profissionais preparados em todas as etapas da imunização.
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