Diretor-geral da OMS afirma que outros países podem aprender com o SUS

Diretor-geral da OMS afirma que outros países podem aprender com o SUS

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, classificou o Sistema Único de Saúde como uma referência internacional e afirmou que outros países podem aprender com a experiência brasileira.

“O SUS é único. Outros países podem aprender com o Brasil”, declarou em entrevista ao jornal O Globo, concedida durante uma passagem pelo Rio de Janeiro para compromissos relacionados à Conferência Internacional sobre Aids e à cooperação sanitária com o País.

Ao final da conversa, o dirigente mostrou o Cartão Nacional de Saúde que recebeu durante a visita. O gesto reforçou simbolicamente um dos princípios centrais do sistema brasileiro: o acesso à saúde como um direito de todas as pessoas.

Saúde como direito fundamental

Na entrevista, Tedros destacou que a rede de cuidados do SUS está entre as principais contribuições do Brasil para a saúde global. O diretor-geral da OMS afirmou que já utilizava a experiência brasileira como referência em 2006, quando era ministro da Saúde da Etiópia e trabalhava na construção da atenção primária daquele país.

Para ele, a relevância do modelo está em sua base constitucional. “Saúde não é para poucos nem para a maioria. Saúde é para todos”, afirmou ao jornal.

A avaliação foi reforçada durante uma visita ao Hospital Federal do Andaraí, no Rio de Janeiro. Na ocasião, Tedros ressaltou que poucos países possuem um sistema público capaz de oferecer cobertura universal a uma população superior a 200 milhões de habitantes.

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O reconhecimento não significa ausência de dificuldades. Filas, desigualdades regionais, financiamento, gestão, infraestrutura e disponibilidade de profissionais continuam entre os desafios da rede. Ainda assim, a amplitude do SUS e sua presença em diferentes níveis de atenção tornam a experiência brasileira singular.

Fiocruz amplia papel internacional do Brasil

Tedros também destacou a capacidade brasileira de produzir localmente vacinas e outras tecnologias em saúde. Durante a pandemia de Covid-19, a concentração da produção em poucos países dificultou o acesso de nações de baixa e média renda aos imunizantes.

A atuação da Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, foi citada como exemplo de infraestrutura científica e produtiva capaz de reduzir essa dependência. Para a OMS, ampliar a fabricação regional é uma estratégia importante para enfrentar desigualdades e preparar o mundo para futuras emergências sanitárias.

O diretor-geral ainda apontou a participação brasileira nas negociações do Acordo sobre Pandemias. O Brasil atua na discussão do sistema de acesso a patógenos e repartição de benefícios, mecanismo voltado ao compartilhamento de informações e à distribuição mais equitativa de vacinas, medicamentos e diagnósticos durante crises globais.

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SUS nasceu da redemocratização

O Sistema Único de Saúde começou a ser estruturado durante a redemocratização do Brasil, a partir da mobilização de profissionais, pesquisadores, gestores e movimentos sociais que formaram a Reforma Sanitária Brasileira.

Antes do SUS, o acesso à assistência pública era fragmentado. Trabalhadores vinculados à Previdência Social recebiam atendimento por meio do sistema previdenciário, enquanto grande parte da população dependia de instituições filantrópicas, serviços locais ou pagamento direto.

A 8ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1986, tornou-se um marco ao defender que a saúde deveria ser reconhecida como direito de todos e responsabilidade do Estado. As propostas formuladas naquele processo ajudaram a construir o texto da Constituição Federal de 1988.

O artigo 196 da Constituição estabeleceu que a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas destinadas a reduzir riscos e assegurar acesso universal e igualitário às ações e aos serviços.

A organização do sistema foi regulamentada pelas leis nº 8.080 e nº 8.142, ambas de 1990. A primeira definiu a estrutura e as atribuições do SUS. A segunda regulamentou a participação social e a transferência de recursos entre os entes federativos.

Universalidade, integralidade e equidade

O SUS foi construído sobre três princípios centrais. A universalidade determina que todas as pessoas têm direito ao atendimento. A integralidade estabelece que o cuidado deve abranger promoção da saúde, prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação. A equidade orienta a oferta de recursos conforme as diferentes necessidades da população.

O sistema é descentralizado e compartilhado entre União, estados e municípios. Essa organização permite adaptar políticas e serviços às realidades locais, embora também exija coordenação, financiamento regular e definição clara de responsabilidades.

A participação da sociedade ocorre por meio das conferências e dos conselhos de saúde. Esses espaços reúnem usuários, trabalhadores, gestores e prestadores para acompanhar políticas, discutir prioridades e fiscalizar a aplicação dos recursos.

Atuação vai além de hospitais e consultas

A dimensão do SUS nem sempre é percebida por quem associa o sistema apenas às unidades básicas e aos hospitais públicos. Sua atuação também envolve vigilância sanitária, vigilância epidemiológica, vacinação, transplantes, atendimento móvel de urgência, saúde mental, controle de zoonoses, bancos de sangue e resposta a emergências.

Na atenção primária, as equipes acompanham famílias, promovem vacinação, monitoram doenças crônicas, realizam pré-natal e desenvolvem ações de prevenção. Quando necessário, os usuários são encaminhados para serviços especializados, hospitais e centros de reabilitação.

O SUS também garante acesso a medicamentos, exames, tratamentos oncológicos, hemodiálise, terapias para HIV, tuberculose e hepatites, além de procedimentos de alta complexidade. Durante surtos e pandemias, atua na investigação de casos, produção de dados, vacinação e organização da resposta nacional.

Essa abrangência ajuda a explicar por que o sistema brasileiro é observado internacionalmente. Poucas estruturas públicas reúnem, em escala nacional, atenção clínica, assistência farmacêutica, pesquisa, produção de tecnologias e vigilância em saúde.

Desafios permanecem no acesso e na gestão

A cobertura universal não significa que o acesso ocorra de forma igual em todas as regiões. Municípios distantes de grandes centros enfrentam maior dificuldade para contratar profissionais, manter estoques, oferecer exames e encaminhar pacientes para serviços especializados.

O envelhecimento da população e o crescimento das doenças crônicas também aumentam a demanda. Ao mesmo tempo, novas tecnologias, medicamentos e tratamentos pressionam os orçamentos e exigem avaliações criteriosas de eficácia, segurança e custo-efetividade.

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Fortalecer o SUS passa pela expansão da atenção primária, pela integração entre os níveis assistenciais, pela digitalização dos registros, pela valorização dos trabalhadores e pela continuidade do financiamento. Também exige planejamento para que medicamentos, insumos e profissionais estejam disponíveis onde são necessários.

Farmacêutico sustenta diferentes áreas do SUS

O farmacêutico participa de uma das estruturas essenciais do sistema: a assistência farmacêutica. Sua atuação começa antes de o medicamento chegar ao usuário e envolve seleção, programação, aquisição, armazenamento, distribuição e controle dos estoques.

Na dispensação, o profissional analisa prescrições, orienta sobre doses, horários, conservação e possíveis eventos adversos. Também identifica duplicidades, interações, dificuldades de adesão e situações que exigem comunicação com a equipe assistencial.

Em unidades básicas, ambulatórios e hospitais, o acompanhamento farmacoterapêutico contribui para o uso racional dos medicamentos e para a segurança do paciente. O farmacêutico ainda atua em vacinação, testes, laboratórios, vigilância sanitária, pesquisa, produção pública, avaliação de tecnologias e farmacovigilância.

A ausência desse profissional pode comprometer estoques, atrasar tratamentos e reduzir a segurança da assistência. Por isso, manter equipes dimensionadas e capacitadas é parte da própria sustentabilidade do sistema.

Ao reconhecer o SUS como uma experiência da qual outros países podem aprender, o diretor-geral da OMS também chama atenção para a estrutura humana que mantém essa rede em funcionamento. Entre milhões de atendimentos, medicamentos distribuídos e ações preventivas, o farmacêutico ajuda a transformar o direito constitucional à saúde em cuidado efetivo, seguro e acessível.

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