Anvisa interdita 8 em cada 11 farmácias e importadoras que inspeciona, e a caneta clandestina segue sem endereço para lacrar

Anvisa interdita 8 em cada 11 farmácias e importadoras que inspeciona, e a caneta clandestina segue sem endereço para lacrar

Quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) cobra das farmácias magistrais de estéreis um padrão técnico rigoroso e fecha as portas de quem tropeça nele. Das 11 inspeções que a Agência realizou em farmácias de manipulação e importadoras em 2026, até o início de abril, oito terminaram em interdição. A caneta clandestina, sem fabricante identificado nem responsável técnico, chega ao paciente por camelôs e grupos de internet, e nas redes a tirzepatida já é vendida até em pó, para o comprador diluir e injetar em casa.

O padrão imposto às magistrais supera o exigido da própria indústria, de acordo com a vice-presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP), Danyelle Marini. "As nossas farmácias legalizadas são consideradas umas das melhores do mundo, mesmo porque seguem regras rígidas, que a Agência às vezes nem exige tanto para a indústria", afirmou ao podcast Acesso & Saúde, do ICTQ - Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, em episódio publicado em 19 de setembro de 2026.

A farmácia regular presta contas a mais de um fiscal. O CRF-SP inspeciona as farmácias em conjunto com a vigilância sanitária, para que o paciente tenha certeza de que o medicamento sai bem-preparado, contou Danyelle, que acompanha a fiscalização do conselho. A mão da Anvisa pesa na mesma medida. Das 19 farmácias de estéreis inspecionadas no programa federal referente a 2024, 16 foram interditadas total ou parcialmente, registra a própria Agência, que atribui as interdições de 2026 a falhas técnicas e de controle de qualidade.

O mercado sem endereço cresce em ritmo de recorde. A Polícia Federal (PF) apreendeu 165.589 unidades de emagrecedores no primeiro semestre de 2026, quase o triplo de todo o ano de 2025. A empresa de inteligência de mercado Scanntech estima que mais da metade das doses de GLP-1 consumidas no país circula fora do mercado formal. Se o rigor vale para quem está dentro do sistema, por que a mesma dureza não alcança quem opera fora dele?

A fiscalização sanitária aperta quem consegue enxergar

A farmácia tem CNPJ e porta para lacrar, e o vendedor de internet desaparece com um clique. Fiscalizar o abuso onde ele existe faz sentido, e travar um setor inteiro sob a suspeita de que o manipulado é falsificado penaliza farmácias essenciais até para os hospitais, afirmou a farmacêutica e professora do ICTQ, Priscila Dejuste, ao podcast Acesso & Saúde, em episódio publicado em 10 de agosto de 2026. A preocupação real deveria recair sobre quem usa produto contrabandeado nas doses que imagina, sem orientação de profissional de saúde, completou Priscila.

A própria Anvisa expôs o tamanho do problema em setembro deste ano, ao alertar para a venda de tirzepatida em pó na internet, com tutoriais para diluição e autoaplicação, sob risco de abscessos, sepse e morte. Medicamento injetável precisa ser reconstituído em ambiente que garanta esterilidade, afirmou a diretora da Anvisa responsável pela área de medicamentos, Daniela Marreco, em reportagem da Folha de S.Paulo publicada em 23 de setembro de 2026. Esse ambiente, com sala limpa e controle microbiológico, é justamente o que a farmácia magistral precisa comprovar para funcionar.

A estrutura da Agência reforça a assimetria. O controle de medicamentos pós-registro da Anvisa é acionado sobretudo por denúncias, queixas pontuais ou crises de mídia, concluiu o Tribunal de Contas da União (TCU) no Acórdão 2013/2026, relatado pelo ministro Bruno Dantas e julgado em 29 de julho. Os laboratórios públicos analisaram em média 329 amostras por ano entre 2020 e 2024, contra 1.583 em 2014.

Quando mira o mercado ilegal, a Agência costuma atingir a marca, e o comércio troca de rótulo. Foram dez ações de proibição de produtos irregulares com GLP-1 até o início de abril, seguidas do veto às canetas Gluconex e Tirzedral, de fabricante não identificado, e à paraguaia T36, em setembro. A maior ofensiva conjunta com a PF, a Operação Heavy Pen, de 7 de abril, cumpriu 45 mandados e teve laboratórios de manipulação e clínicas estéticas entre os alvos.

A cadeia clandestina começa na fronteira e termina no consultório

Desmontar essa cadeia, do financiamento à distribuição, exige Receita Federal, PF, Polícia Rodoviária Federal (PRF), vigilâncias sanitárias e conselhos profissionais trabalhando com a mesma informação, inclusive o Conselho Federal de Medicina (CFM), que vedou em agosto ao médico prescrever, aplicar ou intermediar tirzepatida sem registro válido. O produto clandestino entra por aeroportos e por terra, relatou Priscila. "Tem muita gente trazendo e comercializando um medicamento. Não dá para aceitar isso", disse.

"O Estado tem que saber dividir o joio do trigo", afirmou o deputado federal, Fausto Pinato (União Brasil-SP), ao podcast Acesso & Saúde, em episódio publicado em 17 de julho de 2026. A população recebe uma mensagem torta quando o Estado inspeciona com lupa quem tem licença e responsável técnico e enfrenta o comércio das redes sociais uma marca de cada vez.

A Anvisa ocupa a posição estratégica para liderar uma política integrada, da fronteira ao consultório, medida pela capacidade de desmontar a cadeia inteira, e não pela contagem de canetas apreendidas. Um produto sem registro, de origem desconhecida e aplicado em pacientes fora de qualquer controle sanitário representa o risco que merece prioridade máxima.

 

Nota editorial: Este conteúdo foi produzido originalmente pela equipe de jornalismo e conteúdos do ICTQ, com autoria de Egle Leonard e revisão técnica do Diretor Acadêmico Ismael Rosa, CRF-GO 7311.

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