SUS incorpora novo tratamento para pacientes com ELA em fase inicial

SUS incorpora novo tratamento para pacientes com ELA em fase inicial

O Ministério da Saúde incorporou a edaravona ao Sistema Único de Saúde (SUS) para o tratamento de pacientes adultos com esclerose lateral amiotrófica (ELA) em estágios iniciais. A decisão foi publicada pela Portaria SCTIE/MS nº 40, de 20 de julho de 2026, e prevê prazo máximo de 180 dias para que as áreas técnicas efetivem a oferta do medicamento na rede pública.

A incorporação contempla adultos classificados nos graus 1 ou 2 da doença, com duração menor ou igual a dois anos. O recorte é relevante porque a ELA é uma condição neurodegenerativa progressiva, marcada pela perda de neurônios motores e pelo comprometimento gradual da força muscular, da mobilidade, da fala, da deglutição e da respiração.

Até aqui, o tratamento farmacológico disponível no SUS se concentrava principalmente no riluzol, além das medidas multiprofissionais de suporte. A entrada da edaravona amplia o conjunto de estratégias voltadas a retardar a perda funcional em pacientes selecionados, especialmente quando o tratamento é iniciado em fase mais precoce.

O que é a edaravona

A edaravona é um fármaco com ação antioxidante e neuroprotetora. Seu mecanismo está relacionado à redução do estresse oxidativo, um dos processos envolvidos na lesão neuronal observada na ELA.

Na prática clínica, a proposta terapêutica não é reverter a doença, mas inibir ou retardar a progressão do distúrbio funcional associado às atividades da vida diária. A indicação depende de critérios clínicos, estágio da doença, tempo de evolução, capacidade funcional, segurança, adesão e integração com o cuidado multiprofissional.

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A implementação no SUS também envolve desafios operacionais. O uso de um medicamento especializado exige definição de fluxos, critérios de elegibilidade, acompanhamento neurológico, monitoramento da resposta, farmacovigilância e garantia de continuidade terapêutica.

Estudo analisou sobrevida em dados de mundo real

Entre as evidências citadas na discussão sobre a edaravona está o artigo “Intravenous edaravone treatment in ALS and survival: An exploratory, retrospective, administrative claims analysis”, publicado em 2022 na revista EClinicalMedicine, do grupo The Lancet.

O estudo avaliou a sobrevida global de pacientes com ELA tratados com edaravona intravenosa nos Estados Unidos, em comparação com pacientes que não receberam o medicamento. O desenho foi exploratório, retrospectivo e observacional, com uso de base administrativa de saúde.

Os pesquisadores utilizaram pareamento por escore de propensão para aproximar os grupos quanto a variáveis como idade, sexo, região, seguro de saúde, tempo de doença antes do início da análise, histórico cardiovascular, prescrição de riluzol, gastrostomia, nutrição artificial, ventilação não invasiva e hospitalização por qualquer causa.

Após o pareamento, foram comparados 318 pacientes tratados com edaravona intravenosa e 318 controles não tratados com edaravona. Em ambos os grupos, 65,4% tinham histórico de prescrição de riluzol, o que indica que a análise ocorreu majoritariamente em uma população já exposta ao tratamento padrão.

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Principais resultados

Os resultados apontaram diferença de sobrevida entre os grupos. Até 31 de março de 2021, foram registradas 155 mortes no grupo tratado com edaravona, equivalente a 48,7%, e 196 mortes no grupo controle, equivalente a 61,6%.

A mediana de sobrevida global foi de 29,5 meses entre os pacientes tratados com edaravona intravenosa e de 23,5 meses entre os não tratados. Isso representa uma diferença de seis meses na mediana de sobrevida observada na análise.

O risco de morte foi 27% menor no grupo tratado, com hazard ratio de 0,73, intervalo de confiança de 95% entre 0,59 e 0,91, e valor de p igual a 0,005. No resumo do artigo, os autores afirmam que o tratamento foi associado a “prolonged overall survival”, ou seja, maior sobrevida global em comparação ao não uso da edaravona intravenosa.

O próprio artigo, porém, delimita a força da evidência. Os autores registram que “adequately powered RCTs are needed”, indicando a necessidade de ensaios clínicos randomizados com poder estatístico adequado para sustentar o achado.

Evidência promissora, mas não definitiva

O resultado é relevante porque a ELA ainda tem poucas alternativas farmacológicas modificadoras de curso. Em uma doença grave, progressiva e de alta complexidade assistencial, uma associação com maior sobrevida global chama atenção clínica e regulatória.

Ainda assim, o desenho do estudo exige cautela. Trata-se de uma análise retrospectiva de dados administrativos, não de um ensaio clínico randomizado. Esse tipo de estudo permite observar associações em mundo real, mas não elimina completamente vieses de seleção, diferenças assistenciais e fatores clínicos não registrados na base analisada.

Outro ponto importante é o financiamento. O artigo informa que o estudo foi financiado pela Mitsubishi Tanabe Pharma America, empresa ligada ao desenvolvimento e à comercialização da edaravona. Isso não invalida os dados, mas reforça a necessidade de leitura crítica, especialmente em decisões de incorporação, protocolos e análise de custo-efetividade.

O que a incorporação muda no SUS

A incorporação da edaravona amplia o acesso público a uma terapia já discutida internacionalmente para ELA, mas sua efetividade na prática dependerá da organização da rede. A seleção adequada do paciente será decisiva, já que a portaria restringe o uso a adultos em estágios iniciais, graus 1 ou 2, com duração da doença menor ou igual a dois anos.

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Esse critério reforça a importância do diagnóstico precoce e do encaminhamento rápido para acompanhamento especializado. Em doenças neurodegenerativas, o tempo até a avaliação, a definição terapêutica e o início do tratamento pode influenciar a janela de benefício.

A nova opção também exige acompanhamento estruturado. A resposta funcional, a tolerabilidade, a adesão, a continuidade do fornecimento e a integração com suporte respiratório, nutrição, reabilitação, cuidado paliativo e acompanhamento neurológico precisarão fazer parte da rotina assistencial.

Farmacoterapia em ELA exige precisão

A chegada da edaravona ao SUS não transforma o tratamento da ELA em uma intervenção simples. O medicamento entra em uma linha de cuidado que exige critério, monitoramento e avaliação contínua de benefício clínico.

Na cadeia assistencial, a gestão farmacêutica terá papel importante na programação, armazenamento, dispensação, rastreabilidade, orientação de uso e farmacovigilância. Também será necessário acompanhar eventos adversos, possíveis interrupções, descontinuidade e adesão ao regime definido.

A incorporação representa avanço porque amplia o arsenal terapêutico disponível na rede pública. Mas seu impacto dependerá menos da presença do medicamento na lista do SUS e mais da capacidade de transformar essa incorporação em acesso oportuno, uso adequado e acompanhamento seguro para pacientes com ELA em fase inicial.

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