A Anvisa e o Ministério da Saúde emitiram alertas sobre o uso da tadalafila como pré-treino por praticantes de musculação. O medicamento, indicado para condições clínicas específicas, passou a ser usado de forma inadequada em academias sob a promessa de aumentar o fluxo sanguíneo, melhorar o desempenho físico e favorecer o chamado “pump” muscular.
Esse alerta reforça uma responsabilidade central para o farmacêutico clínico, conscientizar a população sobre o uso racional de medicamentos. Muitas vezes, o uso da tadalafila é acompanhado por dúvidas, modismos ou recomendações vistas nas redes sociais, o farmacêutico precisa orientar com segurança e impedir que o medicamento seja tratado como suplemento ou recurso estético.
A popularização da Tadalafila mostra como as redes sociais têm influência direta sobre o comportamento em saúde. Medicamentos antes associados a indicações bem definidas passaram a circular em vídeos, fóruns de treino e conteúdos de performance física, muitas vezes sem explicação sobre riscos, contraindicações ou necessidade de avaliação profissional.
Essa mudança cria um desafio para a farmácia clínica. O farmacêutico deixa de lidar apenas com a dispensação do produto e passa a atuar também na educação do paciente, na identificação de uso inadequado, na prevenção de eventos adversos e no encaminhamento de casos que exigem avaliação médica.
Qual a indicação correta da tadalafila
A tadalafila é um medicamento da classe dos inibidores da fosfodiesterase tipo 5, conhecida como PDE5. Sua ação aumenta a disponibilidade de GMPc, uma molécula envolvida no relaxamento da musculatura lisa dos vasos sanguíneos, favorecendo a vasodilatação em regiões específicas do organismo.
Na prática clínica, a tadalafila é indicada principalmente para o tratamento da disfunção erétil, da hiperplasia prostática benigna e, em apresentações e doses específicas, da hipertensão arterial pulmonar. São condições que exigem avaliação, prescrição e acompanhamento profissional.
O medicamento não é aprovado para melhora de desempenho físico, ganho de massa muscular, hipertrofia ou uso como pré-treino. Esse ponto é essencial porque muitos praticantes de musculação passaram a associar a vasodilatação ao aumento de força, resistência ou volume muscular durante o exercício.
Essa interpretação é inadequada. A vasodilatação promovida pela tadalafila não significa ganho real de hipertrofia, melhora comprovada de performance ou substituição de treino, alimentação, descanso e acompanhamento profissional. Medicamento não deve ser usado como atalho para resultado estético.
Por que a tadalafila virou moda nas academias?
A lógica que sustenta o uso indevido da tadalafila nas academias parte da ideia de que, ao relaxar vasos sanguíneos, o medicamento aumentaria a chegada de sangue, oxigênio e nutrientes aos músculos durante o treino. Esse efeito visual ou sensorial é conhecido no ambiente fitness como “pump”.
O problema é que essa associação não tem comprovação científica suficiente para justificar o uso do medicamento em pessoas saudáveis com objetivo de hipertrofia. A percepção momentânea de maior vascularização não pode ser confundida com aumento real de massa muscular ou melhora sustentada de desempenho.
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As redes sociais ampliaram esse comportamento ao transformar o medicamento em tendência. Conteúdos rápidos, relatos pessoais e promessas de resultado acabam reduzindo uma substância farmacologicamente ativa a uma ferramenta de academia, sem considerar riscos cardiovasculares, interações medicamentosas e efeitos adversos.
Esse fenômeno exige atenção do farmacêutico clínico. Quando um paciente pede tadalafila com intenção de usar antes do treino, o profissional precisa identificar o motivo da compra, explicar que essa não é uma indicação aprovada e reforçar que o uso sem orientação pode trazer consequências graves.
Riscos vão além da queda de pressão
O uso inadequado da tadalafila pode causar dor de cabeça, rubor facial, congestão nasal, tontura, indigestão, dor muscular e dor nas costas. Embora muitas dessas reações sejam conhecidas, elas podem se tornar mais preocupantes quando o medicamento é usado sem avaliação clínica, especialmente antes de exercício intenso.
Um dos riscos mais importantes é a hipotensão, ou queda acentuada da pressão arterial. Esse efeito pode ser agravado quando a tadalafila é combinada com nitratos, alguns medicamentos cardiovasculares, álcool, termogênicos ou substâncias estimulantes usadas por praticantes de musculação.
Durante o treino, a combinação entre esforço físico, desidratação, aumento da frequência cardíaca e uso de produtos estimulantes pode sobrecarregar o sistema cardiovascular. Em pessoas com fatores de risco não diagnosticados, esse comportamento pode aumentar a chance de eventos graves, como arritmias, desmaios, infarto ou acidente vascular cerebral.
Outro risco é o priapismo, uma ereção prolongada e dolorosa que pode durar mais de quatro horas e exige atendimento médico imediato. Embora seja um evento raro, pode causar danos permanentes se não for tratado rapidamente.
Mistura com suplementos e termogênicos aumenta a preocupação
A Anvisa também alerta para a presença irregular de tadalafila em produtos vendidos como suplementos, gomas, fórmulas manipuladas ou combinações voltadas ao público fitness. Medicamentos não podem ser tratados como ingredientes de suplementação alimentar.
Esse tipo de prática é especialmente perigoso porque o consumidor pode não saber exatamente o que está ingerindo. Quando uma substância farmacológica aparece em produtos de composição duvidosa, sem prescrição e sem controle adequado, o risco sanitário aumenta.
A combinação com termogênicos merece atenção. Muitos desses produtos contêm substâncias estimulantes que podem elevar frequência cardíaca, pressão arterial e sensação de alerta. A tadalafila, por sua vez, pode promover vasodilatação e queda de pressão. Essa oposição de efeitos pode gerar instabilidade cardiovascular.
Para o farmacêutico, a orientação precisa ir além da pergunta sobre o medicamento prescrito. É necessário investigar se o paciente usa suplementos, pré-treinos, estimulantes, anabolizantes, bebidas alcoólicas ou outros fármacos. Essa anamnese ajuda a identificar riscos ocultos que o paciente nem sempre relata espontaneamente.
Farmácia é ponto estratégico de orientação
A farmácia é um dos primeiros locais procurados pela população quando surgem dúvidas sobre medicamentos ou efeitos adversos. No caso da tadalafila, muitos pacientes podem buscar orientação apenas depois de sentirem tontura, palpitação, queda de pressão, dor no peito, falta de ar ou desconforto após o uso.
Essa proximidade torna o farmacêutico clínico um agente essencial de cuidado. Ele pode orientar sobre uso racional, esclarecer que a tadalafila não deve ser usada como pré-treino, identificar sinais de alerta e encaminhar o paciente para atendimento médico quando necessário.
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Também cabe ao farmacêutico combater a banalização do medicamento. A tadalafila pode ser segura quando bem indicada, na dose correta e com acompanhamento adequado. O risco aparece quando ela é usada por automedicação, por influência de redes sociais ou com objetivos que não fazem parte de suas indicações terapêuticas.
A dispensação, portanto, deve ser vista como uma oportunidade clínica. Ao conversar com o paciente, o farmacêutico pode prevenir interações, evitar uso inadequado, reforçar a necessidade de prescrição e orientar sobre riscos que muitas vezes não aparecem nos conteúdos consumidos nas redes.
Capacitação garante uma atuação mais segura
O avanço das redes sociais transformou a forma como a população busca informações sobre saúde. Medicamentos, suplementos e tratamentos passam a circular com linguagem simplificada, promessas rápidas e pouca preocupação com segurança. Isso aumenta a responsabilidade do farmacêutico clínico na orientação baseada em evidências.
Para atuar nesse ambiente, não basta conhecer o nome do medicamento. O farmacêutico precisa dominar farmacologia, fisiopatologia, farmacoterapia, anamnese, comunicação clínica, identificação de riscos e critérios de encaminhamento. É esse conhecimento que permite transformar o atendimento em proteção real para o paciente.
A Pós-graduação em Farmácia Clínica e Prescrição Farmacêutica do ICTQ oferece ao farmacêutico as ferramentas necessárias para uma atuação de excelência, desde a anamnese até a farmacoterapia e a fisiopatologia de diferentes condições clínicas.
A formação prepara o profissional para orientar, prescrever dentro dos limites legais, dispensar com segurança e atuar de forma integrada ao cuidado em saúde, conforme a Resolução CFF nº 586/2013, que regulamenta a prescrição farmacêutica.
Casos como o uso da tadalafila como pré-treino mostram que o farmacêutico clínico precisa estar pronto para responder às novas demandas da população. Quando a desinformação chega ao balcão, a qualificação profissional é o que permite proteger o paciente, promover o uso racional de medicamentos e fortalecer a farmácia como estabelecimento de saúde.
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