Vírus Nipah reacende alerta de vigilância e coloca o farmacêutico no centro da resposta clínica

Os alertas recentes sobre o vírus Nipah na Índia reacenderam um tipo de discussão que a pandemia de Covid-19 deixou em estado permanente de prontidão: o quanto um caso importado pode virar um problema hospitalar antes mesmo de ser reconhecido. Em boletim de monitoramento, a Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido (UKHSA) registrou casos confirmados entre profissionais de saúde em West Bengal, com investigação epidemiológica em andamento.

Conhecido do grande público por produções cinematográficas de ficção sobre surtos, o Nipah é um vírus zoonótico associado principalmente a morcegos frugívoros do gênero Pteropus, com potencial de causar doença respiratória e encefalite em humanos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima letalidade entre 40% e 75% e descreve um período de incubação geralmente de 4 a 14 dias, podendo chegar a 45 dias em situações reportadas.

Para discutir risco, detecção e resposta no contexto brasileiro, o farmacêutico e professor do ICTQ - Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, Lysandro Borges. lembra que, durante a pandemia, atuou por quatro anos com testagem em larga escala, somando 180 mil testes e 70 artigos científicos publicados no Brasil e no exterior.

O caminho mais provável de entrada

Para Borges, o cenário mais plausível não começa com transmissão sustentada no território, mas com importação do vírus. “O vírus Nipah pode ser introduzido no Brasil por meio de um viajante”, disse. Ele argumenta que a janela de incubação favorece a passagem sem detecção, sobretudo quando não há triagem eficaz de sintomáticos e histórico de viagem.

O professor citou a própria característica temporal do Nipah como fator de risco operacional. “Com a incubação de 4 a 14 dias, podendo extrapolar para 45 dias, isso é muito plausível”, afirmou. Os intervalos descritos pela OMS sustentam a preocupação com vigilância baseada apenas em sintomas na chegada.

Na prática, isso desloca o foco do debate para o primeiro atendimento e para a capacidade de reconhecer rapidamente o paciente suspeito, antes que ele circule em serviços de urgência, internação e ambientes compartilhados.

Hospital é ponto crítico

Na avaliação de Borges, a transmissão em ambiente assistencial é a “porta” mais perigosa quando o caso não é isolado desde o início. “Se não houver as precauções e isolamento inicial, ele pode transmitir da mesma forma que qualquer vírus respiratório, por meio do contato prévio ou gotículas”, afirmou, defendendo barreiras como N95, higiene de mãos e fluxo restrito.

As recomendações de precaução e a possibilidade de transmissão pessoa a pessoa em contexto de cuidado aparecem em documentos técnicos internacionais, com orientação para medidas de controle e proteção de equipes.

O professor também chamou a atenção para a via alimentar, quando há consumo de seiva de tamareira ou alimentos contaminados por secreções de morcegos. “Existe a contaminação através de alimentos descrito em Bangladesh”, disse, citando como exemplo a exposição após mordida em frutas ou contato com alimento contaminado. Relatórios da OMS descrevem a associação de casos primários ao consumo de seiva crua e também registram transmissão pessoa a pessoa.

Quando acionar o protocolo

Borges defende que o alerta clínico deve combinar quadro compatível com história epidemiológica recente, sem esperar agravamento. Ele listou como sinais de atenção febre aguda com sintomas respiratórios importantes, como dispneia, hipoxemia, pneumonia ou síndrome do desconforto respiratório agudo, além de sinais neurológicos, como cefaleia intensa, rebaixamento do nível de consciência, convulsões ou encefalite.

Na triagem epidemiológica, o professor sugeriu considerar exposição nos últimos 45 dias, incluindo viagem ou residência em área com atividade de Nipah, contato próximo com caso suspeito ou confirmado e exposição relevante em serviços de saúde, quando houve contato sem equipamento de proteção com secreções.

Sobre o fluxo no pronto atendimento, ele propôs três medidas imediatas: isolamento, notificação e confirmação laboratorial coordenada com vigilância. Para notificação, citou o Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (CIEVS), estrutura do Ministério da Saúde voltada a resposta oportuna a emergências em saúde pública.

 

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No diagnóstico, o professor mencionou RT-PCR na fase aguda e sorologia em momento apropriado. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) descreve testagem por RT-PCR em amostras clínicas no início da doença e ELISA para anticorpos em fases posteriores.

Ao tratar do risco biológico, Borges afirmou que o Nipah é agente de alto risco e que amostras exigem fluxo formal de embalagem, transporte e referência laboratorial. O Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC) classifica o Nipah como patógeno de grupo de risco 4 e destaca exigências de contenção e proteção para manuseio de espécimes.

No Brasil, ele apontou a importância de integrar a resposta à rede laboratorial pública, incluindo os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (LACEN), estruturados no âmbito do Sistema Nacional de Laboratórios de Saúde Pública.

Tratamento: suporte e cautela

Borges foi direto ao tratar do que importa. “O que mais muda desfecho é suporte intensivo de alta qualidade e precoce”, disse, argumentando que a evolução pode ser rápida para insuficiência respiratória e encefalite. A OMS, de forma consistente, afirma que não há tratamento específico licenciado e que o cuidado é principalmente de suporte.

Ele citou terapias usadas de forma off-label, com evidência limitada, e separou o que considera dado clínico frágil de achados pré-clínicos:

  • ribavirina com base observacional histórica;
  • remdesivir com relatos de uso em surtos;
  • favipiravir com evidência mais relevante em modelos animais.

Revisões recentes descrevem que, até o momento, o cuidado permanece centrado em suporte e que drogas não aprovadas têm sido consideradas em contexto compassivo, com evidência ainda insuficiente para padronização ampla.

No campo da imunoterapia, o professor mencionou o anticorpo monoclonal m102.4 como via promissora, mas não disponível para rotina. Um estudo de fase 1 em humanos saudáveis avaliou segurança e farmacocinética do m102.4, apontando base clínica inicial para essa estratégia.

Na visão de Borges, é nessa zona cinzenta que o farmacêutico ganha centralidade. Ele descreveu cinco frentes:

  1. governança terapêutica e critérios de uso;
  2. checagem de função renal e hepática, eventos adversos, teratogenicidade e interações em ambiente de UTI;
  3. biossegurança e cadeia de suprimentos para EPI e materiais críticos;
  4. farmacovigilância e rastreabilidade;
  5. treinamento rápido da equipe em rotinas de isolamento e dispensação.

Ao final, ele pediu que a cobertura do tema não seja conduzida pelo sensacionalismo. “A informação salva vidas e o farmacêutico tem papel protagonista em qualquer surto como esse”, afirmou, defendendo que as lições da Covid-19 deixaram serviços e profissionais mais preparados para uma resposta coordenada.

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