Uma farmacêutica foi presa em flagrante em Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital, suspeita de vender e aplicar uma vacina vencida em um bebê de seis meses. O caso ocorreu em uma farmácia e foi descoberto pelo pai da criança, que solicitou as embalagens dos imunizantes após o atendimento e percebeu, ao conferir os rótulos, que uma das vacinas estava com prazo de validade expirado.
Segundo a Polícia Civil, o bebê recebeu três vacinas no estabelecimento, sendo duas injetáveis e uma de uso oral. A vacina oral teria sido a que estava vencida. Após identificar a irregularidade, o responsável pela criança procurou a delegacia e registrou a ocorrência.
Equipes da Polícia Civil, com apoio da Vigilância Sanitária Municipal, realizaram fiscalização no local. Durante a ação, foram apreendidos a embalagem da vacina aplicada e o cupom fiscal referente à compra. A Vigilância Sanitária também lavrou auto de infração por venda e administração de medicamento vencido.
A farmacêutica foi liberada após o pagamento de fiança. O caso segue em investigação para esclarecer se a falha ocorreu por negligência no controle interno ou se havia conhecimento prévio sobre o vencimento do imunizante antes da administração.
Fiscalização apontou falhas em etapas críticas do serviço
De acordo com a investigação, pelo menos três pontos de controle podem ter falhado. O primeiro envolve o gerenciamento do estoque da farmácia, que deveria identificar produtos próximos ao vencimento e retirar do uso aqueles com prazo expirado. O segundo estaria relacionado ao registro da vacina no sistema nacional, que, segundo a profissional, estaria fora do ar no momento do atendimento.
O terceiro ponto é o mais sensível na prática farmacêutica: a conferência final antes da administração. Ao abrir a embalagem, preparar o imunizante e realizar o atendimento, o profissional responsável pelo serviço tem uma última oportunidade de verificar lote, validade, apresentação, integridade do produto, via de administração e correspondência com a vacina indicada.
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A Vigilância Sanitária informou que outras duas caixas da mesma vacina vencida foram encontradas no estabelecimento, mas já separadas em local destinado ao descarte. Ainda assim, a presença de imunizante vencido na rotina do serviço reforça a necessidade de protocolos rígidos para segregação, identificação e retirada imediata de produtos impróprios para uso.
A farmácia foi autuada em R$ 37 mil. O caso também poderá ser avaliado pelo Conselho Regional de Farmácia, que tem competência para analisar eventual responsabilidade ética e disciplinar da profissional envolvida.
Vacinação em farmácias exige mais do que apenas estrutura física
A vacinação em farmácias é uma atividade regulamentada e exige requisitos técnicos, sanitários e profissionais. A Resolução CFF nº 654/2018 estabelece que o serviço deve ser prestado exclusivamente por farmacêutico apto, com formação complementar compatível, autonomia técnica e declaração de aptidão emitida pelo Conselho Regional de Farmácia.
A norma não trata a vacinação como um ato isolado. O serviço envolve acolhimento, avaliação do estado vacinal, identificação de necessidades de saúde, verificação de precauções e contraindicações, definição da conduta, preparo, administração, descarte de resíduos, orientação ao paciente, acompanhamento de possíveis intercorrências e encaminhamento quando necessário.
Também estão entre as atribuições do farmacêutico elaborar Procedimentos Operacionais Padrão, registrar informações no cartão de vacinação, no sistema definido pelo Ministério da Saúde e no prontuário do paciente, além de notificar incidentes, eventos adversos pós-vacinação e queixas técnicas.
Na prática, isso significa que o serviço de vacinação exige domínio técnico, organização documental, controle de processos e vigilância permanente. Uma falha de validade não é apenas um erro operacional. É uma ruptura em uma cadeia de segurança que deveria proteger o paciente em todas as etapas do atendimento.
Validade, lote e rastreabilidade são barreiras de segurança
Em serviços de vacinação, a conferência da validade é uma etapa básica, mas decisiva. O prazo de validade indica o período em que o produto mantém sua qualidade, segurança e eficácia dentro das condições estabelecidas pelo fabricante e aprovadas pela autoridade sanitária.
Quando uma vacina vencida é administrada, o problema não se resume ao risco imediato de reação. Também surge a dúvida sobre a efetividade da imunização, a necessidade de reavaliação do esquema vacinal, o registro correto do episódio, a comunicação com a família e a possível notificação às autoridades competentes.
Para o farmacêutico, validade, lote e fabricante não são dados burocráticos. São informações essenciais para rastreabilidade, farmacovigilância, investigação de queixas técnicas e tomada de decisão em caso de eventos adversos. A ausência de conferência compromete a segurança do paciente e fragiliza a confiança no serviço.
O episódio de Aparecida de Goiânia mostra que a ampliação da vacinação em farmácias precisa caminhar junto com controle rigoroso. A farmácia pode ser um ponto estratégico para ampliar o acesso à imunização, mas esse avanço depende de processos seguros, equipe capacitada e responsabilidade técnica efetiva.
Habilitação farmacêutica exige processo, controle e responsabilidade técnica
O caso da vacina vencida expõe um ponto central: a segurança do serviço não depende apenas da autorização para vacinar. Depende da capacidade do estabelecimento e do farmacêutico responsável de transformar exigências sanitárias em rotina, conferência e controle real.
Em serviços de vacinação, cada etapa funciona como uma barreira de segurança. A seleção do imunizante, a conferência do lote e da validade, a conservação em temperatura adequada, o registro das informações, o descarte correto dos resíduos e a orientação ao responsável pelo paciente precisam estar descritos, treinados e executados com rigor.
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Para farmácias que oferecem vacinação, a mensagem é direta. Não basta vender e aplicar imunizantes. É preciso manter POPs atualizados, cadeia de frio monitorada, fluxo de segregação de produtos vencidos, registros completos, rastreabilidade e conferência final antes da administração.
A habilitação farmacêutica deve ser entendida como parte dessa responsabilidade. O serviço exige preparo técnico para reconhecer falhas, corrigir processos, documentar ocorrências e responder com segurança diante de qualquer intercorrência. Quando uma vacina vencida chega ao paciente, não falha apenas uma pessoa. Falha uma cadeia de controle que deveria impedir o erro antes da aplicação.
Formação é parte da segurança do paciente
O avanço dos serviços farmacêuticos ampliou o espaço de atuação do farmacêutico em farmácias, clínicas e consultórios. Mas casos como o de Aparecida de Goiânia mostram que a expansão desse campo exige formação contínua e domínio dos requisitos legais, técnicos e sanitários que sustentam a prática.
A vacinação é uma das áreas em que o erro pode produzir impacto imediato sobre o paciente, a família, o estabelecimento e a credibilidade da profissão. Por isso, a habilitação não deve ser vista como uma formalidade para cumprir exigência do conselho, mas como um processo de preparação para atuar com segurança.
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A notícia de uma vacina vencida aplicada em um bebê não pode ser tratada como episódio isolado. Ela precisa servir como alerta para toda a categoria: a autorização para vacinar é uma conquista profissional, mas a segurança do paciente depende da qualidade com que cada farmacêutico executa, registra, confere e responde pelo serviço prestado.
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