O farmacêutico Fabricio Pamplona está no centro de uma das mudanças mais relevantes do mercado brasileiro de cannabis medicinal. Doutor em Farmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), referência internacional em Cannabis medicinal e empreendedor com atuação em inovação em saúde e estratégia regulatória, ele mira agora a liderança de um segmento em expansão no país: o fornecimento de CBD isolado para farmácias de manipulação.
À frente da BrasCann Farmacêutica, ao lado do economista Alex Silveira, Pamplona aposta que o novo ciclo regulatório da Anvisa pode deslocar parte da cannabis medicinal do modelo concentrado em produtos prontos para uma lógica mais farmacêutica, técnica e personalizada. O ativo central dessa virada é o canabidiol isolado, um pó branco cristalino, sem cheiro e sem sabor, com pureza mínima de 98%, padrão que amplia as possibilidades de desenvolvimento de formulações magistrais.
Em entrevista ao ICTQ, Pamplona afirmou que a empresa já fornece CBD isolado para 23 farmácias de manipulação e viu sua base de clientes saltar de 16 para 23 unidades em poucas semanas, crescimento próximo de 50%. A unidade de insumos, lançada em março, já responde por 32% da receita da companhia.
“As farmácias estão buscando e praticamente ninguém tem insumo”, disse Pamplona ao ICTQ.
Da Farmacologia ao mercado de cannabis medicinal
A atuação de Pamplona ajuda a explicar por que a aposta da BrasCann vai além da distribuição de um novo insumo. Sua trajetória foi construída na fronteira entre pesquisa aplicada, discussão regulatória e desenvolvimento de negócios em saúde, três dimensões que se tornaram decisivas para a consolidação da cannabis medicinal no Brasil.
Ao longo de mais de duas décadas dedicadas ao estudo dos canabinoides, ele participou de iniciativas pioneiras no setor, acompanhou a evolução das normas sanitárias e atuou em debates ligados à estruturação do marco regulatório da área junto à Anvisa. Também foi conselheiro do CNPq-MCTI, experiência que reforça sua conexão com políticas de ciência, tecnologia e inovação.
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Na BrasCann, esse repertório aparece no modelo de atuação da empresa. A companhia não pretende ser apenas uma fornecedora de matéria-prima. A estratégia inclui suporte farmacotécnico às farmácias, orientação sobre formulação, treinamento de farmacêuticos e educação médica.
A proposta é ocupar um espaço técnico em um mercado que exige qualidade, rastreabilidade, estabilidade, padronização e domínio regulatório. Para o setor farmacêutico, a trajetória de Pamplona mostra como a combinação entre pesquisa, regulação e visão empresarial pode abrir novas frentes de atuação em áreas emergentes da saúde.
O que mudou na Anvisa
O avanço ocorre após uma sequência de mudanças regulatórias. A RDC 327/2019 criou a categoria de produtos de Cannabis para fins medicinais e permitiu sua comercialização em farmácias e drogarias mediante prescrição. A RDC 660/2022 regulamentou a importação excepcional de produtos derivados de Cannabis por pessoa física, mediante prescrição de profissional legalmente habilitado.
Em 2026, a Anvisa publicou novas regras para produção, fabricação, importação, controle, rotulagem, dispensação e enquadramento de produtos e insumos farmacêuticos ativos de cannabis medicinal. A RDC 1.013/2026 trouxe requisitos para produção, rastreabilidade, controle e segurança. Já a RDC 1.015/2026 atualizou o marco regulatório sobre a autorização sanitária para fabricação e importação de produtos de Cannabis, substituindo a regulamentação anterior da RDC 327/2019.
A Anvisa também admitiu a possibilidade de manipulação desses produtos por farmácias magistrais, com previsão de norma específica posterior para tratar do tema de forma segura e controlada. Para empresas como a BrasCann, essa sinalização reorganiza o horizonte do mercado, porque passa a envolver não apenas produtos acabados, mas também insumos, documentação técnica, qualificação de fornecedores, treinamento e controle de qualidade.
“Isso é histórico. Com a entrada do CBD no setor magistral, a cannabis deixa de ser apenas uma marca na prateleira e vira um mar de soluções possíveis, centradas na necessidade dos pacientes”, afirmou Pamplona ao ICTQ.
Personalização, acesso e concorrência
A tese da BrasCann se apoia em dois pontos: personalização e custo. A partir do CBD isolado, farmácias de manipulação podem desenvolver soluções orais diluídas em óleo, cápsulas, sprays sublinguais e formulações tópicas, como cremes, géis e pomadas, sempre conforme prescrição e dentro das exigências regulatórias aplicáveis.
Para Pamplona, esse modelo pode trazer uma vantagem importante em relação aos produtos industrializados. Enquanto a indústria opera com ciclos mais longos de desenvolvimento, autorização, produção e distribuição, a farmácia magistral pode adaptar forma farmacêutica, dose, veículo e concentração conforme a necessidade do paciente e a orientação do prescritor.
O argumento econômico também pesa. Segundo as informações apresentadas pela empresa, um mês de tratamento com produtos industrializados pode custar entre R$ 700 e R$ 1.200 nas drogarias. Com a manipulação, Pamplona estima que esse valor possa cair para abaixo de R$ 500, dependendo da formulação, com redução potencial de até 50%.
A mudança ocorre em um mercado em expansão. Dados da Kaya Mind citados pela BrasCann apontam que a cannabis medicinal movimentou R$ 970 milhões no Brasil em 2025, alta de 14% sobre o ano anterior. O setor atende cerca de 870 mil pacientes e deve ultrapassar R$ 1 bilhão em 2026, podendo chegar a R$ 1,2 bilhão até 2027.
BrasCann aposta em curadoria e estratégia regulatória
A BrasCann se posiciona como uma distribuidora farmacêutica especializada em produtos voltados à modulação do sistema endocanabinoide. O portfólio inclui fitocanabinoides como CBD, THC, CBG e CBN, além de blends com ingredientes naturais e canabimiméticos, substâncias que mimetizam ações de canabinoides naturais.
A empresa também representa a Bombay Hemp Company, conhecida como Boheco, companhia indiana com atuação em canabinoides dentro da medicina ayurvédica. Segundo a BrasCann, os produtos são fabricados sob normas de qualidade farmacêutica internacional, com certificação GMP.
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A proposta da companhia combina conhecimentos tradicionais, pesquisa moderna e leitura regulatória. Em vez de atuar apenas com produtos comuns no mercado, a empresa afirma buscar soluções voltadas a doenças crônicas, complexas e de difícil manejo, com atuação em áreas como neurologia, oncologia, psiquiatria, dermatologia e bem-estar preventivo.
Do ponto de vista farmacêutico, o ponto central está na complexidade técnica da cadeia. Trabalhar com cannabis medicinal exige controle de origem, qualificação de fornecedores, especificação de insumos, documentação técnica, estabilidade, rastreabilidade, farmacovigilância e orientação qualificada aos profissionais que manipulam, dispensam ou acompanham o uso desses produtos.
Um mercado que exige farmacêuticos mais estratégicos
A história de Pamplona mostra que a cannabis medicinal no Brasil não avança apenas por decisões judiciais, demanda de pacientes ou interesse de mercado. Ela avança também pela atuação de profissionais capazes de conectar pesquisa, regulação, tecnologia, qualidade e negócio.
O movimento da BrasCann é um exemplo de como novas áreas podem ser ocupadas quando há domínio técnico e visão estratégica. O mercado magistral de CBD exige conhecimento em farmacotécnica, controle de qualidade, boas práticas, prescrição, dispensação, legislação sanitária e educação em saúde. Também exige capacidade de diálogo com médicos, pacientes, farmácias, associações, fornecedores e órgãos reguladores.
A próxima disputa da cannabis medicinal no Brasil pode não estar apenas nas marcas que chegam às prateleiras, mas nos insumos que tornam possível formular tratamentos individualizados com padrão farmacêutico. Se essa tese se confirmar, farmacêuticos terão papel decisivo na construção de uma cadeia mais segura, competitiva e centrada no paciente.
Pamplona sintetiza essa mudança como uma fase mais técnica e transformadora para o setor.
“A cannabis entra em uma nova fase, menos barulhenta, mais técnica e possivelmente mais transformadora pela escala que vai atingir. Durante anos, o setor discutiu autorização de produtos e regulamentação. Agora começamos a discutir personalização, escala e ampliação do acesso”, afirmou ao ICTQ.
Para o mercado farmacêutico, a mensagem é clara: inovação não está apenas no produto final. Ela também nasce na formulação, no insumo, na estratégia regulatória, na qualidade e na capacidade de transformar conhecimento técnico em solução viável para pacientes e para o sistema de saúde.
Capacitação farmacêutica
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