Uma pílula experimental contra câncer de pâncreas provocou uma cena rara no maior congresso de oncologia do mundo: especialistas se levantaram, aplaudiram e alguns se emocionaram ao ver os resultados apresentados na sessão plenária da American Society of Clinical Oncology, a ASCO, em Chicago. O motivo foi o daraxonrasib, medicamento oral que praticamente dobrou a sobrevida de pacientes com câncer pancreático metastático previamente tratados.
O câncer de pâncreas é um dos tumores mais difíceis de tratar. Para o farmacêutico oncológico, essa realidade já é conhecida na rotina de acompanhamento, preparo, avaliação e manejo de terapias antineoplásicas. Muitos pacientes chegam ao diagnóstico em fase avançada, com poucas opções eficazes, alta toxicidade associada à quimioterapia e prognóstico reservado.
Por isso, todo avanço consistente nesse campo ganha peso especial. Durante décadas, o câncer de pâncreas foi associado a baixas taxas de resposta e sobrevida limitada, especialmente quando a doença já havia progredido após uma linha anterior de tratamento. Em muitos casos, a segunda linha terapêutica oferece benefícios modestos e efeitos adversos importantes.
A apresentação do estudo RASolute 302 chamou atenção justamente por enfrentar esse cenário. Pela primeira vez em anos, uma terapia oral direcionada a mutações RAS mostrou benefício expressivo em sobrevida global, sobrevida livre de progressão e resposta tumoral em pacientes com câncer pancreático metastático.
Estudo foi apresentado na ASCO e publicado no NEJM
Os resultados foram publicados no artigo “Daraxonrasib or Chemotherapy in Previously Treated Metastatic Pancreatic Cancer”, no The New England Journal of Medicine. O estudo avaliou o daraxonrasib em comparação com quimioterapia padrão em pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático metastático previamente tratado.
O ensaio clínico RASolute 302 foi um estudo internacional, aberto, randomizado, de fase 3. Ao todo, 500 pacientes foram distribuídos em dois grupos: 248 receberam daraxonrasib por via oral, na dose de 300 mg uma vez ao dia, e 252 receberam quimioterapia escolhida pelo investigador.
A pesquisa foi conduzida em 59 centros de seis países. A maioria dos participantes, 91,8%, apresentava mutações RAS G12, alteração molecular muito frequente no câncer de pâncreas. O estudo avaliou como desfechos principais a sobrevida global e a sobrevida livre de progressão.
Os dados foram recebidos com forte reação na ASCO porque apresentaram uma diferença difícil de ignorar. Em uma doença na qual os ganhos costumam ser pequenos, o daraxonrasib mostrou resultados que especialistas consideraram capazes de mudar a prática clínica, caso o medicamento avance nas etapas regulatórias.
Sobrevida mediana dobrou com a pílula
Na população com mutação RAS G12, a sobrevida global mediana foi de 13,2 meses no grupo tratado com daraxonrasib, contra 6,6 meses no grupo tratado com quimioterapia. Isso representa uma redução de 60% no risco de morte, com hazard ratio de 0,40 e resultado estatisticamente significativo.
Na população total do estudo, que incluiu pacientes com outras alterações RAS ou sem mutação identificada, o resultado foi semelhante: 13,2 meses de sobrevida mediana com daraxonrasib contra 6,7 meses com quimioterapia.
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A sobrevida livre de progressão também melhorou. Entre os pacientes com RAS G12, o tempo mediano até progressão da doença ou morte foi de 7,3 meses com daraxonrasib, contra 3,5 meses com quimioterapia. Na população total, os números foram 7,2 meses contra 3,6 meses.
Outro dado relevante foi a resposta objetiva. No grupo com RAS G12, 33,2% dos pacientes tratados com daraxonrasib tiveram redução mensurável do tumor, contra 11,8% no grupo da quimioterapia. Na população total, a resposta objetiva também foi superior com o medicamento oral.
Baixa interrupção por efeitos adversos chamou atenção
Além do ganho de sobrevida, o perfil de segurança foi um dos pontos que mais chamaram atenção. Eventos adversos de grau 3 ou superior ocorreram em 61,8% dos pacientes tratados com daraxonrasib e em 69,6% dos pacientes que receberam quimioterapia.
A diferença mais marcante, porém, apareceu na interrupção do tratamento por eventos adversos relacionados à terapia. Apenas 1,2% dos pacientes que usaram daraxonrasib precisaram interromper o tratamento por esse motivo, contra 11,2% no grupo da quimioterapia.
Em oncologia, esse dado tem grande peso. Um tratamento pode ser eficaz, mas se a toxicidade impede sua continuidade, o benefício real para o paciente se reduz. Em tumores agressivos, como o câncer de pâncreas, manter o paciente em tratamento com melhor tolerabilidade pode impactar qualidade de vida, adesão e tempo de controle da doença.
Ainda assim, é importante manter cautela. O daraxonrasib é uma terapia experimental e os resultados do estudo não significam que o medicamento já esteja disponível como tratamento aprovado. A conclusão dos pesquisadores foi de que o fármaco levou a sobrevida global e sobrevida livre de progressão significativamente maiores que a quimioterapia, mas sua incorporação clínica depende de avaliação regulatória.
Por que o câncer de pâncreas é tão difícil
O câncer de pâncreas costuma ser diagnosticado tardiamente porque, em fases iniciais, pode causar sintomas inespecíficos ou silenciosos. Quando surgem sinais mais claros, como dor abdominal, perda de peso, icterícia, fadiga e alterações digestivas, a doença muitas vezes já está avançada.
No adenocarcinoma ductal pancreático metastático, as opções terapêuticas são limitadas. A quimioterapia ainda é a base do tratamento para muitos pacientes, mas os resultados em segunda linha costumam ser modestos. O próprio artigo do NEJM destaca que, nessa população previamente tratada, a sobrevida global mediana com quimioterapia costuma ficar em torno de seis a sete meses, com sobrevida livre de progressão de três a quatro meses.
Outro obstáculo está na biologia molecular do tumor. Mutações em genes da família RAS são encontradas em mais de 90% dos tumores pancreáticos, e grande parte envolve alterações no KRAS. Durante muito tempo, esse alvo foi considerado extremamente difícil de bloquear de forma eficaz.
O daraxonrasib atua justamente nesse ponto. Ele é descrito como um inibidor multisseletivo de RAS(ON), capaz de interferir na sinalização ativa de RAS, incluindo variantes associadas a mutações em KRAS, NRAS e HRAS. Na prática, a proposta é bloquear uma engrenagem central para o crescimento tumoral.
Resultado abre esperança, mas exige preparo técnico
Os resultados apresentados na ASCO explicam a reação emocionada dos especialistas. Em uma doença marcada por poucas vitórias terapêuticas, ver uma pílula dobrar a sobrevida mediana em estudo de fase 3 representa um avanço importante.
Para pacientes e famílias, a notícia traz esperança. Para a comunidade científica, traz a confirmação de que alvos antes vistos como quase inalcançáveis podem ser enfrentados com novas plataformas terapêuticas. Para os serviços oncológicos, sinaliza que o futuro do tratamento será cada vez mais guiado por biomarcadores, terapias-alvo, monitoramento de toxicidades e decisões individualizadas.
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Esse movimento também amplia a responsabilidade do farmacêutico que atua ou deseja atuar em oncologia. Novos medicamentos exigem domínio sobre mecanismo de ação, perfil de segurança, interações, monitoramento de eventos adversos, protocolos institucionais, acesso, armazenamento, preparo e acompanhamento terapêutico.
A oncologia está se tornando cada vez mais precisa e complexa. O avanço de terapias orais, medicamentos-alvo e tratamentos baseados em alterações moleculares exige profissionais capazes de compreender tanto a farmacologia quanto o cuidado integral do paciente oncológico.
Farmacêutico oncológico precisa acompanhar novas terapias
Novas opções terapêuticas podem mudar o percurso de doenças antes associadas a poucas possibilidades. Mas, para que esse avanço chegue ao paciente com segurança, é necessário que as equipes estejam preparadas.
O farmacêutico oncológico tem papel essencial nesse processo. Sua atuação envolve avaliação de prescrições, preparo de antineoplásicos e demais medicamentos em oncologia, análise de compatibilidade, estabilidade, segurança, orientação, acompanhamento farmacoterapêutico, farmacovigilância e apoio à equipe multiprofissional.
Com a chegada de terapias orais e medicamentos-alvo, esse trabalho se torna ainda mais estratégico. O tratamento não acontece apenas no ambiente hospitalar. Muitos pacientes utilizam medicamentos em casa, convivem com efeitos adversos, fazem uso de outros fármacos e precisam de acompanhamento contínuo para manter adesão e segurança.
A pós-graduação em Farmácia Hospitalar e Acompanhamento Oncológico do ICTQ se conecta diretamente a essa necessidade. A especialização atende aos requisitos da Resolução CFF nº 640/2017, que estabelece a titulação como pré-requisito mínimo para atuação em oncologia, área em que o preparo dos antineoplásicos e demais medicamentos é atribuição privativa do farmacêutico.
O estudo com daraxonrasib mostra que a oncologia segue avançando em direção a tratamentos mais específicos, mais complexos e potencialmente mais transformadores. Para acompanhar essa revolução, o farmacêutico precisa estar capacitado técnica, clínica e legalmente para atuar em uma área que exige precisão, atualização constante e responsabilidade.
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