Natanzinho diz usar Venvanse para suportar rotina de shows e reacende alerta sobre uso indiscriminado de estimulantes para produtividade

Natanzinho diz usar Venvanse para suportar rotina de shows e reacende alerta sobre uso indiscriminado de estimulantes para produtividade

O uso de medicamentos estimulantes indicados para TDAH tem deixado de ser visto apenas como tratamento e passou a circular, de forma preocupante, como estratégia de produtividade. Lisdexanfetamina, princípio ativo do Venvanse, e metilfenidato, presente em medicamentos como Ritalina e Concerta, têm sido procurados por pessoas que buscam mais foco, energia, disposição e rendimento em jornadas intensas de trabalho, estudo ou rotina profissional.

Esse movimento acende um alerta direto para o Farmacêutico. Segundo dados da Associação Brasileira de Déficit de Atenção cerca de 2 milhões de pessoas convivem com TDAH no Brasil, esses pacientes precisam de acompanhamento adequado, orientação sobre uso racional, monitoramento de efeitos adversos, adesão ao tratamento e cuidado contínuo.

Ao mesmo tempo, cresce a procura por esses medicamentos por pessoas sem diagnóstico, influenciadas pela ideia de que eles funcionam como uma “pílula da produtividade”. O que reforça a importância do tratamento correto para quem realmente precisa, mas também aumenta a responsabilidade do farmacêutico diante do risco de banalização de medicamentos controlados.

Natanzinho Lima relatou uso de Venvanse no Podpah

O debate ganhou repercussão após o cantor Natanzinho Lima afirmar, durante participação no podcast Podpah, que tomou cápsulas de Venvanse para conseguir dar conta da rotina de apresentações. A declaração reacendeu a discussão sobre o uso de estimulantes do sistema nervoso central fora de uma finalidade terapêutica adequada.

O caso se soma a um comportamento já observado entre universitários, concurseiros e profissionais submetidos a jornadas exaustivas: o uso de estimulantes para tentar “turbinar” concentração e desempenho. Esses medicamentos chegaram a ser chamados de “pílulas da inteligência”, embora especialistas alertem que não há comprovação de que aumentem a inteligência de pessoas sem TDAH.

A lisdexanfetamina é um psicoestimulante derivado da anfetamina. Ela aumenta a disponibilidade de neurotransmissores como dopamina e noradrenalina, relacionados a alerta, recompensa, disposição e atenção. Em pacientes com indicação correta, esse mecanismo pode ajudar no controle de sintomas do TDAH. Em pessoas sem diagnóstico, porém, pode gerar sobrecarga química desnecessária e riscos importantes.

O problema não é o medicamento, é o uso indiscriminado

Medicamentos como lisdexanfetamina e metilfenidato têm papel terapêutico relevante quando utilizados com indicação, acompanhamento e monitoramento. O problema começa quando passam a ser usados como atalho para produtividade, emagrecimento, rotina intensa ou privação de sono.

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Em pessoas sem indicação, o efeito pode ser ilusório. O usuário pode se sentir mais acordado, mais acelerado e mais disposto, mas isso não significa melhora real e sustentada da capacidade cognitiva. Pelo contrário: em doses elevadas ou sem acompanhamento, estimulantes podem aumentar ansiedade, irritabilidade, insônia, perda de apetite, cefaleia, taquicardia, aumento da pressão arterial, piora de quadros psiquiátricos e risco de dependência psicológica.

Também há risco de efeito rebote. Quando o organismo se acostuma ao estímulo artificial, a ausência do medicamento pode vir acompanhada de queda de energia, desânimo, irritabilidade e sensação de incapacidade de funcionar sem a substância. Esse ciclo reforça o uso inadequado e pode atrasar a investigação de causas reais para cansaço, desatenção, baixa produtividade ou sofrimento psíquico.

Para o farmacêutico, esse é um ponto central: o paciente que busca Venvanse ou metilfenidato não deve ser tratado como alguém que apenas quer “render mais”. Ele precisa ser orientado sobre riscos, limites, sinais de abuso, necessidade de uso racional e importância do acompanhamento adequado.

Estudo mostra relação entre mau uso, álcool, drogas e desvio de medicamentos

O estudo “Misuse of Prescribed Stimulant Medication for ADHD and Associated Patterns of Substance Use: Preliminary Analysis Among College Students”, conduzido pela Escola de Farmácia da Universidade de Northeastern, analisou o mau uso de estimulantes prescritos para TDAH entre estudantes universitários. A pesquisa partiu de uma amostra aleatória de 1.738 estudantes e identificou 55 usuários de estimulantes prescritos no último ano. Entre eles, 22, ou 40%, relataram pelo menos uma forma de uso inadequado.

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Os comportamentos mais comuns foram usar dose maior do que a prescrita, relatar mau uso e usar o medicamento intencionalmente com álcool ou outras drogas. O estudo também mostrou que usuários que faziam uso inadequado tinham maior probabilidade de tabagismo, episódios de consumo abusivo de álcool, uso de cocaína e triagem positiva para problemas relacionados ao uso de drogas.

Outro dado importante é o desvio de medicamentos. Entre os estudantes que usavam estimulantes prescritos, 36% relataram ter dado, emprestado ou vendido o próprio medicamento no último ano. Entre os que faziam mau uso, esse percentual foi ainda maior: 57,1%.

O estudo reforça algo essencial para a prática farmacêutica, medicamentos estimulantes exigem orientação, acompanhamento e vigilância. O risco não está apenas no paciente sem prescrição. Também pode existir no paciente que tem prescrição, mas usa doses maiores, mistura com álcool, compartilha cápsulas ou passa a depender do medicamento para funcionar.

O farmacêutico precisa atuar como barreira contra o uso indiscriminado

O farmacêutico é a última barreira entre o medicamento controlado e o uso inadequado. Ele conhece mecanismos de ação, riscos, efeitos adversos, interações, critérios de dispensação, sinais de abuso e pontos de atenção no acompanhamento farmacoterapêutico.

No caso dos estimulantes para TDAH, essa atuação é ainda mais importante. O farmacêutico pode orientar o paciente sobre horário de uso, risco de insônia, perda de apetite, alterações de humor, palpitações, aumento da pressão arterial, uso concomitante com álcool, energéticos ou outros estimulantes e necessidade de não alterar dose por conta própria.

Também pode identificar comportamentos de risco, como procura recorrente antecipada, relatos de uso para virar noites, uso em períodos de prova, uso para shows, trabalho, plantões ou emagrecimento, além de pedidos de informações que indiquem tentativa de obter o medicamento fora da finalidade terapêutica.

A orientação deve ser técnica e firme. Venvanse, Ritalina e Concerta não são suplementos de produtividade. São medicamentos controlados, com indicação específica, risco de abuso e necessidade de acompanhamento.

O cuidado com pacientes com TDAH também exige preparo

É importante separar dois grupos. De um lado, pessoas que usam estimulantes de forma indevida, buscando foco, energia ou desempenho. De outro, pacientes com TDAH que realmente precisam do tratamento e merecem acompanhamento qualificado, sem estigma e sem desinformação.

O farmacêutico precisa estar preparado para os dois cenários. Para quem faz uso inadequado, deve orientar sobre riscos e desencorajar a automedicação. Para quem tem indicação terapêutica, deve contribuir para adesão, segurança, monitoramento de efeitos adversos e uso racional.

Pacientes com TDAH podem apresentar dúvidas sobre início do tratamento, duração do efeito, perda de apetite, sono, irritabilidade, interação com outros medicamentos, armazenamento seguro e risco de compartilhamento. Também podem abandonar o tratamento por medo, efeitos adversos ou uso irregular.

O farmacêutico qualificado ajuda a transformar a dispensação em cuidado. Ele reforça a importância da dose correta, acompanha tolerabilidade, orienta sobre sinais de alerta e contribui para que o tratamento seja feito com segurança.

Qualificação é essencial para acompanhar pacientes em uso de psicofármacos

O caso Natanzinho Lima mostra como medicamentos indicados para transtornos específicos podem ser banalizados quando entram na lógica da produtividade, da alta performance e das redes sociais. Para o farmacêutico, isso amplia a responsabilidade profissional.

A Pós-Graduação em Farmácia Clínica e Prescrição Farmacêutica do ICTQ prepara o farmacêutico para atuar com mais segurança em situações como essa, desenvolvendo competências voltadas ao cuidado clínico, acompanhamento farmacoterapêutico, uso racional de medicamentos, comunicação com o paciente e tomada de decisão dentro dos limites da profissão.

A formação conta com o módulo Atenção Farmacêutica em Psicofármacos, que oferece base para o acompanhamento de pacientes em uso de medicamentos que atuam no sistema nervoso central. Esse conhecimento é fundamental para orientar pacientes com TDAH, reconhecer riscos do uso inadequado de estimulantes, manejar efeitos adversos, monitorar adesão e contribuir para um cuidado mais seguro.

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