A depressão está entre os maiores desafios de saúde mental da atualidade. O número de pessoas diagnosticadas cresce ano após ano, o consumo de antidepressivos aumenta e muitos pacientes ainda enfrentam dificuldade para encontrar uma resposta terapêutica adequada. Para parte da população, tratamentos convencionais funcionam bem. Para outra, porém, os sintomas persistem mesmo após diferentes tentativas.
Esse problema também chega à rotina do farmacêutico clínico. Pacientes em uso de antidepressivos, ansiolíticos, estabilizadores de humor e outros psicofármacos chegam à farmácia com dúvidas sobre efeitos adversos, demora para perceber melhora, interações medicamentosas, abandono do tratamento, uso irregular e automedicação. Em muitos casos, o farmacêutico é o profissional que orienta, acompanha, identifica sinais de alerta e reforça o uso racional desses medicamentos.
Nesse contexto que a psilocibina, substância psicodélica presente em algumas espécies de cogumelos alucinógenos, voltou ao centro da pesquisa científica. Estudos recentes sugerem que, em ambiente controlado e com acompanhamento profissional, uma dose única pode produzir efeitos antidepressivos rápidos e relativamente duradouros em pacientes com transtorno depressivo maior.
Estudo avaliou dose única de psilocibina em depressão maior
Uma pesquisa publicada na JAMA Network Open, avaliou 35 adultos com transtorno depressivo maior recorrente, moderado a grave, acompanhados entre 2021 e 2024 em uma clínica psiquiátrica de Estocolmo, na Suécia.
Os participantes foram divididos em dois grupos. Um recebeu uma dose única de 25 mg de psilocibina. O outro recebeu 100 mg de niacina, utilizada como placebo ativo por provocar sensações físicas leves. Todos passaram por sessões estruturadas de suporte psicoterapêutico antes, durante e depois da administração.
O estudo observou redução significativamente maior dos sintomas depressivos no grupo que recebeu psilocibina já no oitavo dia após a dose. A diferença também permaneceu significativa nos dias 15 e 42. Nos autorrelatos dos participantes, a melhora apareceu ainda mais cedo, a partir do segundo dia, e persistiu por mais de três meses em alguns desfechos.
Na sexta semana, a taxa de remissão foi de 52,9% no grupo psilocibina, contra 5,9% no grupo niacina. Após um ano, a diferença entre os grupos já não era estatisticamente significativa na escala principal, o que mostra que o efeito pode ser rápido e relevante, mas talvez não seja permanente para todos os pacientes.
O que é a psilocibina
A psilocibina é um composto natural encontrado em algumas espécies de cogumelos, popularmente chamados de “cogumelos mágicos”. No organismo, ela é convertida em psilocina, metabólito ativo que atua principalmente sobre receptores serotoninérgicos, especialmente o receptor 5-HT2A, ligado a percepção, emoção, cognição e processamento subjetivo.
Nos estudos clínicos, a substância não é administrada como uso recreativo. Ela é utilizada em dose controlada, com triagem rigorosa dos participantes, ambiente preparado, acompanhamento psicológico, monitoramento de segurança e integração posterior da experiência.
Esse ponto é essencial. O interesse científico na psilocibina não autoriza automedicação, uso clandestino ou consumo sem supervisão. A própria experiência psicodélica pode ser intensa, desconfortável e arriscada para pessoas vulneráveis. Por isso, a pesquisa avança junto com debates sobre segurança, regulação, critérios de indicação e monitoramento.
Por que a psilocibina chama tanta atenção na depressão
A depressão pode envolver padrões rígidos de pensamento, ruminação negativa, alterações de humor, perda de interesse, prejuízo cognitivo, distúrbios do sono e impacto importante na vida social e profissional. Muitos antidepressivos convencionais precisam de semanas para produzir resposta clínica e, em alguns pacientes, os efeitos adversos dificultam a adesão.
A psilocibina chama atenção justamente por apresentar, em alguns estudos, início de ação rápido após uma ou poucas sessões. A hipótese discutida na literatura é que a substância aumente temporariamente a flexibilidade de redes cerebrais, favoreça neuroplasticidade e reduza padrões rígidos associados ao sofrimento psíquico.
A revisão brasileira “Efeitos da psilocibina no corpo humano: uso no tratamento da depressão” destaca que os estudos revisados observaram efeitos antidepressivos já na primeira semana após a administração, com possibilidade de persistência por meses em alguns casos, especialmente quando combinados com acompanhamento psicológico.
A mesma revisão também aponta achados ligados ao aumento do BDNF, fator neurotrófico derivado do cérebro, associado à neuroplasticidade, e alterações em regiões cerebrais relacionadas à regulação emocional, como a amígdala. Esses mecanismos ajudam a explicar por que a substância vem sendo investigada como alternativa para casos de depressão maior e depressão resistente ao tratamento.
Estudos reforçam potencial, mas pedem cautela
A revisão sistemática “Psilocybin, an Effective Treatment for Major Depressive Disorder in Adults” analisou seis estudos clínicos, reunindo 319 participantes adultos com depressão. Em todos os estudos incluídos, a psilocibina foi administrada com suporte psicológico como parte integral do tratamento.
Os autores observaram redução significativa dos sintomas depressivos em todos os estudos avaliados, com poucos efeitos adversos relatados. No entanto, eles também destacaram limitações importantes: número ainda pequeno de estudos, amostras reduzidas, diferenças entre protocolos, necessidade de padronizar dose, tempo de sessões e tipo de suporte psicológico.
Esse cuidado é fundamental. Embora os resultados sejam promissores, a psilocibina ainda não deve ser apresentada como “cura” para depressão. A ciência aponta potencial terapêutico, mas ainda busca responder quem pode se beneficiar, quais pacientes devem ser excluídos, qual dose é mais adequada, como manejar riscos, como evitar recaídas e qual deve ser o modelo seguro de acompanhamento.
Nem todos os pacientes são candidatos
O estudo relatou que a psilocibina foi geralmente bem tolerada, com eventos adversos transitórios e de intensidade leve a moderada na maioria dos casos. Entre os eventos relatados estavam dor de cabeça, ansiedade, alucinação, agitação, aumento da pressão arterial e parestesia.
No entanto, dois participantes do grupo psilocibina apresentaram ansiedade severa e persistente, exigindo atenção adicional. Esse dado é importante porque mostra que, mesmo em ambiente controlado, a terapia não é isenta de risco.
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Os estudos costumam excluir pacientes com histórico de psicose, transtorno bipolar, determinadas condições cardiovasculares, uso atual de substâncias, risco suicida elevado, gestação, lactação e outras condições clínicas que poderiam aumentar a vulnerabilidade. Isso reforça que a psilocibina não deve ser banalizada.
Para o farmacêutico, esse é um ponto central, todo medicamento ou substância com potencial terapêutico também carrega riscos, contraindicações, interações e necessidade de monitoramento.
O farmacêutico clínico precisa acompanhar esse debate
A psilocibina ainda está em fase de investigação clínica para depressão em muitos países, mas o avanço das pesquisas deve chegar à conversa dos pacientes antes mesmo de chegar à rotina regulatória. Isso já acontece com cannabis medicinal, canetas para obesidade, suplementos, nootrópicos e psicofármacos. A informação circula rápido, muitas vezes antes de estar madura.
Pacientes podem chegar à farmácia perguntando se cogumelos tratam depressão, se podem substituir antidepressivos, se a psilocibina é natural, se há risco de dependência, se pode ser usada junto com outros medicamentos ou se existe algum produto disponível no Brasil.
O farmacêutico clínico precisa estar preparado para responder com responsabilidade. Isso significa reconhecer o potencial científico da substância, mas também explicar que os estudos são realizados em condições controladas, com dose definida, seleção criteriosa de participantes e suporte psicoterapêutico. Não se trata de uso livre, recreativo ou caseiro.
Também cabe ao farmacêutico reforçar que pacientes não devem interromper antidepressivos por conta própria, combinar substâncias sem orientação ou buscar alternativas clandestinas. Em saúde mental, mudanças abruptas no tratamento podem gerar piora dos sintomas, recaídas, eventos adversos e risco clínico.
Psicofármacos exigem orientação qualificada
A rotina farmacêutica mostra que muitos pacientes têm dificuldade para usar corretamente medicamentos que atuam no sistema nervoso central. Alguns abandonam o tratamento por efeitos adversos. Outros usam doses diferentes das prescritas, associam álcool, combinam fitoterápicos, suplementos ou substâncias sem informar, ou interrompem o uso quando se sentem melhor.
Com a psilocibina, o debate tende a ser ainda mais delicado. A substância envolve efeitos perceptivos intensos, alterações emocionais, risco de ansiedade, possível aumento transitório da pressão arterial e necessidade de acompanhamento estruturado. Além disso, há dúvidas relevantes sobre interações com antidepressivos, especialmente inibidores seletivos da recaptação de serotonina.
A revisão brasileira destaca que a interrupção de antidepressivos antes da administração de psilocibina ainda é tema de debate na literatura. Alguns estudos sugerem que a descontinuação de ISRS pode interferir na resposta, enquanto outros indicam que o uso prévio de escitalopram não necessariamente compromete os efeitos positivos e pode reduzir alguns efeitos adversos agudos.
Esse tipo de nuance mostra por que o farmacêutico precisa estar atualizado. A resposta não é simples. O cuidado exige conhecimento em farmacologia, psicofarmacologia, interações medicamentosas, adesão, segurança e comunicação com o paciente.
Qualificação é essencial para atuar em saúde mental
A pesquisa com psilocibina mostra que a farmacoterapia em saúde mental está em transformação. Novas possibilidades terapêuticas surgem, antigos modelos são questionados e o farmacêutico clínico precisa acompanhar esse avanço sem perder de vista a segurança do paciente.
A Pós-Graduação em Farmácia Clínica e Prescrição Farmacêutica do ICTQ prepara o farmacêutico para atuar com mais segurança nesse tipo de contexto, desenvolvendo competências em cuidado clínico, acompanhamento farmacoterapêutico, uso racional de medicamentos, interações medicamentosas, comunicação com o paciente e tomada de decisão dentro dos limites legais da profissão.
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