Estudos avaliam agonistas de GLP-1 como possíveis aliados no tratamento do câncer

Estudos avaliam agonistas de GLP-1 como possíveis aliados no tratamento do câncer

Pesquisadores começam a investigar se medicamentos agonistas de GLP-1, conhecidos pelo uso no diabetes tipo 2 e na obesidade, podem ter papel também na prevenção, na evolução e até no tratamento de alguns tipos de câncer. Novos dados apresentados no Congresso Americano de Oncologia, a ASCO 2026, em Chicago, indicam associações positivas em câncer colorretal, imunoterapia e câncer de mama.

A oncologia é uma área em que cada avanço terapêutico pode alterar protocolos, expectativas de sobrevida e rotinas de acompanhamento. Por isso, o farmacêutico oncológico precisa acompanhar de perto estudos emergentes, mesmo quando ainda são observacionais ou exploratórios. Novas evidências sobre fármacos já usados em outras doenças podem impactar interações, segurança, adesão, manejo de eventos adversos e decisões junto à equipe multiprofissional.

O câncer continua sendo uma das doenças mais difíceis de tratar porque não se comporta como uma única enfermidade. São muitos tipos, subtipos, estágios, mutações, respostas terapêuticas e perfis de paciente. Mesmo com quimioterapia, imunoterapia, terapias-alvo, radioterapia e cirurgia, a ciência ainda busca alternativas capazes de reduzir recidiva, ampliar sobrevida e melhorar qualidade de vida.

Nesse ponto, agonistas de GLP-1 entram em uma nova discussão. Originalmente desenvolvidos para controle glicêmico e, depois, amplamente utilizados no tratamento da obesidade, esses medicamentos passaram a ser investigados em relação ao risco de câncer, à progressão tumoral e ao desempenho de terapias oncológicas.

GLP-1 entrou na pauta da oncologia

Até pouco tempo, a maior parte das pesquisas sobre agonistas de GLP-1 e câncer se concentrava na prevenção, especialmente porque obesidade, resistência à insulina, inflamação crônica e alterações metabólicas estão associadas a diversos tumores.

Na ASCO 2026, no entanto, alguns estudos avançaram para uma pergunta mais sensível: esses medicamentos poderiam influenciar também a evolução de pacientes que já tiveram ou ainda enfrentam câncer?

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Os dados ainda não permitem afirmar que agonistas de GLP-1 tratam câncer. A maioria das análises apresentadas é observacional, retrospectiva ou exploratória, o que significa que identifica associações, mas não comprova causa e efeito. Mesmo assim, os resultados chamaram atenção porque apontam para possíveis efeitos além da perda de peso.

A hipótese envolve mecanismos como redução da inflamação crônica de baixo grau, melhora do metabolismo, perda de gordura corporal, modulação de vias celulares e possíveis efeitos sobre o microambiente tumoral. Esses caminhos ainda precisam ser confirmados em ensaios clínicos desenhados especificamente para oncologia.

Estudo apontou menor recorrência no câncer colorretal

Um dos estudos apresentados na ASCO 2026, intitulado “GLP-1 Receptor Agonists (GLP-1s) May Help Reduce the Risk of Developing Colorectal Cancer”, avaliou cerca de 20 mil pacientes com câncer colorretal, submetidos à cirurgia e sem evidência de doença após o tratamento. Os pesquisadores compararam os resultados de pacientes que utilizaram agonistas de GLP-1 após a cirurgia com os de pacientes que não fizeram uso desses medicamentos.

Os dados indicaram redução de 67% no risco de recorrência do câncer e diminuição de 55% no risco de morte entre os pacientes que usaram a medicação.

O achado é relevante porque o câncer colorretal está entre os tumores mais frequentes no mundo e pode apresentar risco de retorno mesmo após tratamento com intenção curativa. Reduzir recorrência significa ampliar o tempo livre de doença e, potencialmente, melhorar a sobrevida.

Ainda assim, a interpretação exige cautela. O uso dos medicamentos pode estar associado a outros fatores, como perda de peso, melhor controle metabólico, maior acompanhamento médico ou diferenças no perfil dos pacientes. Para confirmar se o benefício decorre diretamente dos agonistas de GLP-1, serão necessários estudos prospectivos e randomizados.

Uso com imunoterapia também foi avaliado

Outro estudo apresentado na ASCO 2026 avaliou a associação entre o uso concomitante de agonistas de GLP-1 e os desfechos de pacientes com câncer colorretal metastáticos tratados com inibidores de checkpoint imunológico, uma das estratégias de imunoterapia usadas em oncologia.

O trabalho “Association of concurrent GLP-1 receptor agonist use with survival outcomes in patients with metastatic colorectal cancer receiving immune checkpoint inhibitors” analisou registros eletrônicos de saúde da rede TriNetX Global Collaborative Network, reunindo dados de 170 organizações de saúde entre 2015 e 2025.

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Ao todo, 8.304 pacientes elegíveis foram identificados. Desse grupo, 148 receberam agonistas de GLP-1 nos seis meses anteriores ou posteriores ao início da imunoterapia. Após pareamento estatístico por características demográficas, condições metabólicas e comorbidades, foram comparados 138 pacientes em cada grupo.

Os resultados indicaram menor mortalidade no grupo exposto aos agonistas de GLP-1. Em 1 ano, a mortalidade foi de 27,5% entre os pacientes que usaram GLP-1, contra 40,6% no grupo não exposto, o que correspondeu a uma redução relativa de 32% no risco de morte.

Os desfechos secundários também favoreceram o grupo que utilizou agonistas de GLP-1, com menor incidência de pneumonia e menos exacerbações de insuficiência cardíaca. Procedimentos cirúrgicos abdominais maiores também foram numericamente menos frequentes nesse grupo.

Apesar dos resultados promissores, o estudo é retrospectivo e observacional. Isso significa que ele identifica uma associação entre uso de agonistas de GLP-1 e melhores desfechos em pacientes com câncer colorretal metastáticos tratados com imunoterapia, mas não comprova que esses medicamentos tenham causado diretamente o benefício. Os próprios autores defendem estudos prospectivos para avaliar se estratégias baseadas em GLP-1 podem atuar como modificadoras da resposta à imunoterapia.

Artigo analisou risco de câncer de mama

Além dos dados sobre tratamento e sobrevida, um estudo publicado na revista JCO Oncology Practice avaliou a relação entre agonistas de GLP-1 e incidência de câncer de mama em mulheres.

O artigo “GLP-1 agonists are associated with a significant reduction in breast cancer incidence in women” foi conduzido por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia e teve como uma das autoras principais a Drª Elizabeth McDonald, professora de Radiologia na Escola de Medicina Perelman da Universidade da Pensilvânia.

A pesquisa analisou registros eletrônicos de saúde de mulheres entre 45 e 80 anos, com índice de massa corporal igual ou superior a 25, que realizaram exames de imagem da mama entre janeiro de 2022 e junho de 2025. No total, foram avaliadas 111.646 mulheres.

Desse grupo, 15.264 tinham exposição registrada a agonistas de GLP-1, enquanto 96.382 não tinham uso documentado desses medicamentos. O desfecho principal foi a detecção de câncer de mama.

Redução foi de cerca de 30%

Na população geral analisada, a exposição a agonistas de GLP-1 foi associada a menor incidência de câncer de mama. Entre as mulheres expostas, 1,62% desenvolveram câncer de mama. No grupo sem exposição registrada, a incidência foi de 2,47%.

Na análise estatística, o uso de agonistas de GLP-1 foi associado a uma redução de 35,1% na chance de diagnóstico de câncer de mama.

Para reduzir vieses, os pesquisadores também realizaram uma análise pareada, comparando mulheres com características semelhantes, como idade, raça, etnia, maior IMC, densidade mamária e histórico de diabetes tipo 2. Nessa etapa, foram avaliadas 30.528 observações, com 600 casos de câncer.

Mesmo após o pareamento, a associação se manteve: o uso de agonistas de GLP-1 foi ligado a uma redução de aproximadamente 30% na incidência de câncer de mama.

O artigo conclui que, em mulheres submetidas a exames de imagem da mama em um grande centro acadêmico e unidades afiliadas, o tratamento com agonistas de GLP-1 esteve associado a menor incidência de câncer de mama, independentemente de idade, raça, etnia, IMC, densidade mamária e diabetes.

Pesquisadores pedem estudos prospectivos

Apesar do resultado expressivo, o estudo não prova que os medicamentos previnem câncer de mama. Trata-se de uma pesquisa observacional, baseada em registros de saúde, e não de um ensaio clínico randomizado.

Os próprios autores destacam limitações importantes. A pesquisa não avaliou de forma detalhada duração mínima do tratamento, dose acumulada, diferentes formulações, tempo entre início do medicamento e detecção do câncer, fatores genéticos, subtipos tumorais ou estágio da doença.

Também existe risco de viés porque alguns pacientes podem ter usado medicamentos fora do sistema analisado, inclusive formulações de farmácias de manipulação, sem registro nos prontuários avaliados.

Ainda assim, os dados reforçam a necessidade de estudos prospectivos. A equipe de Elizabeth McDonald defende que ensaios clínicos bem desenhados serão necessários para avaliar se agonistas de GLP-1 podem ter papel real na prevenção do câncer de mama.

“Embora nosso estudo não confirme definitivamente uma relação causal, ele reforça a necessidade de investigar esses medicamentos como potenciais ferramentas de prevenção do câncer”, afirmou a pesquisadora.

Possíveis mecanismos ainda estão em investigação

A relação entre GLP-1 e câncer pode envolver diferentes mecanismos. O primeiro é a perda de peso. A obesidade é fator de risco reconhecido para diversos tumores, incluindo câncer de mama pós-menopausa, endométrio, cólon e reto, fígado, pâncreas, rim, ovário e tireoide.

Ao promover perda de peso significativa, os agonistas de GLP-1 podem reduzir inflamação crônica, resistência à insulina, alterações hormonais e outros fatores metabólicos associados à formação e progressão tumoral.

Mas os pesquisadores também discutem possíveis efeitos além do emagrecimento. Estudos laboratoriais sugerem que agonistas de GLP-1 podem influenciar vias celulares relacionadas à proliferação, metabolismo tumoral, sinalização inflamatória e microambiente tumoral.

No câncer de mama, o artigo cita pesquisas pré-clínicas em que compostos como exendina-4 e liraglutida afetaram vias metabólicas de células tumorais. Também há estudos experimentais com tirzepatida em modelos de câncer de mama triplo-negativo associado à obesidade.

Essas hipóteses são biologicamente plausíveis, mas ainda não suficientes para mudar a prática clínica. O próximo passo será testar essas associações em estudos controlados, com acompanhamento mais longo e desfechos oncológicos definidos.

Potencial não significa indicação oncológica

Os resultados apresentados na ASCO 2026 e publicados na literatura científica não devem ser interpretados como autorização para usar agonistas de GLP-1 como tratamento contra o câncer.

Hoje, esses medicamentos têm indicações aprovadas para diabetes tipo 2, obesidade e, em alguns contextos, redução de risco cardiovascular ou condições metabólicas específicas, dependendo do produto e da autoridade regulatória. O uso com finalidade oncológica ainda é campo de pesquisa.

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Esse cuidado é fundamental porque pacientes oncológicos podem ter perda de peso involuntária, caquexia, alterações nutricionais, náuseas, vômitos, polifarmácia e maior vulnerabilidade a eventos adversos. Medicamentos que reduzem apetite e causam sintomas gastrointestinais precisam ser avaliados com atenção nesse contexto.

Na oncologia, toda intervenção deve ser analisada com base em benefício, risco, momento do tratamento, estado nutricional, tipo de tumor, estágio da doença, terapias em uso e objetivos clínicos.

A possibilidade de reaproveitar fármacos já conhecidos é animadora, mas não substitui a necessidade de evidência robusta.

Farmacêutico acompanha ciência e segurança

O avanço das pesquisas sobre agonistas de GLP-1 na oncologia amplia a responsabilidade do farmacêutico que atua com câncer. Esse profissional precisa entender não apenas os antineoplásicos clássicos, mas também medicamentos de suporte, terapias metabólicas, interações e fármacos que podem ganhar novas indicações.

Na prática hospitalar, o farmacêutico participa da avaliação de prescrições, preparo e acompanhamento de medicamentos oncológicos, análise de interações, monitoramento de eventos adversos, farmacovigilância, orientação à equipe e apoio ao paciente.

Com estudos envolvendo GLP-1, surgem novas perguntas: o paciente oncológico pode usar esse medicamento com segurança? Há risco nutricional? Existe interação com quimioterapia, imunoterapia ou terapia-alvo? O benefício observado decorre da perda de peso ou de efeito biológico direto? Em que momento do tratamento o uso faria sentido?

Essas respostas ainda estão sendo construídas. Mas o farmacêutico precisa acompanhar desde agora, porque o desenvolvimento da ciência costuma chegar rapidamente aos protocolos, aos hospitais e às dúvidas dos pacientes.

Oncologia exige qualificação especializada

A farmácia oncológica está entre as mais complexas e estratégicas da farmácia. Novas terapias, combinações, imunoterapias, tratamentos de suporte e estudos de reposicionamento de fármacos exigem profissionais capazes de interpretar evidências e atuar com segurança em ambientes de alta complexidade.

Também é uma área com alta demanda por profissionais qualificados e oportunidades de remuneração atrativa, especialmente em hospitais, clínicas, centros de infusão, indústria, pesquisa clínica e serviços especializados. Mas o acesso a essas posições exige formação consistente.

A pós-graduação em Farmácia Hospitalar e Acompanhamento Oncológico do ICTQ prepara o farmacêutico para atuar em um campo que exige domínio técnico, visão clínica e responsabilidade direta sobre a segurança do paciente, atendendo aos requisitos da Resolução nº640/17 do CFF

A formação aborda conteúdos essenciais para quem deseja atuar no cuidado oncológico, incluindo acompanhamento farmacoterapêutico, protocolos, segurança, uso racional de medicamentos, suporte ao paciente e integração com a equipe multiprofissional.

Os agonistas de GLP-1 ainda não são tratamento contra o câncer. Mas os estudos apresentados na ASCO 2026 mostram como a oncologia está em permanente transformação. Para acompanhar essa mudança, o farmacêutico precisa estar pronto para interpretar novas evidências e transformar conhecimento científico em cuidado seguro.

Conheça o programa completo da pós-graduação, clicando aqui.

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