Tirzepatida manipulada livra paciente de 170 unidades diárias de insulina

Um homem de 54 anos, com diabetes tipo 2 há 14 anos e dependente de cerca de 170 unidades de insulina por dia, abandonou completamente a insulinoterapia após sete meses de tratamento com tirzepatida manipulada por farmácia magistral regularizada. O caso foi acompanhado em clínica privada entre dezembro de 2023 e fevereiro de 2026 e publicado pelo médico William Rangel da Costa Oliveira no Brazilian Journal of Health Review, em abril de 2026. Junto com a insulina, o paciente perdeu 19,6 kg.

O dado mais expressivo está no laboratório. Antes da tirzepatida, o C-peptídeo do paciente era inferior a 0,4 ng/mL, marcador tradicionalmente lido como falência funcional das células beta do pâncreas. Depois do tratamento, subiu para 2,61 ng/mL, faixa de secreção preservada. A hemoglobina glicada caiu de 7,2% para 5,6%. O medicamento veio da StinPharma, farmácia de manipulação regularizada instalada em Alphaville, Barueri, São Paulo.

O ponto de partida era severo. Na primeira consulta documentada, em 1 de dezembro de 2023, o paciente aplicava insulina regular em três doses diárias de 30 unidades, somadas a 40 unidades de NPH pela manhã e outras 40 antes do jantar. Pesava 112,6 kg, com 1,80 m de altura e 28,1% de gordura corporal. Tinha hipertensão, dislipidemia, hipogonadismo em uso de testosterona e fazia tratamento urológico com laser e injeções intracavernosas para disfunção erétil grave por neuropatia diabética. A pressão arterial no exame inicial era de 190 por 100 mmHg.

O motivo da escolha pela fórmula manipulada foi econômico, não clínico. No artigo, Oliveira justifica: “preparação magistral devido à ausência do produto original no mercado brasileiro no ano de 2024”. A informação é verificável. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o Mounjaro ainda em 2023, mas a Eli Lilly só colocou o medicamento nas farmácias brasileiras em maio de 2025, por decisão comercial própria, enquanto aguardava estoque considerado suficiente. Durante esse intervalo, quem sustentou o tratamento dentro da legalidade foi a farmácia magistral.

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A dose que a farmácia entregou

O perfil do paciente afasta a leitura de uso estético. Ao longo de 2024, o esquema foi refinado para insulina glargina até 56 unidades pela manhã, associada a insulina ultrarrápida em doses de 20 a 40 unidades antes do almoço e do jantar, com ajuste por contagem de carboidratos. Entraram ainda semaglutida 1 mg por semana, dapagliflozina 10 mg por dia e metformina de liberação prolongada até 2 g por dia. O controle melhorou, com glicada em torno de 6,4%, mas ao custo de cerca de 5% do tempo em hipoglicemia. E o peso subiu, de 112,6 kg para 116,3 kg. A angiotomografia mostrou placas calcificadas nas artérias carótidas.

A tirzepatida entrou em dezembro de 2024. A formulação manipulada foi uma solução de 40 mg em 1,6 mL, com aplicação semanal equivalente a 5 mg. O efeito apareceu em dias. Nos primeiros 15 dias de 2025, a insulina basal caiu de 56 para 45 unidades diárias. Em janeiro, chegou a 30. As doses de insulina ultrarrápida despencaram de 20 a 40 unidades por refeição para 8 a 16 unidades, acompanhando a queda do apetite. Entre fevereiro e março, as aplicações antes do almoço e do jantar foram suspensas de vez.

Em 28 de fevereiro de 2025, a glicada já era de 5,8%. Em 6 de maio, marcava 5,6%, com glicemia de jejum de 111 mg/dL e peso de 98 kg. Entre junho e julho, a glargina caiu abaixo de 30 unidades por causa de hipoglicemias, até a suspensão total, em 9 de julho de 2025. Cinco dias depois, o médico chegou a cogitar a introdução de glicazida e recuou de imediato: o paciente seguia apresentando hipoglicemias confirmadas por monitorização contínua mesmo sem nenhuma insulina.

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O pâncreas que voltou a trabalhar

O exame decisivo saiu em 23 de julho de 2025, cerca de duas semanas após a retirada da insulina. Insulina de jejum de 9,8, glicada de 5,7%, glicemia de jejum de 107 mg/dL e C-peptídeo de 2,61 ng/mL. O LDL calculado ficou perto de 30 mg/dL, o que permitiu suspender a rosuvastatina. Em 21 de outubro, o paciente pesava 93 kg, com 20,8% de gordura corporal, glicada de 5,6%, C-peptídeo de 2,19 ng/mL, triglicerídeos de 78 mg/dL e creatinina de 0,83 mg/dL, abaixo do 1,31 mg/dL registrado um ano antes.

Em fevereiro de 2026, a glicada seguia em 5,8%, sem insulina e sem sulfonilureia. No artigo, Oliveira resume o desfecho: “observa-se remissão sustentada da dependência de insulina e restauração funcional significativa da secreção endógena de insulina”.

Para o médico, a virada do C-peptídeo não se explica por ajuste de receita. No artigo, Oliveira escreve: “a transição de um cenário de C-peptídeo indetectável para valores dentro da faixa de secreção preservada sugere mais do que simples otimização terapêutica, apontando para restauração funcional significativa de célula beta”. A hipótese que ele propõe é um desmascaramento de reserva funcional que estava suprimida pela toxicidade glicêmica crônica e pelo excesso de insulina aplicada por fora.

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O achado tem lastro na literatura de fase 3. No estudo SURPASS-1, a tirzepatida reduziu a proinsulina em cerca de 50%, diminuiu a razão proinsulina sobre C-peptídeo entre 47% e 49%, elevou o HOMA2-B entre 77% e 92% e reduziu o HOMA2-IR em até 23% na comparação com placebo. Sobre esses números, Oliveira registra no artigo: “análises sugerem que apenas parte da melhora em HOMA2-IR é explicada pela perda de peso, apontando para um efeito insulinossensibilizante intrínseco do agonismo GIP/GLP-1”. A tirzepatida age, portanto, além do emagrecimento.

O desmame que exigiu método

O caso também é uma lição de manejo. A literatura já descreve complicações metabólicas graves, como cetoalcalose diabética, em transições abruptas de insulina para agonistas GIP e GLP-1. Aqui, a retirada levou sete meses, dose a dose, sob monitorização contínua de glicose. No artigo, Oliveira conclui que “protocolos estruturados de redução de insulina, associados a monitorização contínua de glicose, podem mitigar riscos”. O resultado foi ausência de hipoglicemias graves, de cetoacidose e de qualquer evento de segurança relevante ligado à tirzepatida ao longo de 19 meses.

O próprio autor delimita o alcance do achado. Trata-se de relato de caso único, sem medidas seriadas de HOMA2-B e sem teste dinâmico de secreção, e ele defende estudos prospectivos para confirmar a hipótese. Ainda assim, sustenta que o caso reabre uma porta que a endocrinologia considerava fechada. No artigo, Oliveira levanta a hipótese de que, “em subsetores de pacientes com diabetes tipo 2 avançado, a reserva funcional de célula beta possa ser mais recuperável do que se supunha”.

Oliveira já participou do podcast Acesso & Saúde, do ICTQ, em que discutiu o tratamento do diabetes avançado e o papel da manipulação magistral no acesso ao medicamento. Assista ao episódio AQUI.

O que o caso documenta com clareza é outra coisa. Um medicamento manipulado por farmácia regularizada produziu, em um paciente real, resultado laboratorial mensurável, replicado em exames sucessivos, sustentado ao longo de 19 meses de acompanhamento e publicado em periódico científico. Enquanto a discussão regulatória segue presa ao argumento da insegurança da manipulação, existe prontuário apontando na direção oposta.

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