Ministério da Saúde solicitará inclusão do cabotegravir no SUS para PrEP injetável

Ministério da Saúde solicitará inclusão do cabotegravir no SUS para PrEP injetável

O Ministério da Saúde deve solicitar à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) a inclusão do cabotegravir injetável no SUS como nova estratégia de Profilaxia Pré-Exposição ao HIV, a PrEP.

A iniciativa foi apresentada durante a 26ª Conferência Internacional de Aids, sediada no Brasil, em 27 de julho de 2026. A expectativa do governo é que a tecnologia possa ser ofertada ainda em 2026, caso receba parecer favorável da Conitec e avance nas etapas de incorporação, compra e organização da rede.

Hoje, a PrEP disponível no SUS é oral e de uso contínuo, voltada a pessoas com maior risco de exposição ao HIV. A chegada de uma formulação injetável de longa duração ampliaria as alternativas de prevenção, especialmente para pessoas que enfrentam dificuldade de adesão ao comprimido diário ou que se beneficiariam de uma estratégia com menor frequência de administração.

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O que é o cabotegravir

O cabotegravir é um antirretroviral da classe dos inibidores da integrase. Seu mecanismo de ação bloqueia a integração do material genético do HIV ao DNA da célula humana, etapa essencial para que o vírus estabeleça infecção produtiva.

Na formulação injetável de longa duração, o medicamento é administrado por via intramuscular. Após o esquema inicial, a aplicação passa a ocorrer a cada dois meses, o que diferencia a tecnologia da PrEP oral diária.

No Brasil, a Anvisa aprovou o Apretude, cabotegravir em suspensão injetável, em 2023, como parte de uma estratégia de prevenção combinada ao HIV. A indicação aprovada contempla adultos e adolescentes acima de 12 anos, com pelo menos 35 kg, em risco aumentado de adquirir HIV-1 por via sexual.

É importante diferenciar prevenção de tratamento. O cabotegravir injetável para PrEP é indicado para pessoas HIV negativas com risco aumentado de exposição. Antes de iniciar e antes de manter as aplicações, é necessário confirmar que a pessoa não tem infecção pelo HIV, inclusive pela possibilidade de infecção aguda ainda não diagnosticada.

Esse cuidado é central porque o uso de antirretroviral isolado em uma pessoa já infectada pode favorecer resistência viral, especialmente em uma classe estratégica como os inibidores da integrase.

PrEP injetável pode melhorar adesão

A PrEP oral é eficaz quando usada corretamente, mas a adesão diária continua sendo um desafio. Rotina irregular, estigma, medo de exposição da vida sexual, dificuldade de acesso ao serviço, esquecimento e vulnerabilidade social podem comprometer a continuidade.

A PrEP injetável muda parte dessa lógica. Em vez de tomar comprimidos todos os dias, a pessoa comparece ao serviço de saúde em intervalos programados para receber a aplicação. Isso pode reduzir barreiras de adesão, mas cria outras exigências: agenda regular, comparecimento bimestral, controle de atrasos, testagem adequada e comunicação clara sobre o que fazer em caso de dose perdida.

A tecnologia também não substitui outras medidas de prevenção. PrEP não protege contra outras infecções sexualmente transmissíveis, como sífilis, gonorreia, clamídia e hepatites virais. O acompanhamento precisa manter testagem periódica, vacinação quando indicada, aconselhamento, preservativos e avaliação contínua de risco.

O farmacêutico clínico no cuidado em HIV

A possível chegada do cabotegravir ao SUS reforça a importância da clínica farmacêutica nas linhas de cuidado em HIV. O medicamento amplia o arsenal de prevenção, mas sua efetividade no mundo real dependerá de acesso, adesão, acompanhamento e uso correto.

No cuidado à pessoa vivendo com HIV, a atuação farmacêutica envolve muito mais que dispensação. Inclui avaliação da farmacoterapia, identificação de problemas relacionados ao uso de medicamentos, orientação sobre adesão, manejo de eventos adversos, análise de interações, acompanhamento de carga viral, compreensão do esquema antirretroviral e comunicação com a equipe multiprofissional.

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Em pacientes em terapia antirretroviral, a adesão é decisiva para supressão viral sustentada. Carga viral indetectável reduz progressão da doença, melhora prognóstico e impede transmissão sexual do HIV quando mantida de forma consistente. A consulta farmacêutica ajuda a identificar barreiras concretas: efeitos adversos, polifarmácia, horários incompatíveis, baixa compreensão do tratamento, uso de álcool ou outras substâncias, sofrimento psíquico, insegurança alimentar e estigma.

PEP e PrEP exigem manejo de tempo, risco e continuidade

Na PEP, o fator tempo é crítico. A profilaxia pós-exposição deve ser iniciada o mais rapidamente possível após uma exposição de risco, preferencialmente nas primeiras horas e até 72 horas. O esquema dura 28 dias e exige orientação intensa, porque muitas pessoas chegam ao serviço em situação de ansiedade, medo, violência sexual, acidente ocupacional ou exposição inesperada.

Nessa etapa, a intervenção farmacêutica se organiza em quatro eixos práticos: indicação, efetividade, segurança e adesão. É preciso confirmar se a exposição justifica PEP, orientar o uso correto, alertar sobre eventos adversos, reforçar a importância de completar o ciclo e garantir seguimento com testagens.

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Na PrEP, o desafio muda. A pessoa não chega necessariamente após uma exposição, mas dentro de um contexto contínuo de prevenção. A avaliação envolve risco sexual, testagem para HIV, triagem de infecções sexualmente transmissíveis, função renal quando há uso de tenofovir, hepatites virais, gestação, amamentação, interações e capacidade de manter acompanhamento.

Com o cabotegravir, parte do monitoramento será diferente da PrEP oral. A ausência de uso diário pode favorecer a adesão, mas a agenda de aplicação passa a ser o centro do cuidado. Atrasos, interrupções, retomada após perda de dose e necessidade de testagem antes das aplicações serão pontos sensíveis da rotina.

Nova tecnologia exige organização da rede

A incorporação do cabotegravir, se aprovada, não será apenas uma troca de formulação. A PrEP injetável exigirá uma rede preparada para armazenar, dispensar, administrar, registrar, monitorar e acompanhar usuários ao longo do tempo.

A farmácia clínica terá papel importante no desenho desses fluxos. O serviço precisará garantir rastreabilidade, controle de estoque, registro de doses, acompanhamento de comparecimento, orientação individualizada e articulação com testagem, enfermagem, infectologia, atenção primária e serviços especializados.

Também será necessário definir quais populações terão prioridade inicial, especialmente se houver limitação de oferta. Pessoas com dificuldade comprovada de adesão à PrEP oral, maior vulnerabilidade ao HIV, barreiras de acesso ou maior risco de descontinuidade podem ser consideradas em estratégias de implementação, conforme critérios do Ministério da Saúde e da Conitec.

A solicitação de incorporação do cabotegravir sinaliza um novo momento da prevenção ao HIV no Brasil. Depois de consolidar a PrEP oral e a PEP como estratégias do SUS, o país passa a discutir uma tecnologia de longa duração, com potencial para ampliar adesão e alcançar pessoas que não se adaptam ao comprimido diário.

O avanço, no entanto, dependerá menos da inovação isolada e mais da capacidade de transformá-la em cuidado contínuo. Em HIV, prevenção e tratamento exigem vínculo, confidencialidade, escuta qualificada, monitoramento e uso racional de antirretrovirais. É nessa engrenagem que a atuação farmacêutica se torna decisiva para que novas tecnologias cheguem ao usuário com segurança, efetividade e continuidade.

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