O ácido acetilsalicílico, princípio ativo da aspirina, segue como uma das medidas iniciais mais importantes diante da suspeita de infarto agudo do miocárdio. Sua ação antiagregante plaquetária ajuda a limitar a progressão do trombo que obstrui a artéria coronária, reduzindo o risco de morte quando administrado precocemente e quando não há contraindicações.
O benefício, porém, não transforma o medicamento em substituto do atendimento de urgência. Dor torácica persistente, intensa, opressiva ou associada a falta de ar, sudorese, náuseas, palidez, tontura ou irradiação para braço, costas, pescoço ou mandíbula exige acionamento imediato do Samu, pelo telefone 192, ou avaliação em pronto-socorro com eletrocardiograma.
A conduta precisa ser rápida porque o tempo entre o início dos sintomas e a desobstrução da artéria influencia diretamente o prognóstico. Quanto menor esse intervalo, maior a chance de preservar o músculo cardíaco e reduzir sequelas.
Mastigar acelera a resposta
No infarto agudo, a Aspirina é utilizada pelo efeito de inibição plaquetária. Ao reduzir a agregação das plaquetas, o fármaco dificulta o aumento do coágulo no local da ruptura da placa aterosclerótica, mecanismo central em muitos casos de síndrome coronariana aguda.
Diante de suspeita de infarto, a orientação frequentemente adotada nos protocolos de emergência é a administração precoce da Aspirina, quando não há contraindicações conhecidas. O uso mastigado acelera a absorção em comparação à ingestão convencional, ponto relevante em uma condição na qual minutos podem alterar o desfecho.
Ainda assim, o medicamento deve ser entendido como parte da resposta inicial, não como medida isolada. A pessoa com suspeita de infarto não deve aguardar melhora dos sintomas em casa após o uso da Aspirina. O acionamento do atendimento de emergência deve ocorrer imediatamente.
Nem toda dor torácica pede Aspirina
Aspirina é pilar terapêutico em muitas apresentações de infarto, mas não é indicada para qualquer dor no peito. Dissecção de aorta, hemorragias digestivas e outras emergências podem produzir sintomas sobrepostos e tornar o uso da Aspirina inadequado ou perigoso.
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Entre as principais contraindicações estão alergia grave ao ácido acetilsalicílico, sangramento ativo, pressão arterial muito elevada e descontrolada, hemofilia e condições associadas à queda importante de plaquetas. O uso concomitante de anticoagulantes, histórico de sangramento gastrointestinal e risco hemorrágico elevado também exige cautela.
A diferenciação entre as causas de dor torácica depende de avaliação clínica, eletrocardiograma e, quando indicado, exames complementares. Por isso, dor no peito persistente, intensa ou acompanhada de sintomas sistêmicos deve ser tratada como emergência até prova em contrário.
Estudo brasileiro reacende debate sobre segurança gastrointestinal
A segurança da Aspirina também é tema de investigação fora do contexto agudo. Um estudo brasileiro publicado no The Journal of Clinical Pharmacology, intitulado “Acetylsalicylic acid daily vs acetylsalicylic acid every 3 days in healthy volunteers: effect on platelet aggregation, gastric mucosa, and prostaglandin E2 synthesis”, avaliou se o uso do fármaco a cada três dias poderia manter o efeito antiagregante com menor impacto sobre a mucosa gástrica.
A pesquisa foi desenvolvida no doutorado do farmacêutico, Plínio Minghin Freitas Ferreira. O estudo incluiu 24 voluntários saudáveis, divididos entre uso diário de Aspirina por um mês e uso a cada três dias, com placebo nos dias de intervalo.
Os resultados indicaram manutenção do efeito sobre a agregação plaquetária nos dois esquemas. A diferença apareceu na produção de prostaglandina E2, associada à proteção gástrica: no grupo de uso diário, houve redução de cerca de 50%; no esquema a cada três dias, essa queda não foi observada em relação aos níveis basais.
O achado sugere uma possibilidade terapêutica interessante para prevenção cardiovascular em contextos específicos, apesar de não alterar a conduta diante da suspeita de infarto agudo.
Prevenção e emergência são decisões diferentes
A discussão sobre esquemas alternativos de Aspirina pertence ao campo da prevenção cardiovascular e da individualização terapêutica. No infarto agudo, a lógica é outra: identificação rápida dos sintomas, acionamento da emergência, eletrocardiograma precoce, estratificação de risco e, quando indicado, reperfusão por angioplastia com stent ou cirurgia de revascularização.
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Enquanto aguarda atendimento, a orientação geral é permanecer em repouso, evitar esforço físico e não dirigir até o hospital. Complicações como arritmias graves e parada cardiorrespiratória podem ocorrer nas primeiras horas do evento.
Aspirina pode ser decisiva no manejo inicial do infarto, mas seu benefício depende do contexto correto. O medicamento reduz a progressão do trombo, mas não abre sozinho a artéria obstruída, não confirma diagnóstico e não substitui a rede de urgência.
O que observar na suspeita de infarto
Os sinais mais associados ao infarto incluem dor ou pressão intensa no centro do tórax, sensação de aperto, queimação ou peso no peito, irradiação para braço esquerdo, ambos os braços, ombros, costas, pescoço ou mandíbula, falta de ar, suor frio, náuseas, vômitos, tontura, palidez e fraqueza intensa e repentina.
Em mulheres, idosos e pessoas com diabetes, a apresentação pode ser menos típica, com falta de ar, mal-estar, náuseas, fadiga súbita ou dor em regiões não clássicas. Essa variabilidade reforça a importância de não atrasar o atendimento quando o quadro é persistente, intenso ou diferente do habitual.
Ao observar sinais compatíveis com infarto, especialmente em farmácias comunitárias, clínicas, serviços de saúde ou durante uma orientação farmacêutica, a conduta deve ser o encaminhamento imediato do paciente para atendimento hospitalar ou o acionamento do serviço de emergência. A intervenção farmacêutica, nesse contexto, não está em tentar fechar o diagnóstico, mas em reconhecer sinais de gravidade, evitar atrasos e orientar a busca urgente por avaliação médica.
A Aspirina permanece como um fármaco antigo, barato e clinicamente relevante. A novidade não está em redescobrir a aspirina, mas em compreender melhor quando ela salva vidas, quando pode oferecer risco e por que sua utilização exige a mesma precisão técnica que qualquer decisão crítica em cardiologia.
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