Uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificou uso elevado de medicamentos para dormir entre adultos com sintomas de insônia. Dos 1.158 participantes, 60% relataram utilizar algum produto para induzir ou manter o sono.
O estudo “Sleep Medication Use and Associated Factors Among Adults with Insomnia Symptoms: A Cross-Sectional Study in Brazil” foi publicado em julho de 2026 na revista Sleep Science. O trabalho reuniu pesquisadores do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina e do Instituto de Psicologia da USP.
Os resultados não representam toda a população brasileira. A amostra foi formada por adultos que apresentavam sintomas de insônia e procuravam atendimento psicológico especializado. Ainda assim, o padrão encontrado chama atenção para a frequência, a variedade e o uso contínuo desses medicamentos.
Pesquisa avaliou mais de 1,1 mil adultos
O estudo transversal analisou 1.158 pessoas com idade entre 18 e 59 anos. A média etária foi de 38,9 anos, e a maioria dos participantes era formada por mulheres, pessoas com ensino superior e moradores da Região Sudeste.
O recrutamento ocorreu entre março de 2021 e julho de 2022, por anúncios em redes sociais vinculados a um serviço especializado em sono. Os participantes responderam questionários on-line sobre características sociais, medicamentos utilizados, gravidade da insônia, ansiedade e depressão.
Para participar, era necessário apresentar dificuldade para iniciar ou manter o sono em pelo menos três noites por semana, durante três meses ou mais, com prejuízo no funcionamento durante o dia.
Entre os 1.158 participantes, 694 relataram uso atual de medicamentos para dormir. Desses, 442 utilizavam os produtos de forma contínua, definida como consumo em cinco ou mais noites por semana. Outros 252 faziam uso ocasional, entre uma e quatro noites semanais.
Isso significa que aproximadamente 38% de toda a amostra utilizava medicamentos para dormir de maneira praticamente diária.
Zolpidem foi o medicamento mais relatado
Os fármacos Z, classe de hipnóticos não benzodiazepínicos que inclui o zolpidem, foram os mais frequentes. Cerca de 45% dos usuários de medicamentos para dormir relataram algum produto dessa categoria.
O zolpidem apareceu em 284 relatos. O uso foi significativamente maior entre os consumidores contínuos: 46% desse grupo utilizavam o medicamento, ante 33% dos usuários ocasionais.
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Os benzodiazepínicos foram mencionados por aproximadamente 38% dos participantes que utilizavam medicamentos para dormir. O clonazepam foi o representante mais frequente, seguido por alprazolam, bromazepam e diazepam.
Como os participantes podiam informar mais de um medicamento, as categorias se sobrepõem e não devem ser somadas como se representassem pessoas diferentes.
Zolpidem e benzodiazepínicos podem ser úteis em situações específicas, mas exigem indicação, acompanhamento e reavaliação. O uso prolongado pode provocar tolerância, dependência, prejuízo de memória, sedação residual e maior risco de quedas e acidentes.
Quatro em cada dez usavam produtos sem prescrição
Entre os 694 usuários, 420 afirmaram que o medicamento havia sido prescrito por um profissional de saúde. Outros 274, equivalentes a aproximadamente 40%, relataram utilizar produtos para dormir sem prescrição médica.
Anti-histamínicos e relaxantes musculares apareceram com maior frequência nesse grupo. Embora muitos desses produtos possam ser adquiridos sem retenção de receita, isso não significa que sejam adequados para tratar insônia.
Os relaxantes musculares foram citados por 37% dos usuários ocasionais e 14% dos contínuos. Anti-histamínicos e dimenidrinato também apareceram entre os produtos utilizados por causa de seus efeitos sedativos.
O uso desses medicamentos para dormir pode causar sonolência no dia seguinte, redução dos reflexos, confusão e interações com álcool ou outros depressores do sistema nervoso central. Alguns anti-histamínicos também aumentam a carga anticolinérgica, especialmente preocupante em pessoas idosas.
Os próprios autores destacam que as informações foram autorreferidas. Não foi possível conferir receitas, doses, duração do tratamento ou confirmar individualmente todos os casos de automedicação.
Antidepressivos e antipsicóticos também apareceram
A pesquisa encontrou uso frequente de medicamentos originalmente desenvolvidos para outras condições, mas empregados por suas propriedades sedativas.
Trazodona, mirtazapina, pregabalina e quetiapina foram mais comuns entre os usuários contínuos. A trazodona foi citada por 18% desse grupo e a quetiapina, por 17%.
Esses medicamentos podem ter indicação diante de condições específicas, mas não são escolhas isentas de risco. Sedação, tontura, hipotensão, alterações metabólicas e interações precisam ser consideradas conforme o produto e as características do paciente.
A presença de antidepressivos, anticonvulsivantes e antipsicóticos reforça a necessidade de avaliar se o medicamento foi prescrito para insônia, para uma condição associada ou para outra finalidade clínica.
Gravidade da insônia aumentou probabilidade de uso
A intensidade dos sintomas foi o principal fator associado ao consumo. A cada ponto adicional no Índice de Gravidade de Insônia, a chance de utilizar medicamentos aumentou 14%.
Participantes brancos também apresentaram probabilidade 55% maior de relatar uso em comparação com pretos e pardos, mesmo após o ajuste pela gravidade da insônia.
O resultado não indica uma diferença biológica. Os autores levantam a possibilidade de que acesso aos serviços, práticas de prescrição e fatores sociais influenciem essa distribuição, hipótese que ainda precisa ser investigada.
Idade, sexo, escolaridade, estado civil, atividade física, ansiedade e depressão não permaneceram associados de forma independente ao uso depois dos ajustes estatísticos.
Resultados não representam todos os brasileiros
A amostra possuía características específicas. Os participantes já procuravam ajuda para insônia, foram recrutados por meios digitais e apresentavam elevada escolaridade. A maioria também era branca e morava no Sudeste.
O desenho transversal mostra o retrato de um momento, sem estabelecer quando ou por que o uso começou. Também não permite concluir que os medicamentos causaram maior gravidade da insônia ou que os sintomas mais intensos foram a única razão para o consumo.
Mesmo com essas limitações, os resultados ajudam a caracterizar como pessoas com insônia utilizam medicamentos em condições reais. O elevado número de usuários contínuos e sem prescrição reforça a necessidade de acompanhamento farmacoterapêutico.
Automedicação amplia o alerta
O dado se torna ainda mais preocupante quando relacionado ao comportamento geral de automedicação no País.
A Pesquisa de Automedicação do ICTQ, realizada em 2022, constatou que 89% dos brasileiros declaravam utilizar medicamentos por conta própria. A investigação ouviu 2.099 pessoas em 151 municípios e apresentou margem de erro de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
Em 2014, o percentual era de 76%. O índice passou por 72% em 2016, 79% em 2018 e 81% em 2020, até alcançar 89% em 2022.
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Analgésicos lideraram o consumo sem orientação, com 64%, seguidos por antigripais, com 47%, e relaxantes musculares, com 35%. Ansiedade, estresse e insônia foram citados como motivos para a automedicação por pelo menos 6% dos entrevistados.
As pesquisas medem populações e situações diferentes. Portanto, o índice do ICTQ não significa que 89% dos participantes do estudo da USP se automedicavam. A comparação mostra, contudo, que o uso de produtos para dormir ocorre em um ambiente nacional já marcado pela elevada automedicação.
Uso prolongado exige cuidado
Hipnóticos podem provocar tolerância, situação em que o efeito diminui e o paciente passa a buscar doses maiores. A dependência também pode dificultar a interrupção.
A suspensão abrupta de benzodiazepínicos ou outros sedativos após uso prolongado pode causar sintomas de abstinência, piora intensa da insônia, ansiedade e, em situações graves, convulsões. A retirada deve ser planejada e acompanhada pelo prescritor.
Outro risco é a associação de medicamentos. Benzodiazepínicos, zolpidem, opioides, anti-histamínicos, relaxantes musculares, antipsicóticos e álcool podem somar efeitos sedativos e aumentar o risco de acidentes, depressão respiratória e intoxicação.
No caso do zolpidem, também existem relatos de comportamentos complexos durante o sono, como caminhar, preparar alimentos, enviar mensagens ou realizar outras atividades sem lembrança posterior.
Farmacêutico clínico precisa ir além da dispensação
Durante o atendimento, o farmacêutico pode identificar uso prolongado, aumento de doses, duplicidades e associações perigosas com álcool ou outros sedativos. Também deve investigar o padrão da insônia, os prejuízos durante o dia e possíveis relações com ansiedade, depressão, dor crônica ou outros problemas de saúde.
Casos de uso problemático ou suspeita de transtorno mental devem ser encaminhados para avaliação psiquiátrica, psicológica ou por um serviço especializado em sono. Doses acima das prescritas, quedas, confusão, mistura com álcool e sintomas de abstinência exigem atenção imediata. Medicamentos utilizados continuamente não devem ser interrompidos de forma abrupta.
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Além disso, o conteúdo também contempla anamnese, elaboração do plano de cuidado, identificação de interações e problemas relacionados a medicamentos, acompanhamento farmacoterapêutico, orientação a pacientes e cuidadores, documentação e farmacovigilância.
O farmacêutico ocupa uma posição estratégica na educação da população sobre o uso racional de medicamentos, reconhecendo riscos, orientando o tratamento e ajudando a evitar que a busca pelo sono resulte em dependência, intoxicação ou agravamento da saúde.
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