No Brasil, milhões de pessoas dependem da insulina para sobreviver e manter a glicemia sob controle. Para pacientes com diabetes que necessitam desse tratamento, qualquer instabilidade no fornecimento pode gerar preocupação, insegurança e risco clínico, especialmente quando envolve insulinas utilizadas de forma contínua no Sistema Único de Saúde.
Esse cenário também coloca o farmacêutico no centro da resposta em saúde. Quando há dúvida sobre abastecimento, troca de apresentação, interrupção de tratamento, dificuldade de acesso ou efeitos relacionados ao uso de insulina, muitos pacientes procuram orientação diretamente nas farmácias. Por isso, o farmacêutico precisa estar preparado para acolher, orientar, acompanhar a farmacoterapia, identificar sinais de hipoglicemia ou hiperglicemia e encaminhar quando necessário.
A preocupação ganhou força após registros públicos indicarem atraso na entrega de insulina ao Ministério da Saúde em um contrato envolvendo a Fundação Ezequiel Dias, a Funed, a farmacêutica Biomm e o laboratório indiano Wockhardt.
Ministério da Saúde notifica Biomm por atraso na entrega de insulina
Registros públicos da execução de um dos principais contratos de fornecimento de insulina ao SUS indicam uma pendência superior a 1,57 milhão de doses, restando cerca de um mês para o encerramento do acordo. O volume representaria aproximadamente 20% do total contratado em junho do ano passado. Diante do atraso, o Ministério da Saúde notificou a Biomm para prestar esclarecimentos.
O contrato foi firmado entre o Ministério da Saúde e a Funed, laboratório público de Minas Gerais. A produção da insulina, no entanto, ocorre por meio da farmacêutica Biomm, em parceria com o laboratório indiano Wockhardt. As empresas integram uma Parceria para Desenvolvimento Produtivo, a PDP, aprovada em 2017 para transferência de tecnologia.
Segundo a reportagem-base, o valor total contratado foi de R$ 142,1 milhões, para fornecimento de pouco mais de 8 milhões de doses. Considerando os valores unitários, a pendência estimada equivaleria a 1.570.323 doses, ou 19,6% do total contratado.
A Biomm contestou o número, afirmou que restariam 445.168 carpules para entrega, cerca de 3% do volume contratado, e atribuiu alterações no cronograma à cadeia logística global, aos conflitos na região do Golfo e às restrições internacionais no fornecimento do produto em escala mundial. O Ministério da Saúde, por sua vez, afirmou que não há falta de insulina no SUS e que mantém envios regulares aos estados.
Empresa passou por mudanças societárias envolvendo o Banco Master
A situação ganhou mais repercussão porque a Biomm passou por mudanças societárias recentes. Até abril deste ano, a farmacêutica tinha como principal sócio um fundo de investimentos controlado pelo Banco Master, de Daniel Vorcaro. Com a liquidação do fundo Cartago FIA, as ações, que representavam quase 26% do capital social da Biomm, passaram inicialmente ao Banco de Brasília, o BRB, e depois foram vendidas à gestora Alaska Asset Management.
Também houve um revés envolvendo o parceiro indiano Wockhardt. Um mês após a assinatura do contrato, o laboratório apresentou à Anvisa pedido de alteração no processo de fabricação da insulina. A agência fez exigências em novembro e, após meses de análise, decidiu em abril pelo indeferimento da modificação no processo produtivo.
Outro ponto citado no briefing é que a Biomm, empresa que teve Daniel Vorcaro como principal acionista por meio de estrutura ligada ao Banco Master, teria fechado ao menos R$ 303,65 milhões em contratos com o governo federal em 2025 para fornecimento de insulinas. Esse contexto amplia a atenção sobre a execução contratual, especialmente porque envolve um medicamento essencial para pacientes do SUS.
Biomm foi apresentada como aposta nacional para produção de insulina
O caso chama atenção também pelo histórico recente da Biomm. Em abril de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve em Nova Lima, Minas Gerais, para participar da inauguração da planta de produção da farmacêutica.
Na ocasião, a empresa foi apresentada como parte da estratégia de fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde, com objetivo de ampliar a produção nacional de medicamentos estratégicos, reduzir dependência externa e fortalecer a soberania do país em itens prioritários para o SUS.
Fundada em 2001, a Biomm é uma empresa nacional voltada a biomedicamentos. A planta de Nova Lima recebeu investimento expressivo e foi anunciada com capacidade para produção de insulina glargina, canetas, carpules e outros biomedicamentos, além de gerar empregos diretos e indiretos.
Durante o evento, a presença de profissionais farmacêuticos também simbolizou a importância da formação técnica para o setor. A farmacêutica Isabella Silva, formada pela Universidade Federal de Minas Gerais, foi uma das profissionais destacadas na solenidade, reforçando como a produção nacional de medicamentos estratégicos depende diretamente de mão de obra qualificada.
A expectativa original era que a parceria envolvendo Funed, Biomm e Wockhardt ajudasse a atender parte importante da demanda nacional por insulina humana regular e NPH. Por isso, atrasos nesse tipo de contrato geram preocupação não apenas administrativa, mas também sanitária e assistencial.
Risco de desabastecimento preocupa pacientes e pressiona farmácias
Embora o Ministério da Saúde afirme que não há falta de insulina no SUS, o tema é sensível. O próprio governo tem recorrido a contratos emergenciais com fornecedores chineses para evitar uma crise de desabastecimento, inclusive envolvendo insulinas humanas regular e NPH, as mesmas previstas no contrato com Funed, Biomm e Wockhardt.
Na prática, qualquer instabilidade percebida pelo paciente pode repercutir imediatamente nas farmácias. Pessoas com diabetes podem procurar alternativas, perguntar sobre substituições, tentar comprar insulina por conta própria, relatar dificuldade de acesso, apresentar dúvidas sobre conservação, aplicação, troca de insulina ou ajuste de rotina.
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É nesse ponto que o farmacêutico precisa atuar com segurança. O manejo de insulina exige atenção técnica: tipo de insulina, perfil de ação, dose, horário de aplicação, armazenamento, transporte, validade após abertura, técnica de aplicação, escolha de agulha, rodízio de locais e sinais de lipodistrofia.
Também exige orientação sobre sintomas de hipoglicemia e hiperglicemia. Tremores, sudorese, confusão mental, fraqueza, sonolência, sede intensa, urina frequente, náuseas e alterações de consciência não podem ser banalizados. O farmacêutico preparado reconhece sinais de alerta e sabe quando orientar, quando acompanhar e quando encaminhar.
Farmacêutico precisa estar pronto para orientar pacientes insulinodependentes
Pacientes que dependem de insulina não podem ficar sem tratamento. Também não devem trocar apresentações, alterar dose, mudar horário ou substituir um tipo de insulina por outro sem orientação adequada. A insulina regular, a NPH, os análogos basais e as insulinas de ação rápida possuem perfis farmacocinéticos diferentes, com tempos de início, pico e duração distintos.
Por isso, diante de qualquer instabilidade no fornecimento, o farmacêutico tem papel essencial na educação em saúde. Ele pode orientar sobre conservação correta da insulina lacrada e em uso, explicar cuidados com canetas e seringas, reforçar a importância da adesão, identificar erros de aplicação e ajudar o paciente a entender os riscos de interrupção do tratamento.
Também pode auxiliar na identificação de problemas relacionados à farmacoterapia, como episódios recorrentes de hipoglicemia, glicemia persistentemente elevada, uso incorreto de agulhas, aplicação em áreas com lipodistrofia, armazenamento fora da temperatura recomendada e dificuldade de seguir o plano terapêutico.
Em um possível cenário de maior procura por orientação, o farmacêutico clínico deixa de ser apenas um profissional de apoio e passa a ser uma referência para segurança do paciente diabético.
Qualificação é essencial para atuar em diabetes e doenças metabólicas
O atraso envolvendo a entrega de insulina ao SUS reforça uma realidade: o farmacêutico precisa estar preparado para lidar com pacientes que dependem de tratamentos complexos e contínuos. No diabetes, essa responsabilidade é ainda maior, porque falhas de acesso, uso incorreto ou baixa adesão podem gerar consequências graves.
É nesse contexto que a Pós-Graduação em Farmácia Clínica de Endocrinologia e Metabologia do ICTQ se conecta diretamente às demandas atuais da profissão. A formação oferece ao farmacêutico competência técnica mais aprofundada para atuar no tratamento, prevenção e acompanhamento de doenças metabólicas e endocrinológicas.
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O módulo também aprofunda pontos fundamentais da prática farmacêutica, como diferenças entre os tipos de insulina, perfis de ação, propriedades farmacocinéticas, terapia basal e bolus, técnica de aplicação, escolha de agulha, lipodistrofia, preparo, conservação da insulina lacrada e conservação da insulina em uso.
Conhecimento essencial para que o farmacêutico consiga orientar com segurança pacientes que dependem de insulina, especialmente em momentos de instabilidade no abastecimento ou dúvidas sobre acesso ao tratamento.
Se a insulina é indispensável para milhões de brasileiros, o farmacêutico preparado também é indispensável para garantir que esse tratamento seja usado com segurança, continuidade e cuidado.
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